Sociedade

Máfia Imobiliária resiste mesmo
após o escândalo do Semasa

DANIEL LIMA - 05/09/2012

A Máfia Imobiliária que dominou o Semasa principalmente durante a Administração Aidan Ravin (isso não quer dizer que não agia antes, porque agia mesmo, só que de maneira mais discreta, com intervalos de seriedade, é verdade) está resistindo às investigações do Ministério Público de Santo André. Não se sabe até quando os integrantes de uma organização tanto interna (nos interiores da autarquia de água e esgoto de Santo André) quanto externa (de empresários inescrupulosos e também de empresários levados a delitos para se manterem vivos no mercado) vão se safar dos rigores da lei. Criou-se um cinturão de ferro para proteção mútua, mas há fissuras que podem permitir ao MP devassa completa.


 


Não é difícil seguir os passos dos malversadores. O próprio advogado Calixto Antônio Junior, que atuava no Semasa a mando de Aidan Ravin, já forneceu as pistas à comprovação de uma delinquência generalizada que se concentrava principalmente nos grandes empreendimentos imobiliários que Santo André sediou nos últimos anos.


 


Há especialistas no Semasa que poderiam colaborar anonimamente para esclarecer todos os pontos. Eles prestariam um serviço público de informações confiáveis ao mesmo tempo em que estariam a salvo de retaliações, porque o jogo é muito pesado. Tão pesado que mesmo na mídia poucos, para dizer quase ninguém, ousam evocá-lo. Os manipuladores das trambicagens que envolvia o Plano Diretor de Santo André chegaram a subestimar eventuais contratempos porque jamais acreditaram na possibilidade de denúncia.  Tanto quanto a mulher do então presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, no recolhimento do dinheiro liberado pelo publicitário Marcos Valério.


 


Acho engraçado quando um ou outro jornal escreve sobre o “suposto” esquema de propinas no Semasa. Não há supostos quando há provas e as provas estão disponíveis nos processos que culminaram na liberação de obras completamente fora dos parâmetros legais.


 


Tão escandaloso quanto o escândalo em si (que me permitam a redundância, mais que justificada) é o silêncio covarde e interesseiro de instituições que (agora sim cabe a condicionalidade) supostamente representam espectros da sociedade de Santo André.


 


Tolerância total 


 


Há entre os festeiros no uso e na ocupação do solo uma cumplicidade indecorosa. Mesmo quem não tem nada diretamente com o cheiro da brilhantina dos despautérios prefere silenciar-se à botar a cara em mobilizações de descontentamento. Existe um pacto informal de tolerância total às tramoias. Joga-se sempre com a perspectiva de obterem-se vantagens futuramente. Quem disse que o silêncio é de ouro não imaginava que o silêncio desavergonhado é um andar inteiro de dinheiro. Principalmente em apartamentos de classe média alta.


 


Para quem não se lembra ou eventualmente não acompanhou as denúncias de Calixto Antônio Júnior, basta recordar que ele sugeriu que se selecionassem os 40 maiores empreendimentos imobiliários de Santo André nos últimos tempos e se confrontassem os papéis que sustentaram a execução das obras com a legislação em vigor, acrescendo-se uma investigação física nos respectivos endereços. O Semasa conta com técnicos aptos a destrinchar cada empreendimento. Há também profissionais fora dos quadros da autarquia que decifram aparentes enigmas num piscar de olhos.


 


Fossem representados por uma direção que não ignorasse o escândalo, os empresários que sofrem com a competição desleal de assemelhados mais íntimos dos escaninhos públicos poderiam contribuir para recolocar o setor num nível de grandeza ética há muito solapado. Esperar que um grupo de representantes do mercado imobiliário, à parte da oficialidade da Associação dos Construtores, decida ir às últimas instâncias para dar transparência à fruição da indústria imobiliária na Província do Grande ABC, a partir de Santo André, é sonhar demais.


 


Silêncio constrangedor


 


Sob o império do individualismo competitivo, cada um só enxerga o próprio nariz. Quanto muito prepara uma armadilha aqui, outra ali, para livrar-se do concorrente indigesto. As cotoveladas para aproximarem-se do Poder Público é o preço do funil de seletividade que demarca a corrida de espermatozoides em direção a lucros altíssimos. Quem conhece o metiê sabe que não há muita diferença entre o que se pratica nos bastidores imobiliários e o mercado de carne. O outro mercado de carne, não o convencional.


 


O silêncio da Associação dos Construtores é constrangedor porque, insisto na mesma tecla, a atividade imobiliária é de profundo interesse e repercussão sociais. Mas como imaginar algo diferente se o próprio dirigente da entidade, Milton Bigucci, é acusado pelo denunciante Calixto Antônio Júnior de beneficiar-se das maracutaias que cristalizaram a Máfia Imobiliária? Sem contar o caso já aqui abordado do arremate de área pública de São Bernardo em farsesco leilão.


 


Os coronéis do cimento armado da Província do Grande ABC são poderosos porque não se limitam, vários deles, a manobrar os cordéis do setor. Não faltam os coronéis penetras que, enriquecidos em outras áreas, principalmente por atuarem no entorno da atividade pública, participam ativamente do sistema de proteção grupal. Prevalecem entre eles os mandamentos de mafiosos que se respeitam porque se temem.


 


Por essas e por outras o prefeito Aidan Ravin não tem o menor interesse em ver o Semasa transparente. A queda da cúpula não garante que novos mecanismos de irregularidades deixem de emperrar deliberadamente uma engrenagem vocacionada a criar dificuldades para vender facilidades. Somente um comitê integrado por gente especializada, sem risco à carreira, mesclado de representantes da sociedade sob vigorosa atenção, com prestação de contas públicas a cada semestre, retiraria a autarquia da zona de penumbra gerencial. Quem vai colocar o guizo da responsabilidade coletiva no pescoço do gato das malandragens? 


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