Sociedade

Aidan versus Acisa: briga que
pode iluminar novos horizontes

DANIEL LIMA - 14/09/2012

A negativa do prefeito Aidan Ravin em participar de uma sabatina na Acisa (Associação Comercial de Santo André) comporta várias nuances. No fundo, no fundo, as duas partes não têm razão, embora também contem com motivos para se sentirem discriminadas. É isso o que dá sustentar uma institucionalidade opaca, no caso da Acisa, e de fechar-se à sociedade, no caso do prefeito petebista.


 


Não somos uma Província por acaso. Vivemos em meados do século passado. Perdemos o timing da modernização social e dos desdobramentos de partos metropolitanos que recomendam novos relacionamentos. Ainda achamos que sociedade espelha-se no que se vê nas colunas sociais de jornais e de revistas de deslumbrados anônimos e supostas celebridades, nas quais tudo parece as mil maravilhas -- mesmo que boa parte dos habitués esteja matando cachorro a grito.


 


O prefeito Aidan Ravin conta com motivos de sobra para ter se negado a ir à Acisa, mesmo que isso pareça antidemocrático. Ter motivos não significa, entretanto, que esteja forrado de razões. O candidato à reeleição poderia ter respondido que iria, deveria ir, mas ressalvaria as objeções que o conduziriam à situação de protesto.


 


A Acisa, diz o prefeito, não é uma entidade apartidária. E tem razão, quando se sabe que, conforme mesmo declarou nas páginas do Diário do Grande ABC, o presidente da entidade, Evenson Dotto, há quatro dirigentes engajados em candidaturas diversas. A suposta democratização interpartidária identifica, na realidade, os pecados capitais da Acisa. A vice-presidente Oswana Fameli, licenciada, é candidata a vice-prefeita na chapa do petista Carlos Grana. Seria esse o principal ponto de relutância de Aidan Ravin a se expor aos diretores e associados da Acisa. Assessores recomendaram ausência, porque o terreno poderia estar minado.


 


Apartidarismo ficcional


 


O apartidarismo da Acisa e de entidades assemelhadas é uma balela de mais de meio século. Há sempre um candidato em especial a ser apoiado pela presidência e dirigentes mais próximos. Em tempos passados, quando o PT não se havia convertido em festival de interesses contraditórios, a direção da Acisa execrava a agremiação. É natural que agora, multifacetado em objetivos sem limites, o PT tenha tratamento diferente. 


 


Até mesmo Duílio Pisaneschi, integrante do Conselho Diretor da Acisa e considerado um dos mais renitentes inimigos do PT, juntou-se a Carlos Grana. No jantar de adesão ao petista, que visou à arrecadação de fundos, Duílio Pisaneschi, ex-deputado federal, estava lá. Os interesses pessoais e corporativos lhe são muito mais caros que a coerência ideológica pressupostamente oposta à do PT. Mas, no fundo, pensando bem, não há incoerência nenhuma de Duílio Pisaneschi, porque o PT virou o que eram os partidos que seus militantes chamavam de conservadores nos anos 1990.


 


Mesmo com a Torre de Babel de partidarismos que envolvem a Acisa e outras entidades de classe, seria possível transformar os encontros com os candidatos a prefeito em momentos mais produtivos. Para isso, primeiro a Acisa e as demais deveriam organizar uma agenda econômica de dupla face. Numa, o desenvolvimento econômico municipal. Na outra, o desenvolvimento econômico regional. Não haveria incompatibilidades. A autonomia da agenda municipal caberia a cada entidade, enquanto a pauta regional obedeceria ao princípio do coletivismo unânime. Tudo seria bem melhor do que temos hoje -- porque hoje não temos nada, exceto passos erráticos.


 


Municipalismos e regionalismos


 


O que mais falta a essas entidades é uma integração regional que deixe de lado questões conflitantes e se concentre em consensos. A pauta regional poderia ser resultado de reuniões objetivas. Há uma porção de vetores que é unanimidade aos representantes econômicos da região. E há especificidades municipais que ficariam sob a jurisdição de cada entidade. Nada que atrapalhasse o conjunto da obra. Muito pelo contrário.


 


Além das Associações Comerciais (o complemento “e Industriais” é um exagero, porque o setor de transformação não faz parte do cardápio ativo dessas entidades) também as representações dos Ciesps (Centro das Indústrias) poderiam somar esforços e inteligência para amalgamar os interesses corporativos e comunitários que devem andar lado a lado quando se requerer participação das respectivas prefeituras.


 


Com uma agenda municipal bem elaborada e uma agenda regional também respaldada por demandas de empresários e da sociedade, não haveria pegadinhas nem perda de tempo em períodos eleitorais, quando, por tradição, as associações comerciais e os Centros das Indústrias recebem candidatos.


 


Feito isso com competência, duvido que o prefeito Aidan Ravin tivesse como fugir da raia porque, por antecipação, ele saberia exatamente o que encontraria de demanda dos interlocutores.


 


Não vou me estender sobre detalhamentos dessa operação de aproximação entre forças produtivas e a classe política da região. Enquanto não houver um mínimo de planejamento sobre o que se pretende para o futuro de cada Município e da Província do Grande ABC como um todo, qualquer um dos candidatos a qualquer coisa pública poderá avocar desconfiança quanto aos objetivos que cercariam sua presença numa sabatina. Aidan Ravin certamente desconfiou de uma armadilha que poderia chamuscar-lhe ainda mais o prestígio.


 


Demandas estão aí


 


Não existe dificuldade alguma em preparar uma pauta com pelo menos 10 pontos prioritários em nível municipal e outros 10 em nível regional e disseminá-los aos representantes do Poder Público Municipal e às instâncias regionais da Província do Grande ABC. Basta querer, porque os problemas estão ai clarificados há tanto tempo. É sobre esse conjunto de medidas que deveria girar o eixo de questionamentos e de compromisso dos políticos, independentemente do calendário eleitoral. Enquanto não se derem conta disso, vai sobrar muita desconfiança mútua, com a eternização da expectativa frustrada porque os fatos costumam atropelar os improvisos.


 


Espera-se, em função de tudo isso que sintetizo em pouco mais de sete mil caracteres, uma reação coletiva das entidades empresariais da região.


 


O incidente em Santo André poderia ser reproduzido em qualquer outro endereço municipal se houvesse protagonistas com a coragem mesmo que meio suicida de Aidan Ravin. Ou seja, o prefeito de Santo André deu um tiro no que viu e acertou não que não viu: mirou o elefante de uma retaliação político-eleitoral por conta de idiossincrasias pessoais e institucionais e acertou a mosca de um choque de modernização nas relações municipais e regionais.


 


Espera-se, sinceramente, que as lideranças empresariais da região não sejam apenas uma ficção, uma força de expressão. Está na hora de ingressarmos em nova era. A Acisa mais que septuagenária não deve exibir a retórica da tradição como ponto de respeito e consideração. O avançar do calendário impõe contrapartidas de empenho e atualização que, quando não atendidas, denunciam o estado de esclerose estrutural e funcional de instituições outrora tratadas como vanguardistas.  


 


Que o jovem Evenson Dotto parta para essa iniciativa e deixe de chorar o leite derramado por um prefeito que pode ser tudo, mas não costuma rasgar dinheiro. A Acisa talvez insista em errar no excesso de preocupação marqueteira. Deveria, portanto, introduzir medidas táticas e estratégicas fundamentadas nos anseios do universo que lhe diz respeito -- os empreendedores e a sociedade como um todo.


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