Imprensa

Bigucci, Saged e Diadema, três
enigmas a serem desvendados

DANIEL LIMA - 30/10/2012

Há pelo menos três enigmas a me desafiar na Província do Grande ABC. Vou tratar – ou melhor, estou tratando – cada um com o zelo que todo jornalista deve ter quando pretende informar com exatidão, mesmo que tenha de recorrer a um drible na logística de execução que recomenda a linha reta, de tiro e queda. Muitas vezes dar a volta significa pegar o bicho em posição mais vantajosa, de supetão. Que enigmas seriam esses, afinal?


 


Primeiro, o que o empresário Ronan Maria Pinto vai fazer do Saged, a empresa que terceirizou o futebol do ex-Ramalhão, rebaixada à ultima divisão do futebol brasileiro e à Segunda Divisão do futebol paulista, num espetáculo de incompetência com seis descensos em oito campeonatos disputados?


 


Segundo, o que o Ministério Público de São Bernardo e a Procuradoria-Geral do Município de São Bernardo estão fazendo para valer para acabar com a festa de ilegalidades que marcaram o arremate da área pública pela MBigucci, conglomerado que ocupa páginas e páginas do Diário do Grande ABC para anunciar o empreendimento que pretende construir naquele espaço nobre, na esquina da Avenida Kennedy e a Senador Vergueiro?


 


Terceiro, como pode o Partido dos Trabalhadores tão cuidadoso com seus símbolos ter perdido aquela que é a cidadela mais emblemática das transformações urbanas e sociais que uma gestão pública poderia exibir com a marca de centro-esquerda, no caso a sempre em construção Diadema? Preocupou-se tanto o PT em ganhar de forma camuflada a Prefeitura de São Caetano tendo Paulo Pinheiro como Cavalo de Troia que se descuidou daqueles 30 quilômetros sempre problemáticos, os quais dominava e transformava havia três décadas.


 


Repararam os leitores que esses três assuntos vão dar muito que falar, ainda? Que provavelmente serão necessários muitos textos para que se rompa a fita de chegada com o entusiasmo dos maratonistas? Ou alguém é capaz de negar que completar uma corrida de resistência de mais de 42 quilômetros equivale a alguns, digamos, saborosos orgasmos jornalísticos?


 


Sobre o caso MBigucci já tenho escrito um bocado, mas está faltando, agora, ir a campo para saber o que fazem a Procuradoria-Geral e o Ministério Público. Pelo jeito o ritmo está aquém das necessidades e das circunstâncias, porque, aproveitando que estão dando mole, a MBigucci segue em frente na iniciativa típica de quem sabe que deixou marcas de complicações, apressando o passo e o compasso para ter por consumado um novo negócio, mesmo que, mais que sob suspeita, haja uma tremenda irregularidade a impedir a consecução do projeto, até que os cofres públicos sejam devidamente reparados.


 


Já no Saged, depois de mais um rebaixamento, tudo pode acontecer. A vitória de Carlos Grana daria um fôlego novo a Ronan Maria Pinto? Teria o prefeito Carlos Grana interesse em reaproximar-se do dirigente do Diário do Grande ABC, depois de relações abaladas na reta de chegada da disputa eleitoral por conta da presença discreta do ex-secretário de ouro de Celso Daniel, Klinger Sousa, no debate entre o petista e Aidan Ravin? Seria a cabeça de Klinger Sousa objeto de troca de um novo projeto para o futebol da cidade ou Carlos Grana não cometeria a bobagem de excluir aquele especialista em políticas públicas do grupo de colaboradores, mesmo que colaboradores informais? Teria vocação Ronan Maria Pinto a Salomé e Klinger a João Batista?


 


Diadema intrigante


 


Não menos intrigante é a situação pós-eleição em Diadema. Não estou nada satisfeito com tudo o que li sobre a disputa entre o prefeito Mário Reali e o jovem Lauro Michels, do Partido Verde. A vitória do oposicionista é um dos fatos políticos mais marcantes destas eleições. Poucos se aperceberam disso porque à maioria falta visão estratégica e, mais que isso, projeção sobre o que seria do PT como um todo um pouco mais à frente, quando eventuais disfunções em Diadema se alastrariam ou já estariam se alastrando discreta mas ruinosamente a outras gestões do partido. Quero que quero saber o que está por trás dos resultados alarmantes, da vitória acachapante de Lauro Michels. Nem o reforço de pesos pesados do PT, Lula da Silva à frente, salvou Mário Reali da degola.


 


E ninguém foi à fundo para desvendar o mistério. Pois decidi que vou e vou mesmo. Minhas fontes são preciosas e não aceito essa bobagem de acreditar que, por ter desfraldado a bandeira da renovação na vizinha e pujante São Paulo, Lula da Silva à frente, Diadema virou bucha de canhão porque o renovador seria Michels, não Reali.  É muito pouco para minha cabeça. Até porque, Michels estava liderando muito antes de Fernando Haddad virar símbolo de um novo modo petista de ganhar eleição. 


 


Lembro-me que em 1986 me pautei para uma matéria especial sobre a Administração de Gilson Menezes, recentemente eleito prefeito de Diadema. Mais precisamente, o primeiro prefeito eleito pelo PT no Brasil. Trabalhava à época no Estado de São Paulo, que mantinha uma vibrante sucursal em Santo André. A matéria foi sugerida por mim e preparada para o Jornal da Tarde, que, vejam só, acaba de anunci9ar que vai pendurar as chuteiras, premido por uma série de complicações que minaram a qualidade de suas páginas. Mas isso é outra história.


 


O Jornal da Tarde era uma publicação respeitadíssima, criativa, envolvente. Fui a campo durante quatro dias e redigi uma matéria e tanto, que virou manchete principal de primeira página. Cantamos várias caçapas de equívocos estatizantes do PT, devidamente atenuados ou suprimidos ao longo das gestões de esquerda que se sucederam. Até a chegada de Lauro Michels com a cara de menino, o discurso de sustentabilidade e a aglutinação de setores insatisfeitos com a gestão petista.


 


Vou a campo, mesmo sem tanto fôlego quanto em 1986, para tentar entender a derrubada de uma árvore mais que frutífera porque, goste-se ou não, o PT alterou o perfil e as estranhas de Diadema. Se com tudo o que foi feito ainda se tornou possível aparecer um adversário sem qualquer relação ideológica com o partido e ganhar uma eleição, é certo que lá tem coisa. Acho que o próprio PT deveria investigar a fundo a alma de um povo que sempre transmitiu a certeza de que jamais deixaria de vestir vermelho. Pois está vestida de azul, embora disfarçadamente de verde.


 


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