Sociedade

Bigucci se excede e decide
construir barraco na Justiça

DANIEL LIMA - 04/12/2012

O empresário imobiliário Milton Bigucci, presidente de um conglomerado de negócios e também há mais de duas décadas comandante da inútil Associação dos Construtores do Grande ABC, decidiu construir barraco. Tomara que não leve a sério a iniciativa, porque não lhe fica bem apelar para o histrionismo, quando não ao strip-tease verbal. O desrespeito sequencial na última quinta-feira, quando de audiência no Fórum de Santo André, depõe contra a imagem do mercador imobiliário tanto quanto o motivo daquela programação -- uma infundada tentativa de calar este jornalista.


 


O que Milton Bigucci proporcionou de desequilíbrio emocional nos bastidores do Fórum de Santo André e também durante a breve audiência é um puxadinho de deselegância, de desrespeito e de desespero.


 


Não pretendia instalar o incidente neste espaço, mas como é de conhecimento público a pendenga que o mercador imobiliário move contra este profissional, seria desonestidade informativa sonegar o caso.


 


Resumindo, Milton Bigucci fez três ataques seguidos a este profissional. No primeiro, no toalete do pavimento da 4ª Vara Criminal de Santo André, quando, ao lavar as mãos, acompanhado de uma de suas testemunhas no processo que me move, simplesmente respingou deliberadamente água em direção a este profissional, que esperava a pouco mais de um metro de distância o momento para livrar-se de mãos engorduradas por conta da alta temperatura. Imaginei que a ação de Bigucci foi acidental, mas desconfiado fiquei de que pudesse também ser provocação. No fundo, no fundo, não considerei essa hipótese. Milton Bigucci já passou dos 70 anos de idade. Molecagens dessas têm as digitais de adolescentes.


 


Em seguida, dirigi-me às imediações da sala de audiência. Chamado pela auxiliar do juiz, caminhei em direção à porta acompanhado de advogado. Cumprimentei com um “boa tarde” tanto a Milton Bigucci como a seus acompanhantes, todos igualmente à espera de chamamento. Adentrava de imediato à antessala do tribunal quando ouvi uma frase de baixo calão da voz de Milton Bigucci, dirigida a mim. Sentei-me ao lado de meu advogado e o indaguei sobre a ofensa. Queria a confirmação porque, insisto, não podia acreditar em algo tão desrespeitoso num ambiente de Justiça. Vá lá que fosse numa arquibancada de estádio de futebol, mas num tribunal de Justiça, convenhamos, é de lascar. Meu advogado confirmou. Ou seja, eu não estava a ouvir vozes do além. Senti vontade de comunicar o juiz, mas preferi recuar. Não pretendia tumultuar a audiência.


 


Baixaria completa


 


Uma audiência, por sinal, que durou pouco tempo. Por razões legais, acabou transferida de data. O juiz comunicou a mudança, mas antes indagou sobre a possibilidade de acordo. A proposta, encampada taticamente pelo advogado de Milton Bigucci, é um acinte. Ele sugeriu que me retratasse sobre tudo o que escrevi a respeito da pífia atuação do dirigente à frente da Associação dos Poucos Amigos de Milton Bigucci, ou melhor, da Associação dos Construtores do Grande ABC. Recusei pela simples razão de que a verdade dos fatos não é insumo a qualquer tipo de negociação.


 


Na sequência, o que tivemos foi uma baixaria completa ante um juiz provavelmente jamais tão desrespeitado e que, por conta disso, não teve alternativa senão solicitar que se esvaziasse a sala de audiência. A terceira agressão de Milton Bigucci contra este jornalista foi ouvida integralmente pelo juiz, pelas testemunhas, por mim, pelo meu advogado e também por estagiários que cumpriam programação universitária. Milton Bigucci expressou-se de forma mais abusiva e destemperada do que a maioria das frases que se ouve em zona de meretrício.


 


Completamente transtornado ante a aventura em que se meteu, a aventura de questionar fatos ocupando a pauta já por demais demandada da Justiça, entregou a rapadura da civilidade e do comedimento. É claro que respondi à ofensa. E que me referi explicitamente à quadrilha que, ele à frente, arrematou de forma ilícita um terreno público nobre em São Bernardo, onde a construtora MBigucci está construindo um grande empreendimento misto -- comercial, residencial e de serviços -- enquanto tanto o Ministério Público quanto a Procuradoria Geral do Município estariam agindo para impedir o prosseguimento do cronograma.


 


Repeti tanto a Milton Bigucci quanto a seu advogado um desafio que escrevo nestas páginas de CapitalSocial: estou esperando que impetrem uma ação criminal por conta das denúncias que preparei e transformei em material jornalístico nesta revista digital.


 


Ineficiência institucional


 


Sinceramente, jamais imaginei que o descontrole de Milton Bigucci chegaria a tanto, mas não é nada surpreendente, como se sabe. O mercador imobiliário está mal-acostumado à unanimidade benevolente da mídia, por conta da força econômica do setor que representa. “Que representa” é força de expressão, porque Milton Bigucci fala por si mesmo nas instâncias supostamente de interesse coletivo, da classe. Não fosse assim, não teria reunido um grupinho de amigos e mantido sob segredo o leilão público no qual se refestelou ao adquirir aquela citada área por valor muito abaixo do que o mercado recomendava.


 


Já este jornalista não tem a menor dúvida de que a Justiça se fará. No caso específico restrito à ineficiência da Associação dos Construtores, o mercador imobiliário sofreu nada menos que três derrotas consecutivas no Judiciário paulistano, para onde correu na tentativa de respaldar um autoritarismo em forma de eliminação sumária de todos os textos desta revista digital que façam menção às suas atividades tanto empresariais como institucionais.


 


Alguém precisa dizer a Milton Bigucci que a tentativa de enveredar pela construção de barraco não fica bem para quem é respeitado como mercador e construtor de apartamentos. Um mercador de faro finíssimo, capaz de descobrir espaços nobres a preços mais que convidativos -- a preços imperdíveis.


 


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