A história real e sem sofismas do inocente que virou bandido na Província do Grande ABC será contada integralmente aos leitores na edição de segunda-feira, 24 de junho, e não mais nesta quarta-feira. Decidi adiar a publicação porque ainda não reúno todo o material de que preciso para que o trabalho jornalístico seja criterioso. Se sempre procuro agir dessa forma, porque seria diferente quando, vejam só, estou falando de mim mesmo?
Sim, sou o mocinho que virou bandido porque a decisão do juiz da 4ª Vara Cível de São Bernardo que me inocentou da tentativa ditatorial do empresário Milton Bigucci achar que manda em tudo foi diametralmente revertida pelo juiz da 4ª Vara Criminal de Santo André. Sai de São Bernardo com os louros de uma vitória mais que justa e esperada e de Santo André como alguém a ser penalizado porque se meteu a besta com um figurão da economia regional. Virei bandido que só não foi trancafiado porque conta com a alternativa de recorrer à segunda instância.
Há alguns pontos que precisam ser esclarecidos porque contribuirão em muito para o entendimento desse choque de interpretação de dois magistrados. Se em São Bernardo, aonde virei mocinho de um enredo mais que manjado de radicalidade bonapartista de Milton Bigucci, o juiz da 4ª Vara Cível teve clareza suficiente para definir a sentença compulsoriamente favorável a este jornalista, em Santo André o juiz da 4ª Vara criminal não dispunha de resultados mais recentes sobre as peripécias daquele empresário. Nada. Entretanto que, de fato, fosse necessário, tão descabida a ação judicial.
Nas duas ações praticamente iguais impetradas por Milton Bigucci, o vezo à intolerância crítica e analítica se manifesta intensamente e não poderia merecer outro enquadramento sentencial senão a absolvição deste jornalista que cumpre rigorosamente a função social que lhe atribui a Constituição Federal. A diferença de tratamento do Judiciário não foi observada por Milton Bigucci quando da propagação da sentença que lhe foi favorável. Ele fez questão de omitir a derrota sofrida em São Bernardo porque não é outro o comportamento unilateral no dia a dia.
Público e privado
Os releases que Milton Bigucci divulgou a empreendedores e mídia que constam do acervo do Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC foram centralmente focados na condenação deste jornalista, sem a observação de que cabe recurso e muito menos, repetimos, que magistrado vizinho entendeu que jornalismo independente não tem qualquer relação com sala de visitas.
Nada surpreendente a seletividade da divulgação da assessoria de comunicação do Clube dos Construtores e Incorporadores. Tampouco o próprio release que, a julgar pela individualização da ação judicial, jamais poderia ser remetido por uma associação de classe. Mas como durante toda a vida Milton Bigucci fez do Clube dos Construtores extensão do conglomerado MBigucci, seria estranho se não usasse a frágil infraestrutura daquela organização para benefício próprio.
De qualquer maneira, foi ótimo que assim agisse porque abriu ainda mais as pernas da imprevidência acusatória que relaciona os textos deste jornalista à tentativa de destruição de sua imagem pessoal.
É compreensível que Milton Bigucci confunda o público de presidente do Clube dos Construtores e de presidente da MBigucci com o privado do pai de família sobre o qual jamais escrevi entre outras razões porque até prova em contrário não há interesse público em jogo.
Nada surpreendente também porque alguém que foi ainda outro dia condenado porque o conglomerado empresarial que dirige é campeão de abusos contra a clientela, segundo denúncia do Ministério Público do Consumidor de São Bernardo, faria algo diferente? Sem falar do caso Marco Zero mais que conhecido e sobre o qual o Corregedor-Geral do Ministério Público já lançou as estacas à apuração das irregularidades.
Prazer do jornalismo
Sinto tanto prazer como jornalista sem rabo preso com ninguém que mesmo a sentença provisória da Justiça de Santo André, por mais absurda que seja não me tira o bom humor. Em quase 50 anos de jornada estou de bem com a profissão que escolhi, embora não a recomende a ninguém, principalmente aos meus filhos, porque estamos no centro do furacão de uma sem-vergonhice generalizada e pouco podemos fazer entre outros motivos porque sempre se corre o risco de uma sentença absurda a dar guarida a um transgressor social.
As descobertas sobre as andanças empresariais e institucionais de Milton Bigucci, que representa larga parcela do empresariado pouco responsável no relacionamento com a sociedade em geral, são a prova provada de que é possível sim tornar o exercício do jornalismo algo minimamente sadio, produtivo e reconfortante.
Nem mesmo o risco de sofrer uma punição descabida por conta principalmente de um magistrado que esqueceu que aqueles textos reproduzem a realidade dos fatos e tiveram como alvo um empresário campeão de irregularidades e um presidente de entidade de classe sem representatividade alguma me leva a recuar da determinação de esclarecer as circunstâncias em que aquelas duas sentenças se deram de forma tão ambígua.
Mocinho em São Bernardo, bandido em Santo André, me sinto cada vez mais otário regional.
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