Leitor assíduo do Diário do Grande ABC (e de tantos outros jornais de papel e digitais da região), até porque assinante, não acreditei no que meus olhos não viram na edição de domingo: nenhuma linha, nenhuminha, produzida por um jornalista da Redação sobre os rescaldos das manifestações que abalaram a catedral de arrogância dos políticos. Uma e outra matérias, literalmente uma e outra matérias, discretíssimas, foram assinadas por agências de notícias ou por colaboradores externos. A regionalização de uma crise que tem tudo a ver com a realidade regional, feita de desmandos, trambicagens, protecionismos, manipulações e tudo o mais deste País, caiu no esquecimento.
Por vezes acho que o empresário Ronan Maria Pinto deveria pelo menos me dar um telefonema para agradecer: sou o mais barato de todos os colaboradores, porque não ganho nada, absolutamente nada, para apontar as escorregadelas do Diário do Grande ABC. Faz parte do jogo esse apontamento. Uma das editorias desta revista digital é “Imprensa”. Veículo mais tradicional da região, o Diário ainda é visto como farol por muitas das publicações.
Para este jornalista, desde os tempos de LivreMercado, o Diário do Grande ABC sempre significou algo contraditório, de atenção e de reflexão. Atenção porque, por mais que tenha sido sucateado muito antes de Ronan Maria Pinto virar dono, reúne gama de jornalistas que supostamente vão às ruas ou mantém contatos por meios tecnológicos diversos para produzir informação. E reflexão porque desde muito tempo sempre considerei o Diário do Grande ABC uma fonte apenas primária a análises. Descobri, ao lançar e ao consagrar LivreMercado a melhor publicação regional do País, que o jornalismo diário, não só do Diário, é monumentalmente burro. O dia a dia frenético das redações é estonteante, desumano, insano.
Jornalismo diário emburrece
Passei por isso e posso testemunhar o próprio calvário também contraditório: embora o jornalismo diário seja essencial ao aprendizado profissional, quando se tem com quem aprender, evidentemente, chega a um ponto em que emburrece mesmo. A operacionalização industrial do produto informação é cada vez mais uma cadeia de pequenas loucuras que minam a resistência física e mental. Pesquisas sobre os danos colaterais do jornalismo são estarrecedoras.
Mas nada disso justifica a barrigada da edição tradicionalmente especial dos domingos: os leitores não encontrarem uma linha sequer sobre os rescaldos regionais das mobilizações nas metrópoles que derrubaram a índices pífios a titular do Palácio do Planalto. Ainda não se sabe o que teria ocorrido com o governador Geraldo Alckmin. Deve ter sofrido um bocado também, embora menos que Dilma Rousseff. O tamanho do tombo é proporcional à percepção popular da altura do cargo.
Sou forçado a lembrar que, quando preparei aquele calhamaço de 100 mil caracteres em 2004, ao desembarcar como diretor de Redação do Diário do Grande ABC, projetei entre várias medidas um grupo de especialistas em várias áreas para compor o Conselho Editorial. Não só projetei como, repetindo o que fizera na revista LivreMercado, dei corpo e alma àquela instância. Eram 101 integrantes. Pretendia tê-los como colaboradores inestimáveis em situação de normalidade de pauta, preparando textos específicos ou trocando ideias com os jornalistas, como também em situações diversas, quem sabe como essa que se apresentou agora. Nove meses depois me botaram para fora do jornal e o Conselho Editorial virou pó. Nem satisfação foi dada aos convidados que assumiram em noite de gala de fevereiro de 2005 num Teatro Municipal de Santo André completamente lotado.
Representatividade social
Com aquele Conselho Editorial a dar respaldo de credibilidade e representatividade da sociedade regional, seria tão fácil como tirar a roupa em campo de nudistas preparar textos especiais não só para uma edição dominical, como essa que se passou, mas a tantas outras empreitadas editoriais. O jornal ganharia personalidade porque também e adicionalmente teria a fortalecer o viés analítico profissionais próprios para levar aos leitores informações muito mais interessantes do que, por exemplo, como na edição de domingo, uma página inteira, inteirinha, de baixo conteúdo com o presidente do São Bernardo Futebol Clube, Luiz Fernando Teixeira, político de bastidores que o Diário do Grande ABC pretende ajudar a virar deputado estadual e na sequência sucessor de Luiz Marinho na Prefeitura de São Bernardo.
Juro por todos os 20 centavos disponíveis no mercado que procurei como cão farejador por uma reportagem local, por uma opinião local, sobre o turbilhão das ruas, e não encontrei nada, nadica de nada no Diário do Grande ABC deste domingo. Como não tenho espírito corporativo no sentido deletério da expressão, apenas quando entendo que há injustiça a caminho, não deixo de fazer a seguinte pergunta: onde estava a cúpula da redação do Diário do Grande ABC, incapaz de planejar uma edição historicamente nobre, de domingo? Mais que jornalista, sou leitor do jornal e como tal faço essa cobrança.
Talvez o principal equívoco de quem está no comando editorial do Diário do Grande ABC seja acreditar que regionalidade é um dogma cuja territorialidade se limita aos 840 quilômetros da Província do Grande ABC. Pura bobagem. E olha que quem está dizendo isso é o jornalista que deixou de legado ao Diário do Grande ABC uma ferramenta a ser aplicada cuja cláusula pétrea é justamente regionalidade. Um jornalista que não abre mão da regionalidade com sentido crítico, não apenas relatorial de fontes muitas vezes mais que suspeitas.
O jornalismo que o Diário do Grande ABC vem praticando nestes dias no acompanhamento da hecatombe dos políticos é essencialmente marcado por um autismo regional provinciano com o qual convivemos quase que imperceptivelmente e do qual só nos demos conta agora porque chegou ao extremo do despreparo.
Por mais que a Província do Grande ABC seja um quarto de despejo cultural da Capital midiática e econômica vizinha, os estragos daquelas manifestações haverão de aportar por aqui. As redes sociais estão aí. Os veículos de comunicação na plataforma da Internet também. Os políticos desprezaram tudo isso e caíram do cavalo. A mídia regional também cometerá esse erro?
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