Comandei durante duas décadas a área editorial da melhor revista regional que este País já produziu, mas nem isso foi suficiente para o amadurecimento de boa parte dos leitores, cidadãos que se informam. Por mais que eu e minha equipe de jornalistas de primeira linha tenhamos feito para revolucionar a agenda econômica e social regional, o que mais sinto de repercussão é o tratamento provinciano a um dos desdobramentos daquela publicação -- os eventos que marcaram a consolidação do Prêmio Desempenho, realizado durante 15 anos consecutivos.
Ainda outro dia encontrei casualmente um ex-prefeito de um dos Municípios da Província do Grande ABC. Ele me saudou efusivamente, mas o complemento da frase me causou tristeza porque, ao virar-se a um acompanhante, disse com a agudeza de uma facada no peito: “Que grandes festas essa cara promovia na região”.
Nada mais cortante para quem é jornalista, para quem se entregou de coração e alma à região durante duas décadas seguidas, para quem esqueceu a família e a própria saúde, do que ser lembrado não pela reformista LivreMercado, mas pela banalidade que não existia, embora assim muitos interpretassem, do Prêmio Desempenho.
O Prêmio Desempenho foi um marco também na história do jornalismo regional com 15 edições e 1.718 troféus entregues. Acabamos com a desmoralização consentida e incentivada de premiações negociadas que permearam a história regional. Instalamos no calabouço da banalidade e da mutretagem os demais eventos do gênero que antecederam a chegada do Prêmio Desempenho -- e outros que tentaram vicejar durante aquele período. Mas nem por tudo isso e muito mais fico feliz com o repasse da lembrança de LivreMercado à atividade supostamente festiva.
Muito mais que festa
Ainda há gente que não entendeu que o Prêmio Desempenho era muito mais que uma festa que arrebatava a Província do Grande ABC. Há gente que na imaturidade de observação ou na simplicidade de interpretação não compreendia que ali se estendia a linha editorial da melhor revista regional, insisto, que esse País já produziu. A festa era um pretexto para levar a meritocracia ao palco. Uma meritocracia que suplantava qualquer tentativa de manipulação porque um Conselho Editorial cada vez mais numeroso e representativo sustentava critérios de credibilidade e inviolabilidade que pequenos comitês de iluminados costumam prestigiar amigos do peito.
Jamais me esqueço de que ao esculpir permanentes aperfeiçoamentos do Prêmio Desempenho, ouvi de gente que acreditava conhecer tudo a respeito de eventos que não havia lógica em estender a premiação a uma multiplicidade de agentes públicos, econômicos e sociais. A grandiosidade das festas era sustentada por patrocinadores e pelos próprios convidados, em operações que, ao diluir o peso relativo de todos na composição de custos, eliminava qualquer possibilidade de vício contaminador.
O Prêmio Desempenho jamais dependeu financeiramente de qualquer uma das organizações indicadas à apreciação do Conselho Editorial que, por sua vez, contava com o poder absoluto e transparente de valoração dos concorrentes. Planilhas de notas de todos os conselheiros eram remetidas inicialmente a todos eles, para que as notas atribuídas fossem conferidas na contagem geral. Nomes eram codificados de tal modo que apenas individualmente os conselheiros editoriais se identificassem e cumulativamente inspecionassem a fidelidade dos números.
São tantos os referenciais que moldaram o Prêmio Desempenho como ferramenta de disseminação de regionalidade e competência que provavelmente precisaria este jornalista, coordenador-geral daquele evento, de uma longa narrativa para esmiuçar todos os pontos, agora desnecessários.
Certo é que com tudo isso o Prêmio Desempenho jamais poderia ser visto como algo superior ou mesmo que competisse com a publicação que o gerou, porque, por mais que a estrutura do evento fosse voltada à transmissão de mensagens subliminares que expressassem o que a região tinha de melhor a cada temporada, o prevalecimento do aspecto puramente festivo é uma interpretação que me choca profundamente.
Vocação à banalização
O que se pode fazer se a Província do Grande ABC tem uma vocação incorrigível à banalização, à simplificação, à depauperação de atividades sérias. Tenho até medo de imaginar uma pesquisa que coloque frente a frente o nível de lembrança da marca LivreMercado e da marca Prêmio Desempenho. Provavelmente a publicação, que sofreu descontinuidade após ser repassada a terceiros que não são do ramo, perderia de goleada.
As quase duas décadas de LivreMercado, que têm continuidade com CapitalSocial porque é o mesmo jornalista que comanda as duas publicações, foram e continuam a ser uma ruptura com a mesmice do jornalismo regional, ainda pautado pelo convencionalismo da informação geralmente rasa em detrimento da interpretação aprofundada.
Aliás, basta estabelecer essa divisão, ou seja, o jornalismo fastfoodiano de um lado e o jornalismo reformista de outro, para o entendimento básico sobre o que representou LivreMercado e o que representa CapitalSocial na história do jornalismo regional.
E se querem saber, me sinto mais feliz, mais completo, menos cansado, mais recompensado intimamente, com CapitalSocial. A diferença básica é que, detentor de apenas 20% das ações da Editora LivreMercado, e sempre preocupado com a unidade da companhia, encontrava mil artifícios para dar dribles da vaca nas condicionalidades do setor de publicidade para manter os leitores informados sobre a realidade regional que, agora como antes, os demais veículos de comunicação se veem forçados a negar ou a mostrar apenas em fragmentos. Não me peçam exemplos agora porque não os darei, mas ao longo de duas décadas canalizei para as instituições as desventuras regionais que agora aponto de forma dura dando nome e sobrenome aos autores.
Sabia que havia uma natural dificuldade em lidar com a informação em estado bruto como o faço nesta revista digital. Garanto que me sinto feliz ao recuar no tempo e constatar que combatemos o bom combate mesmo com as restrições implícitas. As relações acionárias com o Diário do Grande ABC, empresa que se associou à Editora Livre Mercado em março de 1997, ganharam rumos de conflito exatamente porque jamais aceitamos sintonizar a mesma frequência de proselitismos ufanistas daquele jornal, comprovadamente desmoralizadora.
Compartilho exclusivamente com meus companheiros de Redação o sucesso editorial de LivreMercado. Já os sucessivos recordes de sucesso do Prêmio Desempenho foi uma ação ainda mais coletiva, a envolver os demais departamentos da companhia.
Só lamento que as festas da premiação tenham marcado mais a memória dos leitores daquela publicação e provavelmente caracterizem um erro de avaliação crasso sobre este jornalista, anfitrião e editorialista de todas as etapas do Prêmio Desempenho. Que erro? De que eu seja festivo, uma espécie de arroz de festa. Mal sabem que o Prêmio Desempenho era uma exceção de suposta sociabilidade de um profissional que raramente troca um livro, um bom filme, um jogo de futebol, por qualquer movimentação noturna de gente que ocupa colunas sociais, principalmente. Gente, a bem da verdade, significativamente diferente da maioria dos convidados do Prêmio Desempenho, porque os mesmos de sempre eram minoria absoluta. Sempre bem vindos, é verdade.
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