Sem estabelecer juízo de valor sobre as declarações propriamente ditas, vale a pena ler a entrevista de página inteira e disponível na Internet (Dib: “falta vontade à oposição para atrapalhar Marinho”) do deputado federal e ex-prefeito de São Bernardo, William Dib, ao jornalista Anderson Amaral, do Diário Regional. Quem gosta de jornalismo não pode perder a oportunidade de acompanhar um trabalho bastante interessante. William Dib transpira a malícia típica dos políticos que gostariam de dizer tudo o que pensam, mas pensam muito antes de dizer porque entende que não é hora para rupturas totais. O jornalista Anderson Amaral é reto e direto nos questionamentos, embora, a bem da verdade, a iniciativa não possa ser catalogada como entrevista indesejada, da qual a maioria foge.
O que mais me chamou a atenção no pingue-pongue, jargão jornalístico para esse tipo de trabalho, foram as criticas, embora suaves porque sarcásticas, de William Dib aos deputados estaduais Orlando Morando e Alex Manente, supostos adversários de Luiz Marinho. Sei bem o que o deputado federal que comandou a Prefeitura de São Bernardo durante seis anos quer dizer com o que não disse explicitamente: tanto Manente quanto Morando estão mancomunados com a administração petista. Os dois estão discretamente na gaveta de conveniências. Se é que me entendem.
Há histórias fabulosas envolvendo a gestão petista de São Bernardo e os dois jovens políticos de oposição que decidiram amenizar além do normal o tom crítico aos quase cinco anos de mandatos daquele que sucedeu a William Dib após uma disputa concorridíssima exatamente contra esses mesmos dois jovens políticos. O deslocamento, em 2008, de Alex Manente ao grupo de Luiz Marinho e a burrice de Orlando Morando, que renegou o apoio explícito do então prefeito William Dib no segundo turno, foram pontos nucleares da vitória do indicado e protegido do então ainda presidente da República, Lula da Silva.
Na banguela
A entrevista de William Dib ao Diário Regional, repito, vale pela dinâmica do perguntador e pela presteza do entrevistado. O ex-prefeito de São Bernardo toca em alguns nervos expostos da política brasileira, faz um passeio pelo ritual de cágado do Congresso Nacional, mas é no campo doméstico que, ao não dizer tudo o que pensa de forma objetiva, específica, sugere um saboroso bate papo. Os versados em política regional saberão decifrar. Os não iniciados mas orientados a percorrer cada linha como se trafegassem sobre trilhos em horário de intensa movimentação de comboios saberão capturar as mensagens que tornam o entrevistado um mestre em dissimulação.
Se querem me ver feliz como profissional de comunicação, façam como Anderson Amaral fez no Diário Regional: ele soube extrair o máximo possível de um entrevistado, levando-se em conta as circunstâncias e as naturais limitações institucionais do veículo que representa. Isso tem um valor imenso porque respeita os leitores que saberão entender uma lição importante: quando se pretende percorrer 100 quilômetros mas há combustível para apenas 70% do trajeto, os outros 30% devem ser alcançados com a banguela da subjetividade de baixo risco a equívocos.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)