A tendência ao reducionismo é uma deformação nacional. Por conta disso, consagram-se baboseiras típicas de que em time que ganha não se mexe. São muletas de preguiça incentivadas por todos aqueles que detestam transformações, abominam o contraditório, excomungam a complexidade, recriminam a diversidade. Gente do pão é pão, queijo é queijo.
Chegam a tal ponto os despautérios sustentados pelas premissas da simplificação vagabunda que tudo que tenha trajetória contrária e que se oponha à via única do preto-no-branco provoca impactos. Nesse País do facilitarismo proposto pelo politicamente correto, o pra-frente Brasil vale muito mais que o devagar com o andor que o santo é de barro.
Quem se decidir a perscrutar o sentido da verdade vai ter que se preparar para os confrontos que virão. Para os vazios, que se nutrem de frações, a verdade tem face única, límpida, cristalina e insofismável. Para os espertalhões, a verdade de cada um é a verdade verdadeira e por isso mesmo não se admite que também individualmente não seja respeitada. O que no fim da linha significa que a verdade única de muitos, de fato, não vale absolutamente nada. São apenas versões que geralmente se autodestroem em nome de uma ditadura disfarçada de democracia.
A verdade, ou o que mais se aproxima dos fatos reais, é uma combinação de informações complementares. Se no âmbito comum a verdade pode ser eventualmente tangenciada, contornada ao sabor de interesses pessoais, no campo da comunicação exige aprofundamento.
O açodamento com que a mídia se lança na construção de verdades, soterrando reputações ou erigindo falsidades, é tão intensamente destrutivo quanto a sede com que vai ao pote do servilismo vadio, do compadrio irresponsável.
Verdades fracionadas são mais insidiosas que mentiras completas, porque as primeiras carregam forte dose de credibilidade, enquanto as segundas se autodesmoralizam. Verdades completas, por sua vez, devem contemplar contrapontos às verdades fracionadas da mesma forma que devem dinamitar as verdades omitidas e as mentiras completas. Verdades completas ou próximas disso são, portanto, uma associação de verdades subestimadas pelos fracionistas e também verdades desqualificadas pelos monolíticos da mentira.
O que ocorreu no Grande ABC nos últimos anos e que retrato em larga escala no livro Meias Verdades -- Como Usar a Mídia para Vender Ilusão é prevalecentemente uma coletânea de verdades fracionadas que se misturam com mentiras completas. Mas, verdade seja dita, não somos muito diferentes do restante do País. Adoramos ser enganados. Louvamos os enganadores. Transformamo-los em ídolos sobretudo porque, no fundo, no fundo, o que queremos mesmo é que esses bobos da corte façam o papel que gostaríamos que fizéssemos e não temos coragem porque o que pretendemos mesmo é usufruir sem correr riscos.
No fundo, no fundo, somos uma região e um País sem personalidade. Exceto por motivos pessoais, a maioria se omite completamente dos grandes debates e das questões mais candentes. Particularmente neste Grande ABC sem alma integracionista e sem personalidade municipal, a combinação de fortes correntes migratórias, a proximidade com o Litoral convidativo ao ócio e a cultura do apertar de parafusos implementaram uma ossatura sociológica extremamente frágil no campo da identidade própria. Uma região, por isso mesmo, extremamente facilitadora à demagogia, ao populismo, ao corporativismo, coisas assim.
Uma região fértil, como se nota, para Meias Verdades, esse misto de verdades fracionadas e mentiras deslavadas.
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03/04/2026 ARCA DE NOÉ CONTRA O GATABORRALHEIRISMO (2)