Uma bobagem que cometi no final do ano está tornando a produção do livro Meias Verdades -- Como Usar a Mídia para Vender Ilusão, melhor do que a encomenda. Está dando mais trabalho porque tenho que levar toda noite para casa algumas pastas temáticas e, depois da novela das oito que está na última semana, lanço-me demoradamente à coleta de informações, que, no dia seguinte, se transformam em ingredientes de apimentado próximo capítulo da obra.
Esperança terminará antes de Meias Verdades. Nem poderia ser diferente, porque há menos de um mês peguei para valer pelo rabo de Meias Verdades. A maior diferença entre os capítulos globais que trocaram de autores e os impressos de vários autores e um crítico é que Esperança descambou para um enredo arrastado e inverossímil demais.
Que bobagem, afinal, fiz no final do ano? Simplesmente esqueci que tinha selecionado várias matérias veiculadas pela mídia impressa e as devolvi aos arquivos. A diferença entre a obra que imaginava e a que será efetivamente lançada é que agora estará mais recheada de barbaridades.
Tudo porque decidi vasculhar tim-tim-por-tim-tim meus arquivos de 800 pastas. Cheguei ao ponto -- diante da cronologia a que me impus para escrever o livro de 150 páginas -- de simplesmente iniciar o descarte de determinados assuntos.
Há profusão de asneiras em forma de contradições, triunfalismo, superficialidade e falsas expectativas que colocam os jornais, principalmente, em flagrante saia justa. Particularmente o que se praticou no Grande ABC nos últimos sete anos -- período em que minha lupa rastreadora está-se prendendo -- é uma mistura de irresponsabilidade, incompetência, comodismo e pressa.
Mas a obra não se restringe à região. Também coleciono cases estaduais e nacionais de perfil arrasadoramente semelhante. Os males da mídia impressa, na volúpia de associar produção supostamente intelectual e competitividade comercial, são tão repetitivos como irritantes.
Não quero me estender na análise conceitual de Meias Verdades porque pretendo descer às minúcias na apresentação da obra, mas não há como deixar de registrar, na condição de profissional de comunicação, que a coisa está preta. A mesmice das redações de jornais diários vai muito além da qualidade de informação rasa, de registro. Os usos e costumes que caracterizam a intimidade entre profissionais e fontes de informação, sobremodo as mais próximas das cúpulas diretivas dos negócios jornalísticos, contaminam insidiosamente a credibilidade.
Fosse a cidadania mais consistente nesse País de macunaímas, não restaria pedra sobre pedra no tortuoso edifício do conteúdo das publicações. Ao juntar a falta de capacitação técnica para escrever além do formalmente correto e uma dose de arrogância, parte dos profissionais de comunicação rivalizam-se com lideranças sociais, econômicas e políticas que, sabedoras dessas deficiências, fazem gato e sapato da seriedade que os consumidores de informações esperam dos veículos.
A dimensão dessa tragédia só resplandece quando se recorre criticamente aos arquivos. Meias Verdades é uma obra do acaso planejado.
Acaso porque em realidade jamais imaginava transportar aos leitores uma coletânea de aberrações. Planejado porque meu arquivo pessoal de publicações é uma rotina que alimento diariamente, há sete anos, como suporte à redação da Editora Livre Mercado, doutrinada a agregar valor às informações e não simplesmente a esquecer que o hoje, o ontem e o amanhã vivem eterno corpo-a-corpo a nos desafiar a inspiração e a transpiração.
Somos um País sem memória, sem escrúpulos e sem-vergonha.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)