Economia

Um Grande ABC
bem diferente

DANIEL LIMA - 05/08/2005

Quem for a Roma e não ver o Papa da praça de São Pedro, quem for ao Pacaembu e não ver o Corinthians em campo, quem for ao zoológico e desprezar as travessuras de símios e quem for ao Rio de Janeiro e não observar mesmo ao longe o Pão de Açúcar incorrerá provavelmente no mesmo tropeço de escrever sobre a economia do Grande ABC sem mergulhar nas informações históricas de LivreMercado.


 


É provável que a arquiteta e urbanista Mônica Viana já tenha visto o Pão de Açúcar, que saiba que ir a Roma sem ver o Papa é o mais desastrado programa turístico-religioso, que o Pacaembu sem os gritos da fiel é a antítese do futebol e que os macacos do zoológico lhe são pelo menos uma boa lembrança dos tempos de infância. Como, então, esquecer LivreMercado no trabalho acadêmico que apresentou em quatro dezenas de páginas do livro “Brasil, o desafio da diversidade” que a Editora Senac Nacional colocou no mercado?


 


Mônica escreveu “A articulação regional no Grande ABC” com a frieza relatorial de quem provavelmente dispunha de pouco tempo para a tarefa a que se propôs. Ela expõe na página de abertura um enunciado que transmite a sensação de que o conteúdo será profundamente esclarecedor: “O processo de desenvolvimento do Grande ABC foi marcado por fatores que levaram a região a se tornar a mais industrializada do País -- com forte presença do setor automobilístico -- e o berço do novo sindicalismo brasileiro. Mas a falência do modelo fordista e os efeitos negativos da globalização econômica e das inovações produtivas acabaram provocando a crise do modelo industrial e amplo desemprego, não só na região, mas em todo o Brasil. No Grande ABC, o enfrentamento da crise econômica passou pela criação de várias instituições regionais e pela construção de uma agenda de desenvolvimento para a região, a partir da mobilização dos vários atores locais no Planejamento Estratégico do Grande ABC”-- escreveu Mônica. Mas, cuidadosa ou apressadamente, resolveu optar por vôo panorâmico. Em vários pontos preferiu terceirizar interpretações.


 


Quem mergulhar no trabalho de Mônica Viana e, de boa-fé, retirar daqueles insumos garantias de que conhece efetivamente o passado, o presente e as perspectivas de futuro do Grande ABC, pode dar literalmente com os burros n’água. Mônica Viana dividiu o longo relatório em quatro seções. Começa com aspectos históricos do Grande ABC, passa pela falência do modelo fordista, aborda o modelo de construção de um novo arranjo institucional e, ao terminar, supostamente faz reflexão sobre avanços, desafios e possibilidades do modelo de articulação regional no que chama de “busca da consolidação das várias entidades regionais e na concretização da Agenda de Desenvolvimento do Grande ABC”.


 


Ex-assessora de Ação Regional da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Prefeitura de Santo André, Mônica Viana mantém o tempo todo abordagem oficialesca sobre os anos 1990 no Grande ABC. A insensibilidade de entender o que se passou no período, seguramente o mais tormentoso da história, transforma os enunciados relatoriais da autora em espécie de anestésico às agruras sociais e econômicas. O texto é asséptico. Não corre o menor risco de emprenhar-se de realidade.


 


O detalhamento dos fossos conceituais da incursão acadêmica de Mônica Viana exigiria explicações tão volumosas que provavelmente a emenda corretiva seria bem maior que os enunciados originais. A autora recorre a bibliografias pouco conhecedoras da regionalidade do Grande ABC, quando não a recortes de publicações oficiais de entidades locais cuja maior preocupação é lambuzar-se em supostas conquistas, atribuindo-lhes valor relativo inconsistente com os indicadores econômicos e sociais em flagrante derrapagem no período.


 


Como se sabe, a Câmara Regional é uma ficção, o Fórum da Cidadania há muito mereceu nota de falecimento, a Agência de Desenvolvimento Econômico só mais recentemente deu sinais vitais e o Consórcio de Prefeitos luta intensamente para sair da mesmice de projetos sem definição de prioridade.


 


Se tivesse recorrido aos arquivos materiais de LivreMercado e também à coletânea da newsletter CapitalSocial, Mônica Viana teria escapado da amarração teórica refrigerada artificialmente ao construir um passado acrítico, um presente disperso e um futuro adocicado.


 


A sensação que fica é que Mônica Viana preferiu o comodismo de quem dissocia a providencial meticulosidade de banco de dados a insubstituível peregrinação de contatos pessoais com agentes multilaterais que de fato participaram da história recente do Grande ABC.


 


Inspiração do MIT


 


Para que corresse menos riscos de decepcionar leitores ávidos por novos e importantes ângulos da vida no Grande ABC, Mônica Viana poderia ter-se inspirado no professor-associado de Sociologia e Planejamento Urbano do prestigiado MIT (Massachusetts Institute of Technology), Xavier de Souza Briggs. Munido de gravador, bloco de anotações e uma vontade imensa de gastar sola de sapato, Briggs esteve no Grande ABC em maio último e ouviu demoradamente série de personagens do cotidiano econômico local. De sindicalistas a jornalistas, de executivos públicos a empresários.


 


Tudo isso para produzir a obra “Democracy as Problem Solving” (Democracia como Estratégia para Resolução de Problemas), que pretende lançar no final do ano que vem. O pesquisador do MIT retratará casos de outras cinco regiões do planeta, além do berço automobilístico e petroquímico brasileiro.


 


Como retratou LivreMercado na edição de junho, antes de embarcar para o Brasil Xavier Briggs mergulhou no Grande ABC, virtualmente por meio da internet e de e-mails. Ou seja: veio preparadíssimo para extrair matéria-prima que transmita aos leitores a certeza de que a academia não pode viver apenas de pesquisas teóricas, principalmente oficiais. Xavier vai relatar a experiência de regionalidade inserida na metrópole numa obra que contemplará três eixos distintos: Reestruturação Produtiva, Urbanização Desigual e Capital Humano, mais especificamente de oferta de programas profissionalizantes e de formação voltados à juventude.


 


As norte-americanas Pittsburg, Salt Lake City e San Francisco, a Cidade do Cabo, capital da África do Sul e Mumbai, na Índia, serão vasculhadas pelo pesquisador do MIT.  


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