Imprensa

Província é espécie de Sodoma e
Gomorra de frouxidão institucional

DANIEL LIMA - 17/01/2014

Em contraste com a vida pessoal e também com a vida profissional, que só melhoraram desde que me livrei do piloto automático de 20 anos da revista LivreMercado, minha visão sobre a vida vivida na Província do Grande ABC aprofunda-se tanto quanto o sentimento de descrença. É claro que os estilhaços deletérios de viver em sociedade me atingem diretamente. Vou tentar explicar o que se passa, afinal. Antes, entretanto, expresso a conclusão a que cheguei para que não entendam que esteja a enrolar: tenho uma vontade imensa de associar a meu currículo uma greve de fome e uma greve convencional em protesto contra tudo que está à deriva. Talvez a greve de fome seja levada adiante, se a Justiça se mostrar tão absurdamente inútil quanto abusiva. Talvez a greve convencional não prospere, porque interessaria muito aos bandidos da praça. 


   


Por que faria greve convencional e que tipo de greve convencional executaria? Primeiro, a greve convencional seria pura e simplesmente meu afastamento da profissão a que me dedico há quase 50 anos.  Por pelo menos 30 dias esta revista digital estamparia como matéria principal, no alto da página, as razões básicas da decisão de sair de circulação diária durante um mês inteiro. Seria um libelo de lavar a alma.


 


Motivos não faltariam à tomada de decisão.  A Província do Grande ABC é um mar de desilusão. Praticamente nada funciona quando se observa sob encaixe natural. Agora, quando o requisito é contextualizado, tudo fica ainda pior. Do Executivo ao Legislativo, do Judiciário ao Ministério Público. Entenda-se por não funcionar tanto o não funcionar de verdade, o estado de paralisia, de conformismo, de comodismo, de arreglos, de mistificações, como o não funcionar pela morosidade, pelo descuido, pelo descompromisso com a sociedade.


 


Estamos institucionalmente à beira de um colapso e ninguém se dá conta disso. Ou quem se dá conta disso não faz patavina alguma. Muito pelo contrário: forças de pressão e de interesses geralmente escusos predominam de forma avassaladora. São uma minoria que se tornou maioria no controle dos cordéis da comunidade. Fazem o que bem entendem e a qualquer hora do dia e da noite ante um público anestesiado.


 


Anomia regional


 


Basta uma leitura atenta de vários dos textos desta revista digital para compreender sem complicações tudo o que quero dizer. Há um estado de anomia dilacerante, irresponsável, pecaminoso, estruturalmente danoso ao presente e inquietante sobre o futuro das próximas gerações. Se o Brasil é um barril de pólvora disfarçado de crescimento econômico fajuto, regado a um consumismo artificializado, o que dizer da Província do Grande ABC, laboratório de falcatruas de múltiplos matizes que só mais tarde ganharão as manchetes longe daqui, em locais mais suscetíveis ao acompanhamento menos tendencioso, quando não acumpliciado, da mídia menos dependente dos infratores.


 


Portanto, num breve relato, a greve convencional de 30 dias que imagino para esta revista digital, período no qual desapareceria do mapa da rotina que me imponho com o prazer estúpido de sempre, seria uma greve de protesto, de inconformismo, de inquietude e de tudo o mais que alguém possa imaginar como sinônimo de oposicionismo aos mandachuvas que fizeram da Província do Grande ABC terra de poucos.


 


Já a greve de fome, alternativa ou complemento ao plano de insurreição jornalística, seria por conta da incompetência da Justiça e das fundas limitações do Ministério Público Estadual instalados na região, instâncias que não acompanham o ritmo da enxurrada de irregularidades e que, por isso mesmo, transformam denunciantes fundamentados, experientes, sofridamente a salvo de adestradores do mal, em réus de ações demandadas por falseadores juramentados.


 


Provavelmente não hesitarei em deslocar-me a São Paulo, a Cinderela da Região Metropolitana, e assumir postura de rebelde material, não mais apenas digital, deflagrando greve de fome se a Justiça mantiver decisões absurdas que praticamente canonizam um malfeitor do tamanho do empresário Milton Bigucci, metido em falcatruas mais que conhecidas, e me colocam como representante irresponsável do setor de comunicação.


 


Poderosos ditam o ritmo


 


O poder econômico não pode subjugar a realidade dos fatos, dos documentos, das testemunhas, de tudo que se exige para sustentar textos que, longe de serem agressivos, como alguns magistrados assim o entenderam porque estão imersos em suas gaiolas climatizadas, são, de fato, um grito de inconformismo ante o avançar dos tentáculos de corrupção que dominam principalmente as atividades públicas. Como, finalmente, provam os escândalos paulistanos que ganharam as manchetes nos últimos tempos, enquanto na Província, situações igualmente cabeludas, são lançadas sob o tapete ou não prosperam na velocidade punitiva esperada.


  


Nos últimos cinco anos sem a revista LivreMercado, à qual me escravizei por duas décadas, tive a oportunidade de viver provavelmente os melhores momentos de uma existência profissional e pessoal que alguém poderia desejar.


 


Passei mais de 40 anos preso a rígida estrutura de fechamento editorial que me tolhia a liberdade pessoal a ponto de nem meus filhos visitar nas maternidades em que saltaram para este mundo. Teria tudo para estar comemorando uma etapa profissional e pessoal em que tenho mais tempo ao trabalho, ao entretenimento, ao autoconhecimento. Mas como não vivo numa bolha e o entorno chamado sociedade insiste em me açodar, eis que a greve de fome e a greve convencional andam a rondar minha cabeça.


 


A Província do Grande ABC é uma vergonha como endereço institucional. É uma espécie de Sodoma e Gomorra de frouxidão.   Uma sem-vergonhice sem paralelo na história. O assanhamento impune dos poderosos é acompanhado silenciosamente pelo acovardamento e pelo comodismo da sociedade.                       


Leia mais matérias desta seção: Imprensa

Total de 1971 matérias | Página 1

20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)
13/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (20)
06/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (19)
30/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (18)
23/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (17)
16/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (16)
09/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (15)
22/12/2025 QUANDO FAKE NEWS MERECEM DESPREZO
19/12/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (14)
12/12/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (13)
05/12/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (12)
03/12/2025 DIÁRIO 20 MIL É FIEL RETRATO HISTÓRICO
28/11/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (11)
21/11/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (10)
14/11/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (9)
07/11/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (8)
06/11/2025 TAPAS CAMARADAS E BEIJOS ARDENTES
31/10/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALEIRISMO (7)
24/10/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (6)