Regionalidade

Fernando Henrique saberá escapar
da arapuca temática em Santo André

DANIEL LIMA - 06/02/2014

Os promotores da palestra que Fernando Henrique Cardoso fará este mês em Santo André cometeram grave erro de marketing que, de cara, compromete o desempenho do introdutor de um dos muitos processos de reestruturação do País, no caso o Plano Real. Com tanto o que tem a falar esse sociólogo de primeira linha, esse gentleman capaz de sensibilizar plateias bem dotadas de cérebro, por que, afinal, basearam o evento no pressuposto de que Fernando Henrique Cardoso é especialista em desenvolvimento regional?


 


E mesmo que fosse, convenhamos, a Província do Grande ABC que ele tanto castigou não seria o local adequado à pregação. FHC e Desenvolvimento Econômico da Província têm o mesmo significado de glorificar a corda em casa de enforcado.


 


Não fosse o formato totalmente adverso a qualquer tipo de questionamento que possa constranger o palestrante, até participaria do encontro programado para um restaurante em Santo André. Agora, não tem sentido para o jeito de ser que sou, e isso significa que sou o que muita gente gostaria de ser mas não é porque sabe que o custo é alto, altíssimo, e é preciso ter tutano para suportar o peso dos adversários e inimigos, não tem sentido, portanto, participar de um evento no qual não poderia exercitar a cidadania plena porque quem vai pagar para ouvir Fernando Henrique Cardoso já recebeu um senha diplomática que diz o seguinte: não faça do encontro algo que possa pegar mal à elegância de quem recebe figura tão ilustre.


 


Questão de coerência


 


Nada contra Fernando Henrique Cardoso falar somente sobre o que bem lhe interessar, mas sei que se fosse ao evento e o ouvisse discorrer sobre eventuais ações que tenha desenvolvido em favor da Província do Grande ABC, dificilmente me conteria. Assim como não suportaria ouvir um discurso do então ex-presidente Lula da Silva sobre eventuais inúmeros benefícios que o movimento sindical cristalizou na região quando se sabe ou se deve saber também que as contrafaces das conquistas corporativas que movimentaram os sindicalistas ajudaram a dilapidar o patrimônio econômico local.


 


Os promotores do evento com Fernando Henrique Cardoso provavelmente escolheram o tema sem terem a mínima noção da realidade regional ao longo do governo do tucano, que diferiu grandemente da média nacional. O marqueteiro que criou a campanha para venda de ingressos do almoço seguido de exposição de ideias ou de exposição de ideias seguida de almoço deve ser algum alienígena porque não saber e não sentir e não atentar e não compreender o vendaval que nos atingiu durante aqueles oito anos de governo federal ante a complacência das inutilidades regionais que continuam em larga escala no topo de organizações diversas é simplesmente um atentado ao bom senso. Esse marqueteiro é ruim da cabeça ou é ignorante de pai e mãe.


 


Fernando Henrique Cardoso e Província do Grande ABC não têm qualquer parentesco de relacionamento respeitável se o assunto em debate for desenvolvimento econômico regional. Mas nem por conta de abordagem temática tão esdrúxula o evento deve ser minimizado porque, tenho certeza, inteligente e preparado culturalmente como poucos Fernando Henrique Cardoso não se deixará pautar por um marqueteiro canastrão e saberá sair-se da enrascada ao passar por cima da invencionice criada apenas para estupidamente instalar-se um ambiente doméstico em contraponto à exuberância cosmopolita do homem que bateu Lula da Silva em primeiro turno duas vezes seguidas.


 


Não faltam sugestões


 


Sei lá se os promotores do encontro com Fernando Henrique Cardoso estão preparando novas etapas, com outros convidados, mas se a ideia é essa recomendo, a bem da coerência temática manquitola utilizada com o ex-presidente, que chame Lula da Silva para falar sobre o companheirismo entre sindicalistas e pequenos empresários da região durante pelo menos duas décadas; que chame Milton Bigucci para discorrer sobre ética no mercado imobiliário; que chame Sérgio De Nadai para tecer orientações de como preparar com alma e jeito refeições para estudantes do Ensino Fundamental; que chame Luiz Marinho para contar como é possível passar por cima da lei dos mananciais e construir um aeroportozão em São Bernardo; que chame tantas alternativas de gente que está pronta para tudo, menos para falar analogamente sobre o que um marqueteiro maluco resolveu nos contemplar com tamanha insensibilidade.


 


Como Fernando Henrique Cardoso não é bobo nem nada, muito pelo contrário, o que teremos durante a exposição que merece muita atenção porque sempre estará muito acima da mediocridade que grassa no País é que saberá contornar a arapuca temática que lhe reservaram por incompetência ou por ganância, ou por ganância e incompetência juntas.


 


FHC não vai meter a mão da incoerência na cumbuca de uma regionalidade local que o condena como monstro em oposição ao médico de dois mandatos em muitos pontos renovadores da gestão pública nacional.


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