Uma reportagem da edição do Diário do Grande ABC de ontem, que tratou do que chamo de riqueza sobrerrodas do Grande ABC, reforça a tristeza diária de lidar com o Grande ABC econômico e social em meio a esse País sem eira nem beira. Somos a maior fábrica de Madres Terezas de que se tem notícia. É quebra da mobilidade social indiscutível. Como se fosse necessário contar com mais um exemplo, ante tudo o que já analisei ao longo de 36 anos desta publicação.
Para quem ainda navega em águas de descuido social, a adoção da marca Madres Terezas é a maneira que encontrei ainda nos anos 1990 para protestar contra o processo de desindustrialização e empobrecimento do Grande ABC quando a quase totalidade dos tomadores de decisão e de formadores de opinião ainda colocava em dúvida a desgraceira toda já estruturalmente irreversível. Virei inimigo público número um dos triunfalistas.
Deu no Diário do Grande ABC de ontem que nos últimos 10 anos (entre agosto de 2016 e agosto deste ano) cresceu 42% o estoque ativo de motocicletas, enquanto veículos de passeio que produzimos em profusão sofreram queda de 0,35% . Em resumo, e agora analiso os números, é empobrecimento nas veias. É um dos sintomas mais evidentes de que os estragos da desindustrialização ainda avançam. Principalmente porque – e isso é relevante – estamos comparando meados da maior recessão econômica da região, em 2016 sob Dilma Rousseff, e meados do último ano de gestão de gastança irrefreável de Lula da Silva. Ou seja: nem bombando em políticas populistas que ferem de morte o futuro fiscal do País estamos à salvo de uma catástrofe de 10 anos.
DECADÊNCIA SEGUE
A reportagem do Diário do Grande ABC que trata especificamente dos dados dos 10 anos de balanço do Departamento Estadual de Trânsito (uma boa sacada como reportagem, é bom que se diga) revela o contraste comprobatório de que somos um território ainda em decadência e de decadência que parece não ter fim. Afinal, no balanço estadual, que é a soma de todos os 565 municípios paulistas, houve avanço semelhante na frota de motociclistas, de 40%, e alta de 9,5% na frota de veículos de passeio.
Para que não se esqueça o comparativo que interessa mais: a frota de veículos de passeio no Grande ABC sofreu queda de 0,35% em 10 anos, enquanto no Estado de São Paulo houve avanço de 9,5%. Mas isso não é tudo. Como houve semelhante comportamento de crescimento na frota de motocicletas, está caracterizado o viés de baixa da riqueza sobrerrodas.
Fico imaginando quanto o Grande ABC é surrado pelos principais municípios do Estado desde 2016. Sim, a média estadual não significa que todos os municípios tiveram desempenho semelhante. Se o Grande ABC perde de quase 10% de crescimento do volume de veículos de passeio na frota atualizada para a média paulista, imaginem então para os concorrentes de maior porte.
Aliás, foi justamente por pensar em confrontos mais apropriados a interpretações, que criei o inicialmente chamei de G-20 e em seguida caracterizei como G-22.Trata-se do clube dos municípios de maior porte econômico do Estado de São Paulo, exceto a Capital do Estado e, juntando apenas por serem da região, tanto Ribeirão Pires quanto Rio Grande da Serra. De fato, a essência é o G-20 inicial. Há de estoque nos arquivos desta publicação nada menos que 153 edições que fazem referência ao G-20 e muito mais quando se procura G-22 – são 322.
VOLTANDO AO PASSADO
Sem fugir do foco principal, mas para que os leitores entendam que nada é por acaso no jornalismo que praticamos, ou seja, com vistas sempre e sempre para o futuro, reproduzo a matéria de lançamento do G-20 mencionado acima, publicada em 20 de fevereiro de 2012 sob o título “G-20 Paulista, um índice para colocar um ponto final na farra de embromações”:
Qual foi o comportamento da economia de cada um dos municípios da Província do Grande ABC e da Província do Grande ABC como um todo entre 1999 e 2009? Resolvemos reviver uma experiência de sucesso no passado: acabamos de montar o G-20 Paulista, o clube dos 20 municípios economicamente mais importantes do Estado de São Paulo, exceto a Capital. Comparamos o PIB (Produto Interno Bruto) de cada um e chegamos a várias conclusões. A principal é que ainda não retomamos e dificilmente retomaremos a rota do desenvolvimento econômico. Há cidades da Província que recuperam parte das perdas do pós-Real, mas outras não conseguem acertar o passo. Santo André, por exemplo.
O G-20 representa 30% do PIB paulista. Não é pouca coisa. Muito pelo contrário: como a Capital sozinha chega a 25%, compreende-se a importância desses municípios. A maioria está localizada na Região Metropolitana de São Paulo e na chamada Grande São Paulo Expandida, formada por Grande Sorocaba, Grande Campinas, Grande São José dos Campos e Baixada Santista. Por que resolvemos restabelecer estudos comparativos que tanto sucesso fizeram no passado, quando criamos o IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos), que analisava quase uma centena de municípios em 15 quesitos diferentes, de economia a finanças, de saúde à educação, de criminalidade à tributos? Porque não dá mais para suportar o jogo de manipulação estatística e conceitual que a Prefeitura de Santo André, inerte em todos os sentidos na pasta de Desenvolvimento Econômico, está a patrocinar com invencionices que procuram puxar a sardinha de resultados para a própria brasa de irresponsabilidade informativa.
Lembro àqueles que por ventura ou por sedução ou por malandragem ou por idiotice vinculam minhas intervenções sobre os despautérios em Santo André a qualquer coloração partidária que a mensagem não terá credibilidade. Primeiro porque não sou e jamais fui agente político-partidário. Segundo porque tenho o respaldo da história: combati duramente as tentativas de semelhantes manipulações, em meados da década de 1990, do economista e pesquisador João Batista Pamplona. Ele fora contratado com pompa e circunstância pelo então prefeito Celso Daniel, comandante da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, para planejar, organizar e analisar pesquisas na região.
João Batista Pamplona fez tudo para agradar ao chefe e à torcida organizada que faz barulho e nada mais na Província do Grande ABC. Chegou ao desplante de afirmar que a Província não sofrera desindustrialização. Só para se ter ideia, o Valor Adicionado da região emagreceu um terço durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso. Portanto, o que vamos apresentar a partir desta Quarta-Feira de Cinzas são estudos sérios, despartidarizados e incômodos à maioria que mora nesta Província e quer estimular o eterno jogo de simulações para se locupletar. A Prefeitura de Santo André está se esmerando nisso. Um crime contra a sociedade que precisa ser bem-informada.
VOLTANDO AO PRESENTE
Os dados divulgados na edição do Diário do Grande ABC vão, portanto. além da ocupação de espaços no infernal trânsito regional. E nesse caso há semelhança considerável entre o que se passa em nossas ruas e nas ruas das demais cidades paulistas. A explosão de motocicletas revela transformações econômicas importantes, e para pior.
Primeiro, esse meio de locomoção é uma alternativa popular à quebra de recursos financeiros da Classe Média Tradicional que antes não abria mão de veículos de quatro rodas. E também existe componente diverso e contrário, de acesso à motorização de classes sociais mais sofridas que contam com reforço de renda de programas sociais e crediário a perder de vista, quando não, diante das estatísticas escandalosamente naturalizadas, de perda da própria vida.
Aliás, a mesma reportagem do Diário do Grande ABC conta que no Grande ABC desses primeiros meses do ano morreram 60 motociclistas, 44% das vítimas fatais no trânsito regional. Há 10 anos, quando o índice de motorização sobre duas rodas era 40% inferior, foram 37 óbitos. Na vizinha Capital, o mais desalmado endereço sobrerrodas do País, morre em média mais de um ciclista por dia. As faixas especiais, cantadas em prosa e verso como proteção à insanidade, não oferecem resultados que sustentem as projeções otimistas, quando não eleitoreiras.
Também está na reportagem do Diário do Grande ABC de ontem que caiu a proporção de veículos de passeio em relação aos veículos de duas rodas no período de 10 anos: era uma motocicleta para cada cinco automóveis (191.602 ante 908.469) e passou para uma moto para cada três veículos – 271.719 ante 905.241. Como prova de que há estreita combinação entre riqueza sobrerrodas e desempenho econômico, a decadente Diadema forjada por um socialismo rastaquera conta com proporção esclarecedora de uma motocicleta para cada dois veículos de passeio.
SOBRE AS MADRES
A propósito das Madres Terezas (e Freis Galvão) que voltam a frequentar o radar deste jornalista de forma direta, específica, com o projeto já deflagrado de revelar as novas protagonistas dos excluídos sociais, estou preparando uma análise específica. Certo mesmo é que há uma intimidade implícita entre empobrecimento regional e crescimento do voluntariado à margem ou contando com o apoio das Prefeituras.
Total de 2031 matérias | Página 1
16/07/2026 VEJA O QUE RESTA DO SETOR AUTOMOTIVO