Economia

Uma grande avenida de frustrações
entre Santo André e São Bernardo

DANIEL LIMA - 22/07/2014

Faz um bocado de tempo que o jornalista André Marcel de Lima foi a campo pela revista LivreMercado para desvendar metro por metro da Avenida Pereira Barreto, que liga os dois principais municípios da Província do Grande ABC. A reportagem foi publicada em março de 2006 e explicita com precisão a qualidade editorial da publicação que criei e dirigi por quase duas décadas. O texto interpretativo, informativo, detalhadíssimo, prospectivo e criativo era marca registrada da melhor publicação regional do País. Qualquer comparação com o que temos na Província é covardia. 


 


A Avenida Pereira Barreto foi desnudada de ponta a ponta por um jornalista que deixou de lado a motorização e caminhou de um extremo ao outro do traçado de altos e baixos para produzir o material. O link mais abaixo coloca o leitor de volta ao tempo. O que aconteceu com a Avenida Pereira Barreto desde então, oito anos que se passaram?


 


Não me dei ao trabalho de reproduzir os passos físicos nem a análise apuradíssima de André Marcel de Lima. Fio-me em observações atentas de quem percorre parcial ou integralmente aquele traçado todos os dias. A Pereira Barreto segue a sina de ser uma via qualquer, sem destaques plásticos, sem caracterização especial. Bem diferente do que sugeriu André Marcel de Lima naquela reportagem. A Pereira Barreto poderia ser espécie de portal da Província do Grande ABC. Reuniria o glamour de cinderela, mas é uma incorrigível gata borralheira.


 


E a avenida do futuro?


 


O que mais incomoda não é a Avenida Pereira Barreto que temos e a Pereira Barreto que poderia ter sido, mas o que a Pereira Barreto será num futuro não muito distante se nada acontecer no campo da gestão pública desatenta às transformações econômicas. E o que será a Avenida Pereira Barreto do futuro? Uma estupidez forjada pela omissão, pelo descaso, pelo materialismo de resultados destes tempos de vale-tudo e, provavelmente, objeto de intervenções públicas que custarão muitos recursos dos contribuintes, em detrimento de investimentos em outras áreas. Como imaginar algo diferente se os ataques à estrutura física vão exigir contragolpes públicos para que não se emperre de vez o caminho entre os dois municípios?


 


A dinâmica econômica da Avenida Pereira Barreto está muito aquém da potencialidade de uma via que liga Santo André e São Bernardo. Há poucos empreendimentos comerciais e de serviços que ofuscam o quadro de desleixo urbanístico generalizado. Ganhos de escala que o marketing ocupacional de atividades econômicas oferece foram para o ralo da imprevidência.


 


O sistema de trólebus continua impávido a reservar espaços de tráfego apenas aos coletivos da concessionária do serviço. Os engarrafamentos de trânsito só não são ainda mais antieconômicos e destruidores da qualidade de vida porque a Província do Grande ABC vive crise econômica muito pior que a do País.


 


Corredor de privilégios


 


Do alto do 14º andar de meu escritório no Centro Empresarial Pereira Barreto tenho o privilégio de acompanhar o fluxo viário. O corredor de trólebus é um estorvo ao privilegiar poucos coletivos em detrimento de milhares de veículos de motoristas estressados que se digladiam nas laterais. Pelo menos os ônibus poderiam dividir a canaleta dos trólebus, desobstruindo as duas pistas laterais que sobem e que descem. Mas quem disse que os termos contratuais assinados entre o governo do Estado e a concessionária permitem a alternativa que em nada atrapalharia o fluxo na faixa central?


 


Sem investimentos produtivos, a Avenida Pereira Barreto vai sendo tomada impunemente pelo mercado imobiliário. Dribla-se o bom-senso que recomenda proporção muito menor de empreendimentos em relação à capacidade de tráfego. A situação só não está pior por causa da desaceleração do setor imobiliário. A previsão de que o Domo, no entorno do Paço Municipal de São Bernardo, reuniria 50 mil pessoas e 20 mil veículos nos horários de pico só não se confirmou porque o empreendimento que reúne milhares de apartamentos e centenas de salas comerciais deu com os burros nágua. É o maior mico imobiliário da região. E olhem que não faltam competidores espalhados por todos os cantos.


 


Outros lançamentos imobiliários que ganharam inclusive o direito de frequentar o horário nobre de emissoras de televisão não saíram do chão ou estão em ritmo bastante aquém das previsões dos investidores. Quando consolidados e ocupados, tornarão ainda mais conflituosas as relações entre motoristas e espaços na principal via de ligação entre Santo André e São Bernardo.


 


Ameaças se confirmam


 


Mas também há ameaças que estão se confirmando. Ao lado do Shopping ABC aquelas oito torres residenciais com 640 apartamentos e previstos dois mil veículos vão tornar a vida um inferno. Fico a imaginar o caos que virá quando numa ponta esses 640 apartamentos e na outra ponta da Pereira Barreto o empreendimento Domos e vários outros estiverem a pleno vapor em ocupação. São territórios verticalizados com insanidade típica dos mercadores imobiliários. O que vai acontecer com a mobilidade urbana da Avenida Pereira Barreto?


 


É lamentável que um traçado tão relevante à interação econômica e social entre Santo André e São Bernardo jamais tenha despertado nos administradores públicos a sensibilidade de estudos em conjunto para ocupação engendrada com inteligência, programando-se espécie de Eixo Pereira Barreto que, sem exagero, poderia mesmo ser um exemplo de regionalidade no campo urbanístico e econômico. Deixou-se tudo ao sabor do mercado. Nada pior, porque a atuação do mercado deve ser livre sem ser abusiva, por isso não pode prescindir da parceria cogestora do Poder Público.


 


Aos usuários atentos da Avenida Pereira Barreto faço o seguinte desafio, sem o menor temor de correr qualquer risco: comparem o texto preparado por André Marcel de Lima, logo abaixo, com a realidade destes dias quando se trafega por aquele que deveria ser um dos corredores do dinamismo regional que ficou o passado. Comparem e certamente prevalecerá uma constatação lamentável de que o passado parece não ter passado.


 


Nada que surpreenda, porque os mandachuvas e mandachuvinhas estão pouco se lixando para o destino da Província do Grande ABC. De diferente mesmo temos uma Avenida Pereira Barreto mais recheada de imóveis verticalizados que saíram do chão e outros que fracassaram após a construção de estandes de empreendimentos que quebraram a cara ante a frustração de vendas.


 


Empreendimentos comerciais e de serviços que poderiam sugerir uma Pereira Barreto mesmo que provincianamente Avenida Paulista, nem pensar.


 


Leiam, portanto:


 


Avenida Pereira Barreto pode ser muito melhor 


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