Economia

Clube dos Especuladores Imobiliários
segue a anunciar dados fantásticos

DANIEL LIMA - 22/08/2014

Está decidido e formatado: enquanto não houver mudanças diretivas acompanhadas de conceitos que exacerbem respeito aos consumidores de informação e dos produtos, o Clube dos Construtores e Incorporadores do Grande ABC, também conhecido por Acigabc (a associação de uma classe que abandonou há muito tempo aquela entidade) será denominado nesta revista digital como Clube dos Especuladores Imobiliários.


 


Tomo a decisão, assim como atribui à região a marca de Província do Grande ABC (com aprovação majoritária do Conselho Editorial que esta publicação mantinha até recentemente) como espécie de recado aos responsáveis pelo destino regional – tomem vergonha na cara e tratem de trabalhar mais para a sociedade e menos para o próprio ego e para o próprio bolso.


 


Desta vez o balanço semestral do Clube dos Especuladores Imobiliários foi assumido por outro dirigente que não o eterno presidente Milton Bigucci. Escalado a exibir dados que em tantas outras ocasiões jamais convenceram, porque a suposta metodologia é tão desconhecida como potencialmente contestável, o empresário Marcos Vinícius Santaguita reuniu a imprensa regional para o desfile de fantasias. Santaguita provavelmente não tem responsabilidade pelas informações gelatinosas. O mandachuva Milton Bigucci centraliza tudo. Algum desarranjo de agenda deve tê-lo retirado de cena, improvisando o interlocutor com a mídia.


 


Região privilegiada


 


Embora a vizinhança com a Capital do Estado seja estupidamente evidente, com reflexos notórios no mercado imobiliário, o comportamento do setor na Província do Grande ABC divulgado pelo Clube dos Especuladores Imobiliários é fantasticamente diferente.


 


Na região, o aumento dos lançamentos, a diminuição de estoques e a aceleração de ofertas no período foram a tônica, bem como as perspectivas para o segundo semestre.


 


Até parece que os 181 apartamentos e salas comerciais novos do macromico Domo não são a expressão mais acabada da gravíssima que envolve a atividade, com fuga de investidores e dores de cabeça dos adquirentes que, em larga escala, conforme provam balanços insuspeitos de empresas listas na Bolsa de Valores, desistem de contratos fechados.


 


O Clube dos Especuladores Imobiliários da Província do Grande ABC aponta que no primeiro semestre deste ano foram lançadas 2.568 unidades, resultado 22% maior que o do mesmo período do ano anterior, quando foram colocadas no mercado 2.094 unidades. Em 2012, foram 2.531 lançamentos. O total de imóveis no estoque regional foi reduzido em 16%: de 4.202 unidades em dezembro de 2013 para 3.503 unidades em junho de 2014. Quase toda a imprensa regional escondeu a informação mais relevante: o total de vendas de imóveis no primeiro semestre deste ano na região sofreu queda de 16,7% na comparação com o mesmo período do ano passado.


 


Oásis informativo


 


O jornal Diário Regional é exceção no alinhamento otimista ao dirigente do Clube dos Especuladores Imobiliários. Tanto que, ao analisar os resultados, apontou que o desempenho do primeiro semestre deste ano é o pior desde o primeiro trimestre de 2011, quando foram comercializadas 2.966 unidades.


 


O dado mais relevante, também escamoteado pelo Clube dos Especuladores Imobiliários, relaciona-se ao confronto entre o primeiro semestre deste ano e o segundo semestre do ano passado: redução de 45,9% na comercialização de unidades. Ou seja: a tendência de raquitinização do mercado imobiliário é acentuadíssima nesta temporada porque a comparação com o segundo semestre do ano passado permite uma avaliação de 12 meses seguidos, tempo mais que suficiente para se constatarem efeitos positivos e negativos da política econômica. Sem mascaramento.


 


O discurso do dirigente Marcus Vinícius Santaguita, ao qual os demais jornais da região deram ampla ressonância, indicou que o segundo trimestre deste ano, quando comparado ao primeiro, foi 43,4% superior na comercialização de unidades.


 


É muito pouco provável que essa informação tenha sustentação. Todos os indicadores econômicos denunciam que o segundo trimestre deste ano foi calamitoso por conta dos efeitos direitos da paralisia provocada pela Copa do Mundo. Tanto que a perspectiva de um PIB trimestral negativo, ou próximo disso, atormenta o governo de Dilma Rousseff. Seria uma bomba às vésperas das eleições.


 


Diferente na Capital


 


Na Capital economicamente massacrante quando comparada à Província do Grande ABC, os números oficiais do Secovi são bem diferentes. As vendas totalizaram 9.054 unidades no semestre, correspondendo à variação negativa de 48,3% sobre os 17.500 unidades acumuladas de janeiro a junho de 2013. Nada menos, portanto, que três vezes mais do que supostamente teria ocorrido na Província do Grande ABC. Nesse período, as empresas de incorporação lançaram 11.360 unidades, um total 18,8% inferior em relação ao movimento dos seis primeiros meses de 2013 (13.982 unidades) na cidade de São Paulo. Ou seja: muito aquém do crescimento de 22% supostamente registrado na região no mesmo período.


 


Esta não é a primeira nem será a última vez que números discrepantes e interpretações caolhas permeiam o mercado imobiliário da Província do Grande ABC. Pobres dos mortais que acreditarem nos dados.


 


O Clube dos Especuladores Imobiliários não conta com recursos materiais e humanos para estruturar com o mínimo de organicidade e credibilidade o comportamento do setor na região. O improviso e o amadorismo fazem parte do show de pirotecnia estatística.


 


Já com o Secovi, o Sindicato da Habitação, que também não é flor que se cheire na mensuração da temperatura da atividade, o tom de desconfiança deve ser relativizado. Há uma empresa especializada a oferecer certo respaldo, embora cautela de pés atrás e caldo de galinha de olhares críticos não devam fazer mal a nenhum jornalista minimamente informado sobre os poderes de construtoras e incorporadoras na manipulação da realidade.


 


Cuidados extremos


 


A recomendação que repassaria aos leitores deve soar como alerta.  Na medida em que a corda da inadimplência, dos distratos e do desaquecimento de vendas aperta, mais o setor imobiliário aperfeiçoa criatividade. E conta para tanto com o suporte logístico da mídia em geral sempre pronta a atender reclamos -- desde que reclames sejam a contrapartida.


 


Nesse ponto, convêm cuidados na avaliação de um gigantesco medidor da situação regional: na próxima quarta-feira serão levados a leilão público 181 apartamentos e salas comerciais novos do conglomerado Domo, um condomínio de certo luxo no entorno do Paço Municipal de São Bernardo. A primeira rodada na tentativa de transformar aquelas massas de cimento em dinheiro deu com os burros nágua.  Ninguém aceitou pagar o preço mínimo estipulado.


 


Agora, com 40% de desconto, medida que coloca aqueles imóveis num patamar mais próximo da realidade econômica, é possível que o resultado seja diferente. O Domo estabelece um novo patamar de preço de imóveis na região. Pelo menos para quem procura se informar antes de cometer a besteira de cair no canto da sereia de produtores de ondas.


 


Ganhar dinheiro faz parte do jogo do mercado, é intrínseco ao capitalismo, mas as regras que balizam o mercado imobiliário são extremamente abusivas ao fragilizarem diretamente o orçamento de milhões de pessoas presas a financiamentos por toda a vida.


 


O Clube dos Especuladores Imobiliários, com baixíssima representatividade da classe, com parcos associados, deveria ser um dos alvos preferenciais do Ministério Público do Consumidor. Principalmente porque seu presidente é presidente do conglomerado que, segundo o próprio MP do Consumidor, é campeão regional em matéria de dribles na clientela.


 


Sonho com o dia em que organizações com influência no destino de cada cidadão promovam voluntariamente ou sejam constrangidas a se submeter a regras semelhantes àquelas que penalizam profissionais de medicina que não se dão conta de que a vida humana não é uma pecinha qualquer no tabuleiro do mercantilismo disfarçado de capitalismo. Milhões de brasileiros são levados bovinamente a matadouros da casa própria por empresários inescrupulosos. Não é por acaso que o setor imobiliário é um dos maiores financiadores de campanhas eleitorais. A perpetuação de vantagens indecorosas é uma das metas.


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