O que a presidente Dilma Rousseff decidiu fazer na noite de anteontem o presidente do Clube dos Especuladores Imobiliários da Província do Grande ABC, Milton Bigucci, já faz e faz continuamente há muito tempo: fugir de entrevistas que possam lhe trazer desconforto. Dilma Rousseff virou Milton Bigucci de saia. Tomara que seja só por uma noite.
Os questionamentos da Rede Globo destes tempos de campanhas eleitorais à Presidência da República têm o mesmo viés de contundência da seção Entrevista Indesejada deste CapitalSocial. A diferença é que por aqui este trabalho jornalístico é visto por alguns como ofensa, como agressão, como invasão de privacidade, por mais públicas que sejam as autoridades questionadas. Na glamourosa Globo Entrevista Indesejada é independência editorial. Coisas de Província, como se sabe.
Os jornalistas do Jornal da Globo fizeram bem em subliminarmente denunciar a ausência de Dilma Rousseff como recusa ao jogo limpo e transparente a uma entrevista cuja presidente da República teria obrigação de conceder. Mais que levar burocraticamente ao público a quebra da programação e da democratização da informação, William Waack e Christiane Pelajo leram “algumas das perguntas que seriam feitas a ela”. Foi a primeira vez desde a campanha eleitoral de 2002, revelaram os profissionais da TV Globo, que um candidato à Presidência se recusou a conceder a entrevista.
Burrice punível?
O jornalista Josias de Souza, do UOL, definiu assim a decisão da petista: “Se Dilma ainda fosse a favorita, sua ausência seria apenas um erro. Com Marina Silva no seu encalço, foi burrice”. Se escrever algo parecido sobre Milton Bigucci provavelmente o jornalista da Folha de S. Paulo será alvo de ação judicial. Escrevi que Milton Bigucci é dissimulado (isto, antes de aparecerem os podres de sua ação empresarial) e a Justiça cometeu a loucura de me condenar por considerar o texto ofensivo.
Já escrevi que Milton Bigucci integrou uma quadrilha que arrematou um terreno público e até hoje não fui acionado na Justiça. Milton Bigucci sabe que ao me acionar terá de arcar com as consequências de investigações ministeriais que estão a demorar.
Nem de longe existe a possibilidade de Dilma Rousseff ter contado com a inspiração de marqueteiros de Milton Bigucci para eliminar a programação da Rede Globo da agenda da última terça-feira.
Primeiro, porque a assessoria de marketing da candidata à reeleição é integrada por profissionais coroadíssimos no mundo da dissimulação, da criação, da reverberação de supostos feitos, essas coisas que os entornos dos políticos dominam como poucos porque se dão a acreditar que sabem de tudo. Por outro lado, não se se tem notícia de que Milton Bigucci, centralizador como é, autoritário como é, teria paciência e talento intelectual para entender que há profissionais na área de comunicação que poderiam torná-lo algo que pudesse passar uma imagem de credibilidade que se contrapusesse à série de irregularidades cometidas ao longo da carreira de mercador imobiliário.
Prêmios viciados
Não há premiação mais que viciada capaz de tirar Milton Bigucci da rota de investigações sérias do Ministério Público por uso e abuso contra a clientela – e também como aliado de fiscais corruptos, como denunciou o MP e a Controladoria-Geral do Município de São Paulo nos escândalos do IPTU e do ISS.
Segundo, porque duvido que a presidente da República insistirá na barbeiragem de travestir-se de Milton Bigucci, dada a repercussão negativa que a recusa em participar da entrevista lhe causou.
Não é o caso de Milton Bigucci, como se sabe. Embora desafiado três vezes a responder à seção Entrevista Indesejada desta revista digital, ele não só correu da raia à semelhança de uma gazela como optou pelo caminho do autoritarismo explícito, encaminhando à Justiça ações por difamação e injúrias, além de procurar retirar destas páginas tudo que se referisse a sua identidade profissional e institucional.
A censura foi solapada pelo Judiciário, mas a influência nos escaninhos dos poderes por força do poderio econômico que ostenta lhe deu vitórias parciais que não resistirão a novos julgamentos se este País não se cristalizar como uma República de Bananas. As estripulias do mercador imobiliário, denunciadas pelo Ministério Público do Consumidor de São Bernardo, que o classificou como campeão regional de abusos contra a clientela, seria suficiente para tornar os textos que produzi para esta revista digital, objeto de contestação de Milton Bigucci, um ensaio sobre a cegueira daqueles que ainda consideram o mercador imobiliário alguém que pratica qualquer coisa que lembre responsabilidade social.
Três oportunidades
CapitalSocial ofereceu nada menos que três oportunidades a Milton Bigucci durante os últimos anos, encaminhando-lhe três questionários distintos, para que pudesse se pronunciar sobre as iniciativas que tomou tanto à frente do Clube dos Especuladores Imobiliários como do conglomerado de empresas da MBigucci. Foram perguntas assemelhadas as que a TV Globo reservou à presidente Dilma Rousseff, guardados contextos e proporções. No caso de Milton Bigucci, diferentemente do de Dilma Rousseff, questões relativas a intervenções que ferem completamente o padrão de idoneidade corporativa e institucional estão fundamentadas à espera de respostas que jamais se consumaram.
Milton Bigucci tem aversão fundamentalista a qualquer coisa que fuja da bitola de aprovação unânime. O problema é que o conceito de unanimidade de Milton Bigucci se resume ao escrutínio de um único voto – o dele, evidentemente, soberano e inquestionável. O Clube dos Especuladores Imobiliários, antiga Acigabc e Clube dos Construtores e Incorporadores, é prova provada de que o bloco do eu-sozinho é o máximo de concessões que Milton Bigucci oferece a quem pretende participar de qualquer ação coletiva.
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