Economia

Planejamento econômico
para ocupação do terciário

DANIEL LIMA - 23/05/2003

O extravagante número de empreendedores em São Caetano -- mostramos ontem que há um negócio comercial ou de serviços para cada 20 imóveis residenciais, o maior índice da Grande São Paulo  -- longe está de qualquer planejamento público. Pelo contrário: é tradição dos municípios brasileiros e da América Latina como um todo a fissura integrativa entre o Poder Público em relação ao empreendedorismo privado, exceto na arrecadação de impostos.


 


Excesso de produtos e serviços em oferta num determinado território estático, isto é, sem alta rotatividade de frequentadores,  significa canibalismo econômico. É o que tem ocorrido há pelo menos uma década no Grande ABC que se desindustrializou e jogou às feras do mercado ex-trabalhadores industriais que abriram micronegócios.


 


Tivéssemos administrações públicas de Primeiro Mundo, como deveria ser o jogo do livre-mercado no setor terciário? Vou dar um exemplo prático de como poderia funcionar o equilíbrio entre oferta e demanda como vetor retroalimentador de revigoramento social.


 


Imaginem um ex-trabalhador industrial que, confortado pela indenização, resolve abrir um lava-rápido. Recorro a esse exemplo porque abrir lava-rápidos foi uma das endemias da economia regional há algum tempo, quando as fábricas deram descargas em larga escala de seus contingentes de mão-de-obra.


 


Preparação necessária


 


Depois de mergulhar em cursos do Sebrae, maior autoridade na preparação técnico-operacional de empreendedores, o desempregado endinheirado recorreria a departamento especializado de uma Prefeitura para algo que chamaria de análise geoeconômica da área que ocuparia com seu negócio.


 


Uma bateria de avaliações permitiria ao candidato a empreendedor identificar os pontos que mais favoreceriam sua proposta de reorganização profissional. O banco de dados do Município lhe forneceria, no clique do computador, a disponibilidade física dessas áreas, com perfis individualizados e condições legais de uso, e, mais que isso, o nível de eventuais bloqueios que enfrentariam, em forma de concorrência já instalada.


 


É claro que o sinal de alerta seria acionado diante de escolha territorial onde já haveria ocupação economicamente forte do empreendimento que pretenderia lançar. Dividido em macrobairros completamente informatizados e alimentados por estatísticas atualizadas, o banco de dados da Prefeitura ofereceria alternativas de negócios para o desempregado candidato a dirigir lava-rápido.


 


Coloco de forma simplificada, para entendimento imediato, algo que poderia detalhar em minúcias. O que pretendo é transmitir exemplo emblemático -- e esse procedimento valeria para todos os segmentos comerciais e de serviços -- de como livre-mercado e planejamento estatal se compatibilizam na formulação e execução de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento econômico.


 


Modelo impraticável


 


Essa breve exposição de idéia é espécie de provocação às autoridades públicas porque esse modelo que sugiro é absolutamente impraticável não só no Grande ABC como no País, já que, repito, de maneira geral a cultura nacional é de opor resistência e criar dificuldades a quem deseja empreender, e não facilitar e orientar.


 


Se o Poder Público enxergasse o empreendedorismo privado com os olhos das administradoras de shoppings, certamente produziriam revolução nas relações socioeconômicas. Sim, porque na medida exata em que se estabelece equilíbrio distritalizado entre oferta e demanda, pratica-se a lógica de aumento de potencialidade de sucesso dos negócios. Não teríamos, portanto, como tivemos, um matadouro de lava-rápidos depois do boom enlouquecido, protagonizado por desempregados com dinheiro no bolso. Nada é mais perigoso que cabeça vazia, despreparo técnico e poupança disponível.


 


O excesso de empreendedorismo de São Caetano é nefasto porque fomenta concorrência exacerbada e, portanto, predatória. Já repararam como o balanço dos centros de compra planejados impede que haja oferta excessiva de determinados tipos de produtos voltados ao mesmo perfil consumidor?


 


É claro que o livre-mercado, na formulação do exemplo que utilizei, não deve impedir que o ex-industriário abra seu ponto de negócio numa região já congestionada e, portanto, de alto risco. O território é livre, evidentemente. Provavelmente, entretanto, diante do manancial de informações, ele preferirá outro endereço, também identificado no terminal do computador público que cruzaria os mais variados dados socioeconômicos.


 


É por essas e outras que nossos administradores públicos estão na pré-história quando se trata de empreendedorismo conjugado com o setor privado.


 


Na edição de segunda-feira voltaremos a escrever sobre o assunto.  


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