O maior industrializador de promessas e lorotas da Província do Grande ABC está em greve ou jogou a toalha. Há três meses o prefeito de Santo André, Carlos Grana, não aparece no noticiário dos jornais da região para anunciar alguma coisa que seja incorporada ao Observatório de Promessas e Lorotas da Província do Grande ABC. É um recorde. O que se passa com Grana?
Teria o prefeito de Santo André perdido a embocadura à fanfarronice? Caiu na real de que não se pode brincar com a população divulgando a torto e a direito isto e aquilo para aparecer nas páginas dos jornais sem se dar conta de que o esquelético orçamento de uma cidade que empobreceu ao longo dos anos virou cobertor curto? Não teve tempo para cuidar da cidade porque estava envolvido na campanha de Dilma Rousseff, fragorosamente derrotada na região?
Seja qual for a resposta – e a resposta não foge a qualquer alternativa que deixe de colocar o prefeito de Santo André de saia justa – a realidade é que, desde que foi descoberto pelos mandachuvas e mandachuvinhas da Administração Pública municipal da Província, o Observatório de Promessas e Lorotas perdeu velocidade de inserções. Basta verificar os registros.
Estou atento, mas eles, os prefeitos, parecem mais atentos ainda. Agora os prefeitos das sete cidades da região têm tomado muito mais cuidados. Sabem que as eleições municipais estão chegando e adversários políticos podem e devem -- para não dizer que têm obrigação -- de divulgar o que consta deste acervo.
Ineditismo na Imprensa
O Observatório de Promessas e Lorotas é uma iniciativa inédita no jornalismo verde e amarelo de tão curta memória. Tanto quanto, aliás, a criação do ombudsman não autorizado, que azucrina a vida de quem achava que poderia seguir na vida mansa de publicar bobagens sem ser incomodado e, igualmente, de produzir grandes sacadas sem ser reverenciado.
Já imaginaram se a farra do boi de declarações que usam e abusam da credibilidade dos leitores e que me motivaram a criar o Observatório de Promessas e Lorotas fosse rigorosamente analisada, quantificada e hierarquizada, por exemplo, na gestão de Dilma Rousseff, a pior presidente desde a redemocratização, excetuando-se o caçador de marajás Collor de Mello?
O que vimos nos debates do segundo turno, principalmente, e também nos programas eleitorais, foi um corolário de invencionices de obras e ações que não foram iniciadas ou estão muito longe do cronograma de finalização, mas acabaram empacotadas, carimbadas e entregues.
Inspirado no Observatório de Promessas e Lorotas que trata dos prefeitos da Província do Grande ABC, pensei em instituir versão voltada às entidades de classe. Desisti da ideia porque detesto pastel de vento. Além de inoperantes, comprometidas em larga escala com os respectivos paços municipais e acintosamente demagógicas, a maioria dessas instituições pouco tem a oferecer mesmo na categoria de promessas e lorotas, já que só estão aparentemente vivas. São organismos mortos, comandados por grupinhos que nada efetivam na prática. As exceções, pouquíssimas, confirmam a regra, mas a imprensa em geral lhes dá sustentação sem cobrar contrapartida de efetividade das ações.
Multiplicação de fantasias
Não entra nessa categoria de prostração que se soma à sensatez de pelo menos não alardear o que não consta de seus ativos a seção de Santo André da Ordem dos Advogados do Brasil, comandada por Fábio Picarelli. Com pretensões politicas que não são poucas, Fábio Picarelli alardeia aos quatro cantos que a OAB de Santo André é a multiplicação dos pães em matéria de participação de associados e de resolutividades sociais. Tudo não passa de embuste. As quatro dezenas de comissões temáticas produzem pouco e festejam muito. O individualismo e o estrelismo do presidente compõem o salvo-conduto à dispersão geral.
Fábio Picarelli abandonou o PT de Santo André na última campanha ao governo do Estado e à presidência da República. Ele descobriu, embora tardiamente, porque o custo da entrega da rapadura ao PT vai lhe ser bastante pesado no futuro, que o nicho da sociedade que supostamente representa não quer ver aquela agremiação nem pintada de ouro.
Tanto é verdade que determinadas urnas em regiões mais conservadoras e acauteladoras de Santo André apontaram 100% de votos válidos para Aécio Neves no segundo turno. Dilma Rousseff foi ignorada entre outras razões porque o PT caiu na ribanceira do descrédito nacional sobretudo no campo da responsabilidade na gestão do dinheiro público.
Como não é bobo nem nada – muito pelo contrário – Fábio Picarelli fez um acordo de bastidores para bandear-se em direção aos tucanos e com isso construir um currículo que lhe permitiria concorrer à Prefeitura de Santo André na condição de oposição de verdade.
Só faltou combinar com os russos da oposição porque até recentemente Fábio Picarelli prestava-se a bajular o prefeito Carlos Grana e, mais que isso, acordou um negócio de bastidores que culminou na escolha mais que direcionada do ouvidor da Prefeitura, cargo decorativo se for levado a sério o princípio de democracia como resistência à concentração de poderes que desprezam o contraditório.
Trocadilho de palanque
Sabe-se de fonte séria e garantida que o prefeito Carlos Grana se sente traído por Fábio Picarelli. Não seria o primeiro, é claro, mas até passou recibo de que fez papel de otário. Durante um comício pró-Dilma Rousseff, Grana fez um trocadilho mais que popular, popularíssimo e compulsório, sobre o derivativo mais evidente do nome do presidente da OAB de Santo André.
A fonte que me traz essa informação não falha, foi testada e aprovada várias vezes e esteve pessoalmente na evento no qual o prefeito de Santo André expeliu toda a raiva que passou a nutrir por Fábio Picarelli. Entretanto, retaliações maiores não são esperadas porque o presidente da OAB integra a turma do Festeja Grande ABC, que conta com o suporte de forças próximas às do prefeito de Santo André. Trata-se de um antagonismo meio de conveniência, meio de sapiência e meio de safadeza.
Me meti a exemplificar tanto a dificuldade de diagnosticar a atuação das entidades sociais da região, inserindo-as num projeto complementar do Observatório de Promessas e Lorotas, que me excedi nas lambanças patrocinadas por Fábio Picarelli. Mas acho que não existe motivo para autocensura. O dirigente da OAB é bem o espelho da maioria dos agentes de atuação pública que gravitam no entorno mais badalado da Província do Grande ABC em busca de um lugar ao sol político. Eles fazem qualquer negócio para conquistar um espaço que comporte a ambição de alcançar algum destaque na esfera administrativa das prefeituras locais. Está aí a vice-prefeita Oswana Fameli, também secretária de Desenvolvimento Econômico de Santo André, que não me deixa ser leviano nem lunático.
É uma pena mesmo que CapitalSocial não tenha como direcionar baterias contra as organizações sociais de modo a medir-lhes estatisticamente até que ponto confundem sonhos com realidade. De qualquer maneira, a ausência de um Observatório de Promessas e Lorotas voltado a entidades sociais oferece a contraface de que não perderemos tempo com bobagens. Bastam os prefeitos para ocupar esses espaços. E, a bem da verdade, cada vez mais cuidadosos porque sabem que o passivo já registrado por CapitalSocial é uma mancha que poderá atormentá-los muito mais.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)