Estava diretor de Redação do Diário do Grande ABC quando o prefeito Luiz Tortorello foi internado no Hospital Albert Einstein em setembro de 2004. Escrevi a matéria que virou manchetíssima do jornal. Sugeria a gravidade. Acompanhei o caso durante todo o tempo numa espécie de comando de um comitê de redação especial. A ordem era não dar trégua a qualquer tipo de informação relevante. Quando Tortorello morreu em 17 de dezembro recebi de bate-pronto uma chamada telefônica de minha fonte diretamente do hospital. Almoçava num restaurante de ricos em Santo André. Transmiti o recado à Redação. Daí à cobertura especial foi um passo. Escrevi vários artigos de um suplemento especial previamente preparado. A morte de Tortorello era uma morte anunciada. A doença era invencível.
Durante todo o tempo em que foi prefeito de São Caetano e também no período de internação hospitalar Luiz Tortorello mereceu coberturas superlativas dos jornais locais. Especialmente do Diário do Grande ABC. As relações entre o jornal e o político sempre foram abrasivas. Tortorello enfrentou o Diário do Grande ABC durante muitos anos. Foram combates desgastantes.
O prefeito que quebrou a espinha dorsal de caciques políticos de São Caetano, a quem se atribuía o poder eleitoral de eleger apenas quem entendiam ser predestinado, jamais foi a unanimidade pintada na edição de ontem do Diário do Grande ABC. Um dirigente público controverso como ele jamais seria unanimidade em vida. Nem pós-morte.
O próprio Diário do Grande ABC cansou de espetacularizar os demônios que Tortorello representaria. Fora chamado de megalomaníaco porque insistia em construir monumentos que evocavam ramificações familiares. Meus arquivos registram coberturas intensamente críticas do Diário do Grande ABC à administração de Tortorello.
Nada disso foi minimamente tocado na reportagem publicada na edição de ontem. O jornal terceirizou a alguns petistas, em breves textos, algumas restrições à atuação de Tortorello. Nada que traduzisse a parte menos vistosa do legado daquele homem de Interior que parecia feito para São Caetano.
Como Tom e Jerry
Tortorello era mesmo um político diferenciado. Artista das palavras, carismático, eloquente, disputava surdamente uma liderança que jamais deveria levar a campo com Celso Daniel, contemporâneo em várias gestões. Eram estilos diferentes. Celso Daniel, o iluminado intelectual. Tortorello, o grandiloquente. A vantagem econômico-financeira e de qualidade de vida de São Caetano o tornava um garoto-propaganda mais agradável à população que representava. Celso Daniel lidava com a escassez de tudo mas superava Tortorello na capacidade imensa de aglutinar opostos. Tortorello era um barril de pólvora. Celso Daniel uma lagoa calma.
Construir teorias sobre os acontecimentos da última década do século passado na Província do Grande ABC sem cruzar os caminhos trilhados por Celso Daniel e Luiz Tortorello é discorrer sobre Tom e desprezar Jerry. Literalmente. Celso Daniel e Tortorello eram rivais. À regionalidade latente do prefeito de Santo André contrapunha-se o autarquismo de Tortorello. Havia entre eles mais que diferenças ideológicas. A antipatia mútua demarcava o terreno politico-administrativo. Era natural que o Clube dos Prefeitos não acomodaria tamanhas discrepâncias.
Foram poucas as vezes que entrevistei o prefeito Luiz Tortorello. Numa das quais, juntamente com as também jornalistas Malu Marcoccia e Vera Guazzelli, estivemos em seu gabinete, no Palácio do Cerâmica, para produzir uma Reportagem de Capa para a revista LivreMercado. Fomos em comitiva porque a reportagem era de fôlego. Preparamo-nos para determinado temário. São Caetano vivia o auge da autoestima no esporte e na política Tortorello sempre dava um jeito de se destacar como um marqueteiro de mão cheia.
Com Tortorello São Caetano estava sempre nas manchetes. A população resplandecia de orgulho, mesmo com o bombardeio permanente das manchetes do Diário do Grande ABC. Muitas vezes, aliás, com notícias muito desagradáveis para quem, como ele, não aceitava qualquer tipo de contraditório. Quanto mais o que cheirava à perseguição, conforme cansava de reclamar. Tortorello excedia-se no choro porque sabia lidar com as emoções. Era um maestro do gestual e do verbal.
Voltando àquela reportagem de capa que multipliquei com duas das melhores profissionais com que trabalhei, o texto completo está no acervo deste CapitalSocial, conforme o link abaixo. Foram quase 50 mil caracteres que destrincharam praticamente tudo o que era mais importante do gestor público Luiz Tortorello. Sempre e sempre com abordagem característica daquela publicação: o perscrutar do futuro daquele espaço privilegiado de território que resolvemos chamar de “Principado”.
Perfil realista
Pretendo ainda hoje reler aquele material. Acho fundamental que não se despreze o passado como fonte de abordagem jornalística. Os reparos de ontem se reparos importantes forem não podem ser simplesmente esquecidos mesmo em condições especiais, como o completar de um determinado ciclo temporal de morte. A canonização editorial de protagonistas públicos é o caminho politicamente mais correto, mas jornalismo não é feito de nada politicamente correto. Destacar o extraordinário valor do prefeito Luiz Tortorello naquilo em que ele se mostrou extraordinário não implica silenciar-se a contraposições que permitiriam a construção de um perfil mais próximo da realidade.
Principalmente quando a iniciativa parte de um veículo de comunicação que se mobilizou durante muito tempo para revelar escorregões de um político que, gostava-se ou não, era dotado de personalidade intrigante, às vezes deselegante, outras vezes arrogante, mas fortemente abundante na capacidade de centralizar em torno de si os holofotes da mídia, manipulando-a como poucos.
Luiz Tortorello e seus 10 anos de desaparecimento não poderiam mesmo ser ignorados pela mídia regional. A oportunidade providencial do Diário do Grande ABC poderia ter envolvido um trabalho mais denso, mais prospectivo, mais crítico sem ser desrespeitoso. A tendência à sacralização dos mortos é um velho complexo de conservadorismo da Imprensa ditado por razões que fogem completamente à racionalidade de resgate dos acontecimentos. Ao homenagear Luiz Tortorello na edição de ontem o Diário do Grande ABC jogou na lata do lixo da memória informativa tudo o que escreveu em oposição ao então prefeito durante muitos anos.
Luiz Tortorello foi um dos principais agentes públicos da história política da Província do Grande ABC no século passado, mas nada lhe conferiria a imunidade do Diário do Grande ABC de tantos embates. Respeitar os mortos quando os mortos são integrantes da história de uma sociedade não significa imobilizar o senso crítico. O perfil do político Luiz Tortorello está bem caracterizado na matéria que segue no link abaixo. Produzida quando ele vivia e irremediavelmente eterna nestas páginas.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)