Economia

Quem tem garrafa de conhecimento
e de responsabilidade para vender?

DANIEL LIMA - 06/03/2015

Gostaria imensamente que os jornais impressos e digitais da Província do Grande ABC saíssem a campo para ouvir as chamadas lideranças econômicas, sociais, políticas e sindicais, além de secretários municipais da pasta de Desenvolvimento Econômico. Apenas uma, uminha, pergunta seria feita a cada um deles.  Simples, muito simples: como avaliam os próximos dois anos de nossa região, levando-se em conta nossas características econômicas e o momento por que passa o Pais?  As respostas vão muito provavelmente, bem esmiuçadas, demonstrar que contamos com várias categorias de gente. Vejam algumas que listei de bate-pronto:


 


Ilusionistas – Eles destacarão certamente e sem constrangimento moral que nada vai apagar a luz regional de brilho intenso no setor econômico. Nem mesmo uma gripezinha qualquer que ameaça tolher os números sempre irradiantes do desenvolvimento econômico do País será capaz de atingir a economia da região tão pródiga em diversidade e capitaneada pelo setor automotivo de portentosa resistência.


 


Embromadores – Eles vão fazer das tripas semânticas coração de suposta racionalidade para dizer ao público em geral, porque não têm outra coisa a dizer, que estamos passando por uma tempestade que não resistirá aos próximos meses. Voltaremos rapidamente, portanto, a flanar nas asas de uma indústria automotiva vigorosa e sob o incremento de trabalhadores principalmente das autopeças e montadoras que só são o que são, brilhantes e valorizadíssimos, porque a atuação sindical está na raiz do relacionamento produtivo com as empresas.


 


Interesseiros – Eles argumentarão que não há motivo algum para preocupação porque tantas outras vezes o quadro macroeconômico se apresentou turbulento aos olhos dos céticos e nada obstou o fortalecimento da economia regional. Dirão também que não passam de trapaças as pesquisas e estatísticas que revelam os estragos históricos na economia regional. Procurarão, portanto, satanizar os instrumentos de medição e principalmente quem faz uso de estudos para torpedear o bem-estar regional, portadores que são de vocação à desagregação social.


 


Realistas – Eles vão dizer aos jornalistas que não há como negar que a macroeconomia em transe e a regionalidade econômica da Província do Grande ABC em crise recomendam ações rápidas e incisivas para amenizar os elevados custos que já se apresentam de modo que a travessia que será longa não seja um desperdício de tempo ao final da trajetória, com o esfacelamento dos negócios. É melhor agir com rapidez do que acreditar nos falsos profetas do crescimento contínuo e automático.


 


Céticos – Eles vão declarar sem qualquer preocupação de parecerem simpáticos que jamais na história recente da economia da região, após o desastre dos anos 1990, a situação se apresentou de forma tão cristalinamente inquietante com uma combinação de desemprego industrial, paralisia político-institucional, fuga de investimentos produtivos e apatia social.


 


Politicamente correto


 


A incidência de respostas que preencheriam um dos modelos sugeridos provavelmente será a cara da Província do Grande ABC. Teremos uma maciça preocupação dos entrevistados em repassar aos jornalistas uma projeção politicamente correta, direcionada a pintar de cor-de-rosa um horizonte decididamente escuro, desalentador.


 


Vou mais longe: poucos, pouquíssimos, vão vestir roupagem de ceticismo e mesmo de realismo porque uma ou outra resposta será espécie de bumerangue. A maioria está encastelada nos respectivos cargos por razões diversas e, portanto, inapta a participar de uma empreitada coletiva de mudança de rumos da economia regional.


 


Traduzindo em miúdo: poucos terão garrafa de conhecimento regional e de responsabilidade social para vender. Nossas supostas lideranças regionais, em larga escala, são bolhas ao vento à procura de oportunidades de ocasião. Possivelmente vários desses exemplares poderiam dar uma reviravolta biográfica caso fossem instados a produzir resultados. Para tanto é indispensável que o ambiente regional passe por reoxigenação ainda fora dos radares.


 


Certo mesmo é que às primeiras adesões à proposta de as lideranças se aparelharem tecnicamente com medidas para fomentar uma nova Província do Grande ABC, retirando-se leite de institucionalidade da pedra de esvaziamento econômico que volta a nos atingir, outras adesões se dariam. Resultado final: o que transparecia sem retoque uma fragilidade coletiva dos quadros diretivos da região viraria um conjunto de virtudes conjugadas determinadas pela reação coordenada e planejada às intempéries.  


 


Sonho de verão


 


Tudo isso se apresenta com um sonho de verão, mas em algum momento a Província do Grande ABC haverá de sair da letargia de décadas. O mais recente sopro de reação coletiva frustrou a todos que se revelaram insatisfeitos. Mal sabiam os participantes do Fórum da Cidadania, em meados dos anos 1990, que após o desastroso clarinetista dos tempos sombrios de desemprego industrial do governo Fernando Henrique Cardoso viria o patético saxofonista do imprevidente governo petista, adepto do consumismo desenfreado sem contrapartida de investimentos que sustentassem a balela da nova classe média tão anunciada quanto fraudulenta.


 


O noticiário desta sexta-feira sobre os novos números da indústria automobilística do País me levou à conjectura de imaginar o que diriam os entrevistados dos jornais da região. Dependente ao extremo das montadoras e das autopeças, a região não se digna a uma reação coordenada para tentar entender o que estamos passando e, mais que isso, o que nos aguarda na longa curva de aproximadamente dois anos de reestruturação da agenda econômica do governo federal.


 


O congelamento da institucionalidade regional é fruto de interesses conflitantes embaralhados pela teia de coalizões partidárias oficiais e informais envolvendo principalmente políticos, sindicalistas e entidades de classe. Há um código de desonra entre eles que determina a preservação das vantagens adquiridas. Não se deram conta ainda de que há um limite à manutenção desse concerto de pilantragem. Talvez eles tenham deixado de combinar com os russos das circunstâncias que levaram o Brasil a pisar no freio para não despencar de vez.   


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