Imprensa

E a ficha de novos
tempos vai caindo*

DANIEL LIMA - 24/05/2015

Devagar, devagar, vai caindo a ficha de novos tempos editoriais, muito mais incisivos, muito mais contundentes. As placas tectônicas de gente acomodada começam a tremer. Dirigentes de associações comerciais e ouvidorias sentiram-se pressionados pelas matérias desta semana que terminou. Os primeiros porque foram colocados a nu na inoperância organizacional. Os segundos porque não passam de cartas marcadas do Poder Público.
 
Tomara que esses alvos já atingidos e tantos outros na alça de mira de um jornalismo comprometido com a região não comecem a ver fantasmas de defenestramento generalizado. Nada disso. Houve apenas uma mudança no centro de gravidade da linha editorial. O que este Diário transmitiu claramente com a Carta do Grande ABC de 11 de maio é que não está satisfeito. Tanto que se penitencia em relação à desindustrialização mal avaliada desde o século passado. Se este jornal pega no próprio pé, o que dirá então de terceiros que jamais se aproximaram da institucionalidade alcançada pela publicação?
 
Por mais que um ou outro queira fazer crer, numa jogada manjada que pretende levar este Diário ao acostamento do compromisso com os leitores, não parece que faltará tolerância à equipe de redação no tratamento às inúmeras situações que sacrificam a sociedade. Nesse caso, tolerância tem o sentido de que o jornal não será implacável a ponto de destruir instituições. Vai oferecer tempo e mobilização para se reinventarem. Só não se pode confundir tolerância com inoperância.
 
O próprio jornal, aliás, reconhece que precisa de um freio de arrumação para colocar em ordem a casa de um foco editorial que vá além da noticia, invadindo a área da interpretação e do questionamento mais aprofundado. Uma mão lavará a outra, desde que as mãos dos agentes públicos, privados e sociais não se pretendam maliciosas demais.
 
Mais que eventos
 
A reação de algumas lideranças das associações comerciais só não foi patética porque não se esperava algo diferente do que a tentativa de justificar o injustificável. Já passou da hora dessas instituições saírem do casulo de um corporativismo pífio e de um distanciamento autofágico das questões mais efervescentes da economia regional. Neste ponto o Diário não preencheu integralmente minha expectativa de corneteiro disfarçado de ombudsman improvisado. Faço reparo à abordagem principal da publicação envolvendo aquelas entidades, sobre a ausência de um calendário extenso e denso de promoções em favor do comércio de ruas em datas significativas. Está certo que o assunto é importante, mas apenas aborda um fragmento do que se exige de empreendedorismo de instituições que dizem representar empreendedores.
 
O que o comércio da região está a necessitar das associações que supostamente o representam é de um plano estratégico tanto quanto está a faltar ao setor de transformação industrial. Ações coletivas e regionais de entidades municipais são uma saída perfeita para quem sabe que é bobagem debater a possibilidade de condensar todas as associações comerciais numa só organização. Uma pauta em comum de assuntos regionais com implicação municipalista é sopa no mel para unir as entidades mesmo admitindo as idiossincrasias que alimentam separatismo.
 
Espera-se que após os frágeis  esperneios públicos e também envergonhadas manifestações intramuros, os dirigentes das associações comerciais parem de assumir ares de vítimas de uma publicação que lhes deu muita moleza e comecem a traçar um projeto de reestruturação. Os agentes econômicos de pequeno porte, a maioria órfã de retaguarda de marketing, estão à espera.
 
Ouvidorias de conveniência
 
Já quanto às ouvidorias mantidas por prefeituras da região para passar a ideia de que os gestores públicos são democráticos, a reportagem deste Diário foi providencial, embora pudesse ser mais detalhista. Providencial porque nunca antes na história da mídia regional uma publicação foi tão oportuna no desmascaramento desse apêndice político-partidário nos organogramas das prefeituras.


Menos detalhista do que o desejado porque está na cara que alguns números repassados por ouvidores sobre o grau de eficiência no encadeamento de soluções junto ao Executivo foram chutados.
 
Número de atendimentos é uma coisa, atendimento das demandas no sentido operacional da expressão é outra. Os ouvidores agiram como maquiadores. É muito pouco provável que este Diário descubra a fraude. As ouvidorias são pouco transparentes. O jornal poderia ter incorporado à reportagem a desconfiança de que as informações não correspondem à realidade.
 
Vou mais adiante: fossem as ouvidorias para valer, estariam disponíveis aos interessados todas as reclamações dos contribuintes que se manifestaram no organismo, bem como espaços respectivos que dariam conta da cronologia dos resultados. Afirmar simplesmente que toda a demanda foi atendida é brincar com a confiança alheia. Fossem os Legislativos menos condescendentes com os Executivos, uma faxina completa seria solicitada para eliminar os gargalos informativos. Quem tem coragem de questionar os prefeitos que adotaram ouvidorias apenas como marketing político?
 
Deixamos mais uma vez de lado aspectos microeditoriais da semana deste Diário. Sinal de que mais que dedetizar as poltronas, a situação recomenda que se analise criteriosamente o plano de voo.


*Matéria originalmente publicada no Diário do Grande ABC


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