Há uma distância quilométrica entre triunfalismo e alarmismo, mas esses extremos podem se tocar. Este jornal parece estar completamente recuperado do período em que acreditava que o olhar cor de rosa era a solução de todos os problemas. O realismo tomou conta das páginas, mas ainda há escorregões que bandearam para o lado oposto, de sensacionalismo. Nada proposital, evidentemente. Apenas uma questão de encaixe da entonação editorial. Um corredor acostumado a maratonas precisa de período de adaptação para percursos mais curtos e intensos. A recíproca é verdadeira. Este Diário se equilibra em meio às dificuldades de seguir novo plano de voo. Seria ótimo se outras instituições da região tivessem o mesmo espírito crítico. Sim, instituições, porque esse quase sessentão jornal é mais que um conjunto de páginas impressas diariamente. É um poder social do qual muitos não se dão conta e outros pensam que se dão conta.
A semana de análise das edições deste jornal, que começa sempre aos sábados (nunca às sextas, como já escrevi aqui) e termina na sexta-feira seguinte é prova provada de que os ajustes editoriais varejistas vão exigir atenção total. Já os acertos editoriais atacadistas, de perseguição permanente aos preceitos impressos em 11 de maio último, seguem em evolução.
Números a esclarecer
O varejismo ao qual me refiro e que simboliza tantas outras operações está caracterizado na manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) da edição de segunda-feira, 25 de maio. “Grande ABC registra perda de 33% das indústrias em apenas três anos” foi uma forçada de barra e tanto do jornal. A única possibilidade de não ter sido uma apelação para justificar um dos 10 quesitos pétreos da publicação (“desindustrialização”) depende do próprio jornal. Sem que se mostrem fontes e dados minuciosos sobre aquilo que seria uma hecatombe no setor industrial da região, o mais avassalador em território nacional, colocarei aquela manchetíssima entre os tropeços que poderiam ser evitados.
A fonte deste Diário é o Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), sem maiores informações sobre o rombo anunciado. Na mesma matéria há versão vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego que anula os dados do Ciesp. Com isso, os leitores mais atentos ficaram entre atônitos e indefesos. Atônitos porque em sã consciência não dá para acreditar em perda tão volumosa. Indefesos porque o próprio jornal lavou as mãos no aprofundamento das informações colidentes. Às vezes o jornal parece ter medo de botar o dedo nas feridas e acredita demais nas declarações de terceiros.
Com o instinto perdigueiro de sempre, fui à luta para obter mais informações sobre a manchetíssima deste jornal, mas não encontrei absolutamente nada. Isso quer dizer que é preciso voltar ao assunto e esclarecer. Se a manchetíssima foi um furo nágua, que o jornal assuma a responsabilidade pelo erro ou cobre publicamente da fonte de informação. Se existe base estatística, que se revelem todos os pontos. Até prova em contrário, é praticamente impossível que a região tenha sofrido tamanho baque em unidades industriais em tão pouco tempo. E também em uma década. Afinal, o setor industrial é menos suscetível a oscilações numéricas tão pronunciadas.
Desempregos conflitivos
Se a perda industrial sugere um chute no vazio, este Diário também pareceu querer endoidar os leitores com outras duas manchetíssimas. Na edição de sábado, 23 de maio, o título “ABC perde 3.833 postos de trabalho em um mês” acabou confrontada com o título da quinta-feira seguinte: “A cada dia, 767 perdem o emprego no Grande ABC”. Rigorosamente, as informações estão corretas. São fontes diferentes que as alimentaram, a primeira do Ministério do Trabalho e a segunda do Dieese, braço de estudos de sindicalistas.
Como as duas instituições se utilizam de metodologias diferentes – a primeira leva em conta apenas os trabalhadores com carteira assinada e a segunda coloca todo mundo no mesmo saco, formais e informais, entre outras variáveis – cabe ao jornal a escolha de Sofia. A preferência deveria recair sobre os dados do Caged, do Ministério do Trabalho, muito mais confiáveis e que retratam com mais segurança o andar da carruagem do mercado de trabalho. São raríssimos os jornais que dão destaque de primeira página e menos ainda de manchetíssima aos dados do Dieese.
Reforço econômico
Outros pontos poderiam ser destacados entre os assuntos mais candentes deste Diário, mas o espaço já se esvai. Estruturalmente, a publicação tem melhorado com algumas abordagens que fogem do fast-food diário, casos de reportagem sobre o acervo material dos teatros da região e, este mais antigo, uma tomografia providencial e histórica dos bairros da região.
Em termos atacadistas, ou seja, de desbravamento permanente do campo conceitual traçado, a força-tarefa na cobertura da presença do governador do Estado, Geraldo Alckmin, ao sétimo andar da publicação, dá a medida da importância dos temas abordados. Algo assemelhado poderia se reproduzir na cobertura econômica da região nestes tempos de montadoras em múltiplas formas de paralisia e autopeças em frangalhos. A Editoria de Economia deveria ser reforçada com o deslocamento de profissionais de outras áreas. A situação está pretíssima. Economia regional é prato de primeira necessidade dos leitores.
*Matéria originalmente publicada no Diário do Grande ABC
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)