Vou fazer o que chamaria de teste pedagógico com os leitores deste Diário sobre este Diário e para que este Diário seja entendido externamente e também nos interiores de sua Redação. Considerando-se que a “Carta do Grande ABC”, publicada na primeira página deste jornal em 11 de maio, explicita agora como cláusulas pétreas 10 pontos essenciais à regionalidade do Grande ABC, qual dessas manchetíssimas (manchete das manchetes de primeira página) está fora do esquadro nas últimas sete edições às quais me dediquei a analisar, já que minha semana sempre começa aos sábados e termina na sexta-feira seguinte?
a) Escândalos derrubam Cleuza Repulho
b) Arrecadação com multas de trânsito cresce 43% no ABC
c) Justiça manda São Bernardo limitar cargos comissionados
d) Produção de veículos no País registra pior maio da década
e) Empresários do ABC dizem que pacote de Dilma não alivia crise
f) Inflação vai a 8,47% e tem o maior índice desde 2003
g) Empresas de Bigucci entram na dívida ativa de Sto. André por dever impostos
Reproduzidas as manchetíssimas em ordem cronológica, concedo pelo menos dois minutos de reflexão aos leitores que pretenderem entender a razão da pergunta central deste texto, que repito: qual das manchetíssimas está fora do lugar, considerando-se a regionalidade do Grande ABC?
Uma escolha sem grilo
Trata-se de escolha sem maiores grilos para quem leu todas essas edições do Diário do Grande ABC. Não vou me estender nem farei deste desafio algo hitchockiano: a manchetíssima sobre a inflação não condiz com o que se entende por regionalidade. Não que o temário deixe de ser importante. Tanto que poderia ser resolvido com uma boa chamada de primeira página, claro. Mas manchetíssima é outra coisa. Manchetíssima é não entregar o ouro para o bandido, não jogar no campo adversário, não se meter em encrenca.
O que quero dizer com esses clichês-síntese é que este Diário será provavelmente imbatível em qualquer campo como mandante se souber jogar o jogo da regionalidade, mas vai se dar mal jogando em campo adversário.
Vai se dar bem em casa porque tem certo controle territorial dos personagens e dos figurantes que emolduram a sociologia local. Sempre haverá alguém na Redação que contribuirá para enriquecer uma matéria de cunho regional. Jogar com o apoio da torcida e conhecendo bem o gramado é outra coisa.
Quando saímos de nosso quadrado, e inflação não é nossa especialidade, porque foge do nosso foco cotidiano e, mais que isso, está sob a guarda pretoriana da mídia nacional, a tendência é sofrermos derrota. Sofrer derrota significa que, por mais que caprichemos na cobertura, teremos espaços editoriais e limites de recursos profissionais a nos atrapalhar.
Não podemos perder vantagem competitiva ante mídias concorrenciais. Temos de cuidar bem de nossa geografia. Este Diário viveu durante toda a sua existência um drama gataborralheiresco de querer abraçar o mundo local, regional, nacional e internacional. Pura bobagem. Não há espaço físico e disponibilidade de recursos profissionais suficientes à empreitada. Nunca houve, aliás. O que existiu foi teimosia.
Tecnologia encurralada
Se em outros tempos a tecnologia de comunicações não era tão disseminada e por isso mesmo a concorrência por informações fora deste nosso espaço territorial não provocava buracos exacerbados, desde que a Internet apareceu tudo mudou para valer. Os leitores do Diário, em larga maioria, quando querem saber de determinados assuntos nacionais e internacionais, têm dezenas de alternativas a lhes contemplar no dia anterior, inclusive o Diário em versão digital. Publicar na versão impressa parte desse material com destaque tão acentuado é desprezar a matéria-prima interna.
E olhem que na edição de quinta-feira em que meteu a inflação como manchetíssima este Diário contava com duas matérias muito mais relevantes aos leitores que vivem a região. A primeira sobre o afastamento de vigilantes de quase duas dezenas de escolas municipais de São Bernardo. A retirada de segurança por si só já seria uma barbeiragem, mas quando se acrescenta que os estudantes de escolas de periferias atingidas pela violência sofrem muito mais, o desastre se torna maior. Dados complementares como índices de criminalidade de São Bernardo e a redução pífia de custos em contraposição, por exemplo, aos gastos nababescos com servidores comissionados que o próprio jornal publicou numa das edições anteriores, dariam contornos mais graves à estupidez da Administração Luiz Marinho.
Secoli volta à origem
Havia outra opção na mesma edição, também mal explorada na reportagem preparada aparentemente a toque de caixa. Trata-se da volta do prefeiturável Tarcísio Secoli à Secretaria de Governo, após atuar na Secretaria de Obras. O texto deixou um buraco: mais importante que o substituto de Tarcísio Secoli na Secretaria de Obras é a reconfiguração política-estratégica por trás da volta do ex-sindicalista à secretaria na qual atuou nos primeiros anos da gestão Marinho. O mote da mudança e que poderia justificar folgadamente a condição de manchetíssima daquela quinta-feira é que Tarcísio Secoli só mudou de lugar, voltando às origens, porque acabou a farra do boi eleitoral de dinheiro abundante em obras, que a crise econômica federal abortou. Desta forma, é melhor fazer amarração política sem fronteiras do que se desgastar com a escassez de dinheiro.
*Matéria originalmente publicada no Diário do Grande ABC
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