O prefeito Saulo Benevides, de Ribeirão Pires, deu a senha com a qual este Diário deveria abrir todas as portas em direção à redenção editorial. Basta apertar os agentes com atuação pública que eles confessam. Tradução: na medida em que este jornal não der moleza aos protagonistas do jogo político, econômico e social da região, como não o fez durante a semana de cobrança de projetos para adequação das prefeituras ao Plano Nacional de Educação, provavelmente mais eles vão se embananar. Quem está na chuva da notoriedade tem de aguentar o repuxo de cobranças. A maioria não suporta e abre o bico. Como o prefeito Saulo Benevides, que clonou o Plano Nacional de Educação do governo federal sem ter o cuidado de adaptar à realidade local os extravagantes números federais.
A manchetíssima de sexta-feira salvou a semana de análises deste quase ombudsman, porque mais que ombudsman. O título “Ribeirão Pires plagia plano nacional de Educação e faz projeto esdrúxulo” sintetiza a derrapada de um administrador público que correu para dar conta de recado de legalidade alertado por este Diário. Foi uma sequência de matérias que causou alvoroço nos paços municipais. Do alvoroço ao tropeço foi questão de tempo.
Pauta desaquecida
Essa sistemática atenção a questões que dizem respeito ao futuro da região -- e também tudo que se referir ao presente -- deveria ser cláusula pétrea da publicação. Recentemente e a bem da verdade outros temas foram bem explorados, como o caso da possibilidade de retirada da Pirelli de Santo André, mas em larga escala há esquecimento. Ou seja: a pauta efervescente esfria por conta do vácuo de desdobramentos implícitos ou porque se abrandou demais a cobertura nos dias posteriores.
Vários exemplos poderiam ser pinçados nos últimos tempos. O desfecho do pretendido requerimento do vereador Julinho Fuzari sobre a roubalheira da quadrilha que fraudou o Edital de Licitação no arremate de uma área onde a MBigucci constrói o empreendimento Marco Zero virou pó nos escaninhos do Legislativo de São Bernardo. Mesmo o escândalo do Semasa deveria ter tratamento editorial mais vigoroso. Crimes imobiliários com apenas um lado do balcão de propina não passam pelo teste de bom senso.
Muitas outras manchetíssimas inspiram abordagens complementares, mas este Diário parece sofrer de Alzheimer editorial. Por isso quando patetice como a do prefeito de Ribeirão Pires emerge como resultado de pressão da publicação, fortalece-se o ideário de cão de guarda do jornalismo.
Riqueza desprezada
Além de Alzheimer editorial, este Diário também alimenta idiossincrasias ao desprezar a própria riqueza de uma agenda mais que escancarada à disposição da reportagem: o setor automotivo e o mercado imobiliário são frondosíssimas ramificações de uma crise nacional nas duas atividades, mas que nestas bandas ganha conotações ainda mais graves.
Principalmente o mundo automotivo, de montadoras e autopeças, está tendo cobertura acanhadíssima deste jornal. Algumas edições à altura da situação confirmam esta sentença. Estamos perdendo um jogo em nossa própria casa, o que é inadmissível para o jornalismo regional. O noticiário é reticente, pouco profundo e entregue às fontes de informações. O sindicalismo segue, senão incensado, ao menos protegidíssimo. A produção, a produtividade, o emprego, o quadro nacional, as repercussões internas em outras atividades, tudo isso e muito mais não existem na agenda da editoria de economia com a intensidade que a marca do jornal exige.
Imóveis em crise
O mercado imobiliário também recomenda mais atenção. Não só para seguir dando configurações de espertezas às artimanhas de empresários que protelam indefinidamente o pagamento de impostos como também para acompanhar o mergulho da demanda com consequentes estragos econômicos. Pelo menos o jornal deixou de cair no conto de malvadezas do Clube dos Especuladores Imobiliários, dirigido por Milton Bigucci, que trata os leitores em geral e os potenciais compradores de imóveis com a mesma seriedade com que Tiririca é relacionado entre os 10 parlamentares intelectualmente mais preparados do Congresso Nacional.
Aliás, a cobertura econômica como um todo está muito aquém da importância da atividade, principalmente quando os anseios dos leitores aparecem no horizonte de audiência. A manchetíssima da fuga da Balas Juquinha do território de Santo André foi tão providencial quanto pouco consistente. Perdeu-se uma oportunidade de ouro para mostrar e provar com dados estatísticos que aquele desfecho não é obra do acaso.
A semana que passou também fortaleceu desconfiança de que reuniões que decidem posições de destaque na primeira página podem ser um curso de boas maneiras mas também de resultados inadequados. Há potenciais manchetíssimas que se perdem na edição porque ainda prevalecem olhares menos profundos sobre as opções disponíveis. Na edição de quinta-feira, quando este jornal levou à manchetíssima o gatinho indefeso da redução da maioridade penal, aprovada apenas numa comissão do parlamento, havia pelo menos três tigres regionais em potencial para disputar aquele espaço gráfico nobre. Bastaria optar por um e dar tratamento de força-tarefa, encorpando o conteúdo.
*Matéria originalmente publicada no Diário do Grande ABC
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)