Imprensa

Melhor manchetíssima
não foi manchetíssima*

DANIEL LIMA - 12/07/2015

Na semana que passou a melhor manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) deste Diário não foi uma manchetíssima. Calma leitores que não há nada de errado no enunciado. A melhor manchetíssima foi uma fotografia gigante publicada na primeira página colhendo um aposentado de Santo André que teve sua cadelinha Cindy encontrada e devolvida. O flagrante assinado por Celso Luiz foi pungente -- mas muito mais que isso. Talvez este jornal devesse adotar o Projeto Cindy como tradução da Carta do Grande ABC publicada na primeira página de 11 de maio último, quando completou 57 anos de circulação.
 
Muito além da emoção que perpassou aquela foto com uma legenda explicativa especial, o reencontro de Cindy com seu dono de 82 anos condensa a regionalidade que deve pautar esta publicação. Enquanto houver um leitor a ultrapassar os limites convencionais de consumidor de informação, transformando-se em agente de solidariedade, este jornal não poderá perder o foco de que seu principal limite, sempre conectado ao mundo, são os 840 quilômetros quadrados que envolvem os sete municípios.
 
Multiplicidade de agentes
 
Como os leitores deste jornal não são apenas solidários, mas também consumidores, torcedores, motoristas, frentistas, dentistas, empresários, engenheiros e sindicalistas, entre tantos de uma lista sem fim, imaginem o tamanho da responsabilidade em cada centímetro quadrado de texto que ganha a forma da publicação?
 
A mistura de satisfação de ver um produto reconhecido em situações só aparentemente prosaicas, como a da cachorra que retornou a seu dono graças a uma leitora da publicação, e o peso implícito da relação com os destinatários do produto a cada manhã que se descortina, forma o escopo de uma atividade profissional que não pode tergiversar, sob pena de cristalizar frustrações. Ao juntar leitores que jamais se viram mas que tiveram Cindy como elo, este Diário comprovou-se elemento institucional nem sempre reconhecido.
 
Proximidade aguça sentidos
 
Fazer jornalismo regional impresso ou digital possibilita estabelecer baita diferença em relação aos veículos de maior porte e de abrangência nacional, como Folha de S. Paulo, Estadão e O Globo. O que pareceria descartável àquelas publicações, sem o mesmo grau de adensamento e foco de leitores, tornou-se decisão editorial sábia.


Aquela cachorrinha mostrou que a turma da Redação que decide o que fazer com a massa de reportagens de cada dia não perdeu o faro para distinguir quem vai ganhar a corrida de espermatozoides de manchetes, manchetinhas, manchetonas e manchetíssimas de primeira página.
 
Linha Maginot automotiva
 
Mas este Diário precisa cuidar mais de um flanco ao qual já me referi e que se tem convertido em algo como uma Linha Maginot, por onde perde senão a guerra -- porque a guerra pela informação regional o jornal não haverá de perder jamais -- mas uma batalha importantíssima: a crise na indústria automotiva elimina milhares de empregos e milhões em consumos, mas ainda não obteve do comando da redação reconhecimento semelhante ao da cachorrinha que subverteu o conceito de manchetíssima.
 
Este Diário está perdendo por placar largo, na média de produção e de abordagens, a cobertura da crise automotiva para as maiores publicações do País, especialmente para o jornal Valor Econômico. Ou seja: está atrás num jogo decisivo no próprio campo.
 
O que pergunto é simples e direto: se uma cachorrinha tão simpática comove a sociedade, porque não faltaram leitores a apontar aquela foto com encantamento, o que dizer de milhares de trabalhadores que viraram estatística porque, além de patetices de ordem federal, o sindicalismo cutista dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema está muito aquém do compromisso que jamais teve com a sociedade em geral?
 
Impactos da crise
 
Quem conhece a economia do Grande ABC sabe que estamos vivendo a pior crise da história. E olhem que já passamos por turbulências terríveis. A crise é a pior da história não propriamente pela extensão temporal e mesmo pelos desajustes na relação entre capital e trabalho. Essa crise não dura ainda tanto como nos anos de chumbo do presidente Fernando Henrique Cardoso, mas os impactos são proporcionalmente muito mais destrutivos. Até parece que São Bernardo, capital econômica regional, não perdeu 23% do PIB Industrial em 2012, último dado disponível pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), quando os estragos foram relativamente bem menores que nos últimos 12 meses, ou mais restritivamente ainda nos últimos seis meses.
 
Este Diário teve a honradez ético-editorial de assumir mea culpa por desprezar continuamente no passado a persistente desindustrialização da região. Por isso não pode esperar tempo algum para ter novo encontro com os fatos atuais. Este jornal precisa se render à realidade da estrondosa brutalidade do desaquecimento econômico que a região vive por conta de uma combinação sinistra de fatores macroeconômicos nacionais somados a fragilidades estritamente locais, provocadas, entre outras razões, pelo mandonismo corporativista de um sindicalismo partidário que ignora tudo que está fora das montadoras e das autopeças.
 
*Matéria originalmente publicada no Diário do Grande ABC


Leia mais matérias desta seção: Imprensa

Total de 1980 matérias | Página 1

10/04/2026 ARCA DE NOÉ CONTRA O GATABORRALHEIRISMO (3)
03/04/2026 ARCA DE NOÉ CONTRA O GATABORRALHEIRISMO (2)
27/03/2026 ARCA DE NOÉ CONTRA O GATABORRALHEIRISMO (1)
23/03/2026 OMBUDSMAN DO DIÁRIO DURANTE UMA SEMANA
20/03/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (25)
13/03/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (24)
06/03/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (23)
27/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (22)
23/02/2026 ARCA DE NOÉ VEM AÍ: 60 ANOS EM 60 TEXTOS
20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)
13/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (20)
06/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (19)
30/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (18)
23/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (17)
16/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (16)
09/01/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (15)
22/12/2025 QUANDO FAKE NEWS MERECEM DESPREZO
19/12/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (14)
12/12/2025 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (13)