Manchetíssima desperdiçada é como o tempo: não se recupera mais. Pois este Diário perdeu grande oportunidade de garantir sequência de matérias sintonizadas com um dos 10 quesitos que constam da Carta do Grande ABC, compromisso público com os leitores explicitado na primeira página de 11 de maio último. Ao deixar escapulir a manchetíssima mais óbvia da temporada, na última quinta-feira, e, mais que isso, tornar mais importante uma notícia vinculada à possível introdução do Código de Ética no Legislativo de Santo André, este Diário executou o que seria no mundo televisivo um episódio típico do Inacreditável Futebol Clube. Ao perder o gol mais incrivelmente fácil desta temporada, este Diário deu provas de que ainda está distante dos próprios desígnios que se impôs como desafio de iluminar a regionalidade do Grande ABC.
É claro que estou me referindo à manifestação dos 300. Não, não nada a ver com guerreiros gregos que viraram história cinematográfica. Os 300 de Santo André eram empresários, familiares de empresários e também trabalhadores alinhados aos empresários. Eles foram às ruas contra a crise econômica do País e também contra políticas econômicas locais. Eles entregaram uma carta aberta no Clube dos Prefeitos, onde o titular Gabriel Maranhão recebeu os líderes do movimento.
Erros não reduzem importância
Nenhuma das várias deficiências de organização, nem mesmo alguns dos personagens mais que manjados entre os manifestantes, minimiza a importância daquele evento. Primeiro, porque o grosso era integrado por gente que produz. Segundo, e principalmente, porque se tratou de mobilização inédita na história econômica da região. Somos carne de vaca em mobilizações de trabalhadores, especialidade dos sindicatos que não prestam contas a ninguém e gozam de todo o aparato de infraestrutura e proximidade com suas bases. Os empresários não têm determinação, coragem ou qualquer outro requisito para enfrentar as consequências de ir às ruas.
A manchetezinha de primeira página, na parte de baixo da primeira página, incluindo-se fotozinha de parte dos manifestantes com uma faixa de protesto, decididamente, cristalizou o Inacreditável Futebol Clube. Fico me perguntando: por mais que entenda o sofrimento de fechamento diário de uma publicação que tem de se virar nos 30 diante da complexidade de atender igualmente a sete municípios, como encontrar explicações para tamanha pisada no tomate.? Nenhum argumento resiste à lógica acaciana: colocar 300 malucos, no bom sentido do termo, para protestar contra o governo e cobrar ações dos administradores locais, não é nada comum.
Sobretudo porque se sabe que empresários, e todos eram empresários de pequenas empresas, têm horror à exposição fora das páginas de colunismo social. Afinal, muitos são devedores compulsivos de tributos, os quais protelam quando não jogam às traças judiciais para cumprir compromissos mais candentes, como a folha de pagamento dos trabalhadores. É preciso ser imbecil juramentado para acreditar que ser empresário de pequeno porte neste País é algum privilégio.
Figurinhas carimbadas influenciaram?
A impressão para quem está do lado externo da Redação deste Diário é que ninguém se deu conta da importância da manifestação, mesmo muitas horas depois, quando a versão digital das publicações locais destacavam o evento. Quem sabe uma das explicações seja o que poderia ser chamado de vício de origem, dada a participação de algumas figurinhas carimbadas? Nada que, entretanto, pudesse sequestrar a importância do acontecimento. Ou algo que ocorre pela primeira vez na história dos capitalistas da região, de uma região dominada pelo trabalhismo sindicalista de viés socialista atrasadíssimo, não ganha corpos de vantagem sobre qualquer outro assunto do dia?
Aliás, sobre isso, a manifestação dos 300 perdeu a corrida pela manchetíssima para uma jogada política de um vereador de São Bernardo, opositor do prefeito Luiz Marinho, que, ao sensibilizar dois dos aliados do prefeito petista, levou à aprovação uma medida que supostamente ajudaria a construir mais uma torre de complicações ao atual titular do Executivo. Fosse um lance decisivo no jogo administrativo de Luiz Marinho, desses que derrubam secretariado e causam estragos na base aliada, tudo bem para merecer uma manchetinha. Como tudo não passou, ainda, de peça pouco importante na engrenagem que sustenta o petismo do ex-sindicalista, a manchetíssima foi uma aberração. Um fato literalmente paroquial, de expressão tímida, diante dos 300.
Manifesto mal traduzido
Perder para o vereador Pery Cartola no Legislativo de São Bernardo e para o requentamento de uma proposta de regulamentação do Código de Ética no Legislativo de Santo André, prova que o manifesto dos 300 foi equivocadamente traduzido na Redação deste Diário. Para complicar ainda mais o jogo, o Código de Ética é conversa para boi dormir porque até os patos que frequentavam o Paço Municipal de Santo André, os patos de verdade, sabem que não será um codigozinho qualquer que doutrinará os legisladores a agir com lisura, entre outros predicados.
Por mais que se defenda a possibilidade de que o evento inédito nas ruas de Santo André não passaria de fogo de palha ou algo assemelhado, este Diário teria obrigação de prospectar o valor histórico ou farsesco da mobilização porque, entre outros motivos, o futuro não pertence aos jornalistas. Exceto se Deus constar da lista de repórteres desta publicação.
*Matéria originalmente publicada no Diário do Grande ABC
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)