Quem acredita que jornais impressos estão com munição esgotada nestes tempos de plataformas digitais, especialmente de redes sociais, precisa relativizar epitáfios. Ao debelar incêndio de insensatez dos legisladores de Diadema, que pretendiam autoconcederem 49% de reajuste salarial, este Diário mostrou do que é capaz se não abrir mão de um editorial incisivo, persistente, incômodo e até mesmo novelesco. Contando com o suporte da versão online e tendo o providencial respaldo, no campo de luta em Diadema de forças vivas da comunidade, este Diário ajudou a acabar com a farra de uma maioria encabrestada pelo Executivo e de uma minoria sempre disposta a arrumar brechinha para se locupletar -- como é a tradição dos legislativos desta Pátria.
Foi uma combinação perfeita. Deveria servir de referência a novas jornadas dinamitadoras de escândalos. Já imaginaram se houvesse tido em Santo André algo semelhante à reação de Diadema quando o promotor criminal Roberto Wider Filho só encontrou larápios entre servidores públicos no escândalo do Semasa ou se o Legislativo de São Bernardo fosse pressionado por forças vivas da sociedade a exigir o reenquadramento legal do empreendimento Marco Zero, da MBigucci, desavergonhadamente protegido pelo prefeito Luiz Marinho?
Complementaridade recíproca
Abundam casos que frustraram a expectativa de quem quer ver o Grande ABC tomando rumo semelhante ao da Operação Laja Jato. Mas o que fazer se uma andorinha só não faz verão? Este Diário é tão importante para a comunidade regional que, exatamente por integrar o meio ambiente social e econômico, só alcançará musculatura de mudanças de que precisamos se houver ressonância às inúmeras coberturas que realiza. E a recíproca é verdadeira: na medida em que a sociedade se mobiliza sobre determinadas questões, o engajamento deste jornal deve ser compulsório.
Ou seja: jornal impresso respeitado, qualquer que seja, jamais perderá protagonismo social nestes tempos em que, repetimos, a audiência de alternativas tecnológicas digitais parece encaminhar-se à popularização irrefreável. As redes sociais foram peças importantes do dominó de energia cívica que pulverizou os vereadores de Diadema, assim como a mobilização pessoal, nas ruas, de gente inconformada com a sem-vergonhice da proposta aprovada num primeiro movimento. Entretanto, sem a base sólida do jornal impresso, materializado em cada página física, sem isso, possivelmente o desfecho teria sido outro.
Vivemos tempos de interatividade, de compartilhamento de comunicação, mas a gênese segue a ser o veículo impresso. Os vereadores de Diadema estão encalacrados. Sabem que continuam vigiados e que não darão rasteira regimental para aprovar o descalabro.
Água abundante
A cobertura do caradurismo dos vereadores de Diadema marcou uma semana de recuperação editorial deste Diário. Suplantou-se largamente o período imediatamente anterior. Outro tema ao qual repórteres e editores não dão folga é a série de iniciativas da Sabesp para reduzir a perda de água na região, seja com investimentos, seja com fiscalização. Foram três matérias durante a semana que passou, com direito a igual número de manchetíssimas, com dimensionamento das conquistas. Possível balanço geral seria publicado para reforçar abordagem sincronizada com a Carta do Grande ABC, publicada em 11 de maio último. A corda no pescoço do abastecimento de água é artigo de primeira necessidade no cotidiano de milhões de habitantes dessa região.
Também foi ponto marcante entre as edições da semana deste jornal a cobertura especial da atuação do jornalista Édison Motta, morto precocemente aos 62 anos. Abriram-se páginas em homenagem a um dos profissionais que ajudaram a construir a marca deste jornal, inclusive com a conquista de um Prêmio Esso juntamente com Ademir Médici, colaborador especializado em memória. A valorização de especialistas em várias áreas que contribuíram com a história da região deveria constar dos radares da Redação muito além de homenagem, mas sobretudo como exemplo às novas gerações que se deixam encapsular pelo Complexo de Gata Borralheiro que tanto nos atazana.
Universidade relatorial
Mas nem tudo foram flores na semana. O texto relatorial de 10 anos de atuação da Universidade Federal do Grande ABC, reportagem que ganhou manchetíssima, distanciou-se do mínimo desejável para avaliar lucros e perdas dessa instituição cuja atuação ainda está aquém da velocidade de estragos na economia regional.
É verdade que faltam agentes públicos com isenção ideológica e agentes privados com capacidade intelectual para análise independente, crítica e reformista do desempenho da UFABC. Ainda se observa uma instituição estranha ao ninho regional, embora nos últimos tempos tenha ensaiado participação em organismos locais, casos da Agência de Desenvolvimento Econômico e do Clube dos Prefeitos.
Mas é muito pouco, embora não se deva duvidar de que, mesmo sendo pouco, é possível que seja maior que a ação de instâncias envelhecidas dessa geografia. O caso dos vereadores de Diadema, desalojados da convicção de que tudo podiam fazer, ainda é exceção de reação cidadã no Grande ABC. Para se tornar regra, falta muito. Este Diário deu prova de que pode multiplicar iniciativas que convirjam a novas empreitadas.
*Matéria originalmente publicada no Diário do Grande ABC
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)