Na semana que sempre termina às sextas-feiras por causa do compromisso de entrega desta coluna, o Diário do Grande ABC surpreendeu quem ainda duvida do engate de uma quinta marcha em direção a reformas conceituais no jornalismo impresso da região. Foi uma semana de distribuição de bons produtos editoriais. Principalmente porque passou pela prova de fogo de que está exorcizando o triunfalismo a que se entregou durante muito tempo quando, se não escondeu, ao menos minimizou em vários períodos a gravidade econômica e social da região.
Provavelmente a mais emblemática das manchetíssimas (manchete das manchetes de primeira página) deste Diário na semana tenha sido a abordagem da edição de quarta-feira. “Economia das sete cidades encolhe pelo 4º ano seguido” resume bem a nova etapa deste Diário. O recado parece ser o seguinte: se duvidam que tudo mudou é melhor que se preparem, porque tudo mudou mesmo. “Mudamos para mudar” seria um bom slogan de uma campanha publicitária. Jornalismo impresso normalmente só muda o modelo gráfico, mantendo a mesmice da estrutura editorial.
Acena este Diário com a certeza de que virou pó o velho conto do vigário que algumas forças de pressão lhe impingiram. Essa historinha idiota de que um veículo de comunicação regional precisa esquecer os dramas do cotidiano e encontrar mesmo que forçadamente no paiol de subjetividades uma agulha de positividade para alimentar a esperança dos leitores já não cola mais. A contra-argumentação de que é preciso que os leitores conheçam o tamanho da encrenca em que vivem é a ordem instaurada pela publicação num primeira estágio de grandes transformações sociais.
PIB cadente antecipado
A manchetíssima sobre a projeção do PIB de 2014, cujos números só serão revelados pelo IBGE no final do ano que vem, num trabalho de fôlego do Observatório Econômico da Universidade Metodista de São Paulo, resume o tom com que este Diário passou ao dialogar com os leitores. Não se trata de uma exceção de bondade pensadamente voltada a enganar o público. É uma toada consistente sobre a qual os leitores devem estar atentos. O jornal bonzinho que os improdutivos incentivavam está virando um jornal incisivo.
Que o diga a Administração de Carlos Grana, em Santo André. A manchetíssima da edição de quarta-feira (“Secretário faz festa no 2º andar de hospital; no térreo, população sofre”) é uma combinação de oportunidade e competência. A reportagem de Vanessa de Oliveira teve o tamanho e a objetividade ideais. Mostrou a indiferença de servidores públicos e convidados. Contra esse batom na cueca não há argumento.
Aos poucos este Diário também abre espaços a matérias mais reflexivas ao introduzir um modelo de abordagem que os leitores mais exigentes cobram. Por mais que este veículo impresso regional diário não sofra a concorrência frenética de outras plataformas de informações locais, o tratamento editorial não deve se fixar exclusivamente no factual. Contextualizar a notícia no devido espaço é uma forma de agregar valor ao produto.
Vera Cruz valorizada
Caso do texto complementar de Evaldo Novelini sobre os dias de glórias e de escuridão da companhia Cinematográfica Vera Cruz. Um texto de encaixe perfeito à matéria assinada por Miriam Gimenez que deu conta do cancelamento da assinatura do contrato de concessão do espaço para uma empresa paulistana. Ainda falta explicar o que se passou nos bastidores. Quando do outro lado a informação depende da gestão de Luiz Marinho, tudo é sempre mais complicado, mas também desafiador. De qualquer maneira, se houve frustração com a notícia, os leitores deste Diário tiveram a oportunidade de consumir reportagem muito bem elaborada. Um toque de classe no geralmente fastfoodiano dia a dia dos impressos.
A manchetíssima de terça-feira (“Crise faz Caixa reduzir para 50% teto de financiamento imobiliário”) mostrou que um assunto aparentemente sem conotação de regionalidade, mantra da publicação, cai muito bem no espaço nobre. Ou seja: determinadas temáticas de cunho nacional devem mesmo, na concorrência pelo espaço de manchetíssima regional, ganhar um lugar no pódio. E olhem que a disputa pela manchetíssima daquela terça-feira era forte, porque o Diário publicou em primeira mão os novos dados sobre o índice de potencial de consumo da região no mapa nacional. Mantivemos o quinto lugar, mas seguimos perdendo fatia num bolo no qual já fomos terceiros colocados com certa folga.
Maurício contraditório
Parafraseando Roberto Carlos, foram tantas as emoções provocadas além das manchetíssimas do Diário que o espaço é curtíssimo ao reconhecimento público que a Redação como um todo e o diretor de Redação, Sérgio Vieira, em particular, merecem. A entrevista com o ex-prefeito Maurício Soares, sempre contraditório, e os dias seguintes de repercussão de suas declarações, dão mostras de que o Diário está procurando cercar a boiada da simplificação da pauta, muitas vezes responsável pela morte prematura de novas informações.
A matéria sobre o que estaria por baixo dos panos do Água Santa, time vencedor de Diadema que no ano que vem vai enfrentar os grandes da Capital na Série A do Campeonato Paulista, expôs sutilmente uma coragem que nenhuma outra publicação exercitou até agora. Mais que as declarações do principal entrevistado, as entrelinhas das respostas parecem ter esclarecido os laços econômicos que envolvem um time tão competente.
*Matéria originalmernte publicada no Diário do Grande ABC
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)