A trimanchetíssima da edição de sexta-feira salvou uma semana (que começa na sexta-feira e termina na sexta-feira seguinte) de oscilações editoriais deste Diário. É natural que haja solavancos mesmo com uma equipe motivada. Jornalismo é atividade que exaure o emocional e o psíquico. Principalmente num jornal regional tradicionalmente sob pressão de forças estranhas à Redação. Ao incorporar a pior captação da caderneta de poupança desde 1995, o recuo da produção de veículos ao índice de 2007 e o maior saldo de desemprego desde 2011, a manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) virou trimanchetíssima. O neologismo do neologismo resume um golpe certeiro e deve ter atingido em cheio o apetite dos leitores.
Nada melhor para atenuar mais uma vez uma abordagem imprecisa sobre o custo das apólices de seguros de veículos na região, temática levada à manchetíssima de domingo passado sob o título “Seguradoras ignoraram queda de roubos e furtos de veículos no Grande ABC e preço dispara”. É a segunda vez nos últimos tempos que este Diário insiste em tentar provar que somos discriminados pelas companhias de seguros. E pela segunda vez falhou nessa importante empreitada. A reportagem não atinge o que deveria ser um foco inquestionável: desde que há mais de 10 anos os índices de furtos e roubos de veículos desabaram no Estado de São Paulo, inclusive na região, qual é a correlação com a efetiva redução de preços das apólices? Este Diário insiste no que os economistas mais esnobes chamam de curtoprazismo, que pode ser traduzido como oscilações sazonais.
Verdades convexas
Há duas verdades convexas que deveriam direcionar abordagem ampla sobre o custo adicional automotivo de viver nesta região. Primeiro, pagamos mais caro que a quase totalidade das regiões do Estado. Segundo: temos de efetivamente pagar porque lideramos as estatísticas de registros. Até que ponto pagamos a mais do que deveríamos, estabelecendo comparativos geográficos sintonizados com a cronologia do rebaixamento de registros? Essa é a resposta que o jornal está devendo. E a resposta, a bem da verdade, é complexa. Ao tomar o atalho do facilitarismo da informação, o jornal derrapa.
Máfia do Semasa
Também deixou a desejar a cobertura deste Diário aos novos desdobramentos da Máfia do Semasa. A conclusão do inquérito do Ministério Público é uma ofensa à lógica da literatura policial, contra a qual o jornal não moveu uma palha de interpretação, sujeitando-se a repassar declarações do promotor criminal Roberto Wider Filho. A denúncia de que apenas o então prefeito Aidan Ravin e seu entorno político-administrativo participaram das malandragens é demais para quem sabe que mercadores imobiliários deitaram e rolaram e que, somente por isso, aceitaram pagar propinas que o MP chamou de achaque.
A certeza de que o processo de consolidação da linha editorial deste Diário possibilitará que casos como esses fujam de formato exclusivamente declaratório, entregando-se a rapadura da avaliação aos próprios protagonistas, ainda se dará no médio prazo. Quem acha que jornalismo é ferramenta para lustrar o ego dos declarantes está redondamente enganado. O caso da Máfia do Semasa virou espécie de anticlímax nas páginas do jornal, contrariando a ênfase que marcou a cobertura ao longo do tempo.
Marinho empacado
A Administração Luiz Marinho recheadíssima de tropeços virou manchetíssima na edição de segunda-feira com o título “Governo Dilma culpa Marinho por atraso no piscinão do Paço”. Ainda falta muito a escrever sobre o distanciamento entre cronograma oficial e efetivação de obras. Principalmente sobre as estripulias da OAS, uma das empreiteiras engolfadas pelo Petrolão, dona da conta de grande parte das propostas de obras de Luiz Marinho.
O antagonismo entre petistas, explícito na manchetíssima, não deixa dúvidas de que não é somente a presidente Dilma Rousseff que anda a catar cavaco na tentativa de reequilibrar-se como mandatária do País. Marinho também está perdido em meio ao fogaréu dos rescaldos da roubalheira na Petrobras. Quem viu malícia na foto da página interna, com Dilma e Marinho coladíssimos um ao outro, precisa parar de pensar bobagens. Mas que eles estavam grudadíssimos com ares de sensualidade, não há dúvidas. Uma bela sacada da fotógrafa Marina Brandão.
Índice a ser questionado
A matéria que abriu a página 10 de Economia na edição de quinta-feira (“Preços de imóveis perdem da inflação”), fia-se mais uma vez nos dados do índice Fipe-Zap, desenvolvido pela Fundação Instituto de Pesquisa Econômica. Este Diário segue a manada nacional de não antepor ressalvas às estatísticas que envolvem algumas cidades da região no mapa nacional da pesquisa. Esse incensado indicador carrega forte conotação de marketing de sustentação. Os valores referenciais são de imóveis anunciados na Internet, sempre acima da realidade. Além disso, há fragilidades informativas ditadas pelo lobby do setor, que tem o Secovi como mestre-sala em São Paulo e o Clube dos Especuladores Imobiliários do Grande ABC como porta-bandeira.
Total de 1971 matérias | Página 1
20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)