O jornalista Anderson Amaral, do Diário Regional, mostrou nesta semana que existem duas (ou mais) opções quando um profissional de comunicação se lança a escrever determinada matéria: pensar nos leitores com a seriedade que a função exige, mesmo que a decisão estrague o dia desse mesmo leitor, ou pensar em engabelar os leitores menos atentos, adotando política que chamaria de romeriana, em referência ao herói-vilão da novela das nove e trinta da Rede Globo.
Anderson Amaral fez o que manda o manual de bom jornalismo. Tratou a notícia, sobre o nível de inadimplência dos consumidores da região, com o devido respeito aos leitores. Isso é muito bom.
Se quisesse manipular os fatos e a realidade – infelizmente algo mais corriqueiro do que se imagina no jornalismo brasileiro, premido por fontes de pressão em diversas áreas – o jornalista do Diário Regional poderia transformar a manchete “Crise e aperto no crédito reduzem calote no ABC, mas pagamento de dívidas antiga cai”, em algo mais ou menos com o seguinte enunciado: “Nem crise econômica atinge região que consegue reduzir inadimplência dos consumidores”.
O que separa a notícia com responsabilidade social da notícia vadia é a contextualização. Anderson Amaral não caiu na esparrela dos triunfalistas e produziu um texto enxuto, qualificado e contundente. Vejam alguns trechos:
A desaceleração da atividade econômica e a maior cautela tanto de consumidores quanto de bancos e instituições financeiras na concessão de crédito têm ajudado a evitar o avanço da inadimplência no ABC, a despeito da crise que assola mais intensamente os sete municípios. Prova disso é que o número de negativações – ou seja, de novos registros de dívidas vencidas e não pagas – caiu 0,2% em agosto no ABC em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo levantamento divulgado ontem (23) pela Boa Vista Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC). Além disso, de janeiro a agosto houve queda de 1,7% no número de exclusões contra o mesmo período de 2014. Para a Boa Vista SCPC, mesmo com deterioração, nos últimos meses, de indicadores de renda e emprego, bem como a elevação dos juros e de preços administrados, a maior seletividade na concessão de crédito tem prevalecido sobre os demais fatores macroeconômicos e contribuído para que não se observe aumento substancial no “calote” das famílias da região. O dado poderia ser comemorado caso fosse acompanhado de exclusão de registros, pelas empresas credoras, mas não é o que ocorre. Segundo a Boa Vista SCPC, o número de consumidores que limparam seu nome recuou 3,3% no ABC em agosto na comparação com o mesmo mês de 2014. No acumulado janeiro-agosto houve queda de 5,6% em relação ao mesmo período do ano passado. “O ritmo de inclusão de novas dívidas está menor, mas o pagamento de dívidas vencidas também diminuiu. Com a crise, consumidor está comprando menos e se endividando menos. Assim, a inadimplência tende a cair”, afirmou o economista Flávio Calife, da Boa Vista SCPC. Ou seja, ao mesmo tempo em que está inseguro ou impossibilitado de contrair dívidas, o consumidor tem preferido honrar os débitos atuais e adiado os atrasados – escreveu Anderson Amaral.
Saúde da informação
Sei lá se o leitor que me segue fez uma pergunta básica: o que tenho a ver com isso? Ora, bolas, tem tudo a ver porque a preservação da saúde da informação, qualquer que seja a informação, é fundamental à cidadania. O consumo de publicações mequetrefes que se deixam guiar por interesses difusos ou claramente manobreiros faz tremendo mal à formação de opinião.
Vou mais longe: o jornalismo que se pratica nesta revista digital -- assim como nas matérias de fundo da revista LivreMercado que comandei por duas décadas -- necessariamente vai além da informação rasa, superficial, ou mesmo do jornalismo mais denso, mas que não infiltra no terreno da reflexão. Não tem sentido escrever sem emitir juízo de valor, como estou a fazer neste artigo. Simplesmente expor, para julgamento dos leitores, sem interferir na interpretação, é algo como chupar bala com embalagem. Para não fazer outra comparação menos tecnicamente educada.
O texto publicado no Diário Regional vai além da informação superficial, embora pudesse avançar ainda mais o sinal da interpretação. Mas o que Anderson Amaral produziu foi sutilmente claro, com intervenções que contextualizam aqueles dados estatísticos à realidade regional, sobretudo quando diz que “a crise assola mais intensamente os sete municípios”. É esse jornalismo que os jornais têm obrigação de apresentar aos leitores em volume suficiente para compor dupla arrasadora com textos mais articulados.
Quem publica no dia seguinte informações que as mídias digitais e eletrônicas já propagaram no dia anterior certamente ainda não acordou para a realidade das mudanças que chegaram faz muito tempo e cada vez mais vão apertar o cerco contra o jornalismo fastfoodiano.
Protagonismo informativo
Apenas para refrescar a cabecinha dos leitores eventualmente mais resistentes a entender o que se passa no mundo das comunicações, transplanto para esta revista digital alguns parágrafos da abordagem que fiz recentemente na coluna Contexto ABC, que assinava aos domingos no Diário do Grande ABC, e que tratava das trilhas daquela publicação. Leiam:
Quem acredita que jornais impressos estão com munição esgotada nestes tempos de plataformas digitais, especialmente de redes sociais, precisa relativizar epitáfios. Ao debelar incêndio de insensatez dos legisladores de Diadema, que pretendiam autoconcederem 49% de reajuste salarial, este Diário mostrou do que é capaz se não abrir mão de um editorial incisivo, persistente, incômodo e até mesmo novelesco. Contando com o suporte da versão online e tendo o providencial respaldo, no campo de luta em Diadema de forças vivas da comunidade, este Diário ajudou a acabar com a farra de uma maioria encabrestada pelo Executivo e de uma minoria sempre disposta a arrumar brechinha para se locupletar -- como é a tradição dos legislativos desta Pátria. Foi uma combinação perfeita. Deveria servir de referência a novas jornadas dinamitadoras de escândalos. Já imaginaram se houvesse tido
Nova postura
Nossos jornais precisam assumir mais e frequentemente posição que extrapole os limites convencionais de noticiarem o que terceiros propagam nem sempre com isenção. A notícia do Diário Regional é o beabá do jornalismo competente o suficiente para que prepare novos saltos, agora em direção a um protagonismo que não pode ser terceirizado às forças de pressão geralmente disposta a manter tudo como está se o que está satisfaz grupelhos de sempre.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)