Imprensa

Perdemos mais ricos e mais
classe média? Vamos ver

DANIEL LIMA - 16/03/2016

Mais alguns pares de dias e teremos o que sempre temos aos leitores, faça chuva ou faça sol, entra ano, sai ano: um balanço completo do potencial de consumo dos municípios da região (e também de outras geografias) preparado pela única empresa brasileira especializada no assunto, a Consultoria IPC Marketing, comandada por Marcos Pazzini.

A pergunta que faço no título deste artigo é tão provocativa quanto instigante. E não tem absolutamente nada de depreciativa à região. Trata-se simplesmente do andar da carruagem econômica, agora relativo à temporada de 2016.

Quantas famílias de classe rica e também de classe média convencional, não a classe média inventada por Lula da Silva, perdemos neste ano, segundo as projeções da IPC? Aposto que não foram poucas. 

Em maio do ano passado atualizamos o estoque de informações que organizamos há praticamente duas décadas sobre esse indicador mais valioso que o próprio PIB (Produto Interno Bruto), embora uma coisa não possa ser separada da outra.

Mostramos que em média o potencial de consumo de ricos e da classe média da região avançou em termos nominais (sem considerar a inflação) 382,49% entre 1995 e 2015; ou seja, logo após a implantação do Plano Real. A inflação do período foi de 257,27%. A média de crescimento nacional no mesmo espaço de tempo foi de 695,31%.

Capital regional sofre

Os dados de São Bernardo, Capital Econômica da região, foram mais inquietantes ainda. Registrou crescimento nominal de 277,13%. O crescimento médio anual de São Bernardo entre 1995 e 2015 não passou de 0,45% em termos reais, considerada a inflação do período, contra 2,75% de crescimento nacional ao ano.

Escrevemos há quase um ano que a Província do Grande ABC tem número menor de famílias da classe rica em relação ao passado e ”provavelmente terá menos ainda no futuro”. Também escrevemos que não é somente entre as famílias de classe rica que a região vem perdendo força. Sofremos um bocado também na classe média.

Vamos rememorar alguns dos melhores (ou piores?) trechos daquelas matérias para elevar a expectativa do que vem por aí e que deveria ser temática obrigatória do cursinho de regionalismo que todo agente público e privado participaria para não ser pego no contrapé da desinformação ou do triunfalismo vadio.

Primeiro, tratemos do último balanço sobre a classe rica na Província do Grande ABC. A desindustrialização combinada com o inchaço das periferias ajuda a explicar o desastre que tem nome, sobrenome e qualificativo: mobilidade social em processo de desaquecimento contínuo.

A proporção de famílias ricas na Província é de três para cada grupo de 100 residências. Superamos poucos municípios que formam o G-22, o grupo dos 20 maiores endereços econômicos do Estado de São Paulo, no qual a região tem cinco representantes, acrescidos de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

Apenas 3% de Ricos

No balanço do ano passado sobre as famílias ricas de Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, apenas 3% do total de moradias se enquadravam nos critérios mais que científicos da Consultoria IPC. Do total de R$ 65,2 bilhões que seriam consumidos no ano passado na região, R$ 8,5 bilhões constavam da carteira de 27.393 famílias de classe rica.

Registramos no ano passado que apenas cinco dos 15 municípios do Estado de São Paulo que integram o G-22 contavam com médias inferiores de participação de famílias de classe rica em relação à Província. Também anotamos que os sete municípios da região apresentavam proporção de famílias ricas superior à média brasileira, de 3,0% contra 2,7%, e praticamente igual à do Estado de São Paulo, que registrou 2,9% de residências nessas condições socioeconômicas.

Quando o confronto era com a Capital do Estado a desvantagem se tornara grande. A cidade de São Paulo contava no ano passado com médio superior de ricos: eram 4,2% de cada grupo de 100 residências. Um total de 170.693 famílias de classe mais alta.

Quando os números remetiam a comparações com regiões de Estados brasileiros, a Província só derrotava mesmo o Nordeste, com 1,1% de ricos, resultado semelhante ao de Rio Grande da Serra, e o Norte, com 1,5% de incidência de ricos no conjunto da população – média superior ao resultado de Diadema e de Mauá.

Insisto na pergunta: será que cairemos mais uma vez pelas tabelas quando saírem os dados sobre os ricos da região do forno da Consultoria IPC?

E a classe média? 

E os números da classe média convencional, como estarão. No ano passado, também em maio, mostramos que a média de domicílio dessa categoria socioeconômica era de 29,6%. Um pouco abaixo da média do Sudeste, de 29,7%, e acima da média nacional, de 23,1%. Também estava acima da média do Sul do País, de 27,6%, do Nordeste, de 12,3%, do Centro/Oeste, de 26,0% e do Norte, de 13,7%. Recordamos que no passado, antes da desindustrialização, a região ganhava de lavada de todos os adversários territoriais. E que a tendência é de contínua redução da diferença.

Como na classe rica, também na classe média a situação dos sete municípios da região no G-22, em potencial de consumo, não se apresentava confortável no ano passado. Apenas quatro dos 15 municípios contavam com participação relativa inferior a dos sete municípios locais – todas da Região Metropolitana de São Paulo.

O estudo da Consultoria IPC do ano passado informava que do conjunto de 899.814 residências, a Província do Grande ABC contava com 266.573 unidades classificadas economicamente como classe média. A previsão de consumo no ano passado chegava a R$ 32,7 bilhões do total geral de R$ 65,2 bilhões. 

Temos acompanhado atentamente o movimento das pedras do potencial de consumo, como já dissemos, mas os dados desta temporada são especificamente mais preocupantes, por causa da crise econômica. Convém lembrar, entretanto, que, ao contrário do PIB de solavancos permanentes, o potencial de consumo é espécie de transatlântico que precisa ser cuidadosamente avaliado. Não há remelexos significativos dos números em períodos curtos. Vale a linha do tempo e a linha do tempo tem sido drástica com a região. Estamos cada vez mais próximos do perfil médio nacional, o que é um péssimo negócio para quem se orgulhava, há 20 anos, de ser um território completamente distinto do restante médio do País.



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