Economia

Cara e coroa da
moeda salarial

ANDRE MARCEL DE LIMA - 10/10/2005

Tão sucinta quanto potencialmente explosiva, nota divulgada pela General Motors reaviva questão eternamente essencial para a sustentabilidade da indústria automobilística do Grande ABC: a relação direta entre salários crescentes e competitividade minguante. A montadora afirma que aplicou reajuste médio de 1,4% nos preços da maior parte dos veículos por conta de repasse parcial do impacto causado pelo recente acordo coletivo de trabalho, além da pressão exercida pelos preços dos insumos. Para bom entendedor, significa que os veículos tiveram preços remarcados para compensar mais um capítulo de inchaço histórico nos custos trabalhista. 


Não só a GM, mas todas as montadoras do Grande ABC acabam de conceder aumento salarial de 9% aos metalúrgicos. Deste percentual, 5,3% são reposição de perdas pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) e 3,7% correspondem a aumento real, isto é, acima da inflação. 


É claro que, do ponto de vista dos trabalhadores, o ganho monetário sinaliza conquista e tanto. Mais da metade da força de trabalho brasileira atua na informalidade e, dos que têm carteira assinada, apenas categorias mais organizadas e combativas conseguem obter reajustes que superam a inflação. Além disso, recursos extras no bolso contribuem para lubrificar comércio e serviços. 


De acordo com cálculos do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos) do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC filiado à CUT (Central Única dos Trabalhadores), o aumento conquistado pelos mais de 40 mil metalúrgicos das montadoras do Grande ABC deve se refletir na injeção de R$ 166 milhões na economia regional nos próximos 12 meses. 


Dor de cabeça


O outro lado da moeda é que conquistas de uns são inexoravelmente assimilados por outros. No caso, os consumidores brasileiros de veículos, conforme apontou a GM. A nota da montadora sediada em São Caetano não surpreende pelo conteúdo, mas chama atenção pela ousadia da divulgação. Com exceção da GM, nenhuma outra montadora se pronunciou oficialmente sobre o assunto porque confronto aberto com representações sindicais pode significar dores de cabeça. “Ninguém quer se indispor publicamente” — resume porta-voz de uma das montadoras, que se mantém no anonimato.


O grande argumento utilizado pelos sindicalistas para justificar aumento acima da inflação é o crescimento da produção automotiva a bordo das exportações. Neste ano o Brasil deve produzir 2,4 milhões de veículos, novo recorde histórico sobre o ápice de 2,2 milhões atingido no ano passado. 


O problema, apontam representantes das montadoras, é que a capacidade instalada para 3,2 milhões de unidades apresenta buraco de ociosidade, já que o mercado interno cresce muito aquém das expectativas que nortearam investimentos em novas fábricas a partir de 1995. E as vendas externas têm rentabilidade comprometida pela valorização do real. Por isso, a maioria das montadoras ainda amarga prejuízos no Brasil. No caso específico da GM, o último balanço financeiro positivo foi registrado em 1997, de acordo com o diretor de Assuntos Institucionais, Luiz Moan. 


No setor de caminhões, em que o Grande ABC reina absoluto com mais de 60% da produção nacional, o impacto do reajuste salarial é menor porque o peso dos custos trabalhistas é diluído em produtos de maior valor agregado. Já no segmento de automóveis e comerciais leves, despesas trabalhistas incidem com mais força. Por isso, os produtos de menor valor agregado seguem em rota de descentralização para outras regiões brasileiras. 


O mesmo reajuste aplicado no Grande ABC e em outras praças tem impacto diferente, porque o salário médio dos metalúrgicos das montadoras na região se situa muito acima da média do País.


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