Não me perguntem como a tecnologia adotada pela administradora deste site chega aos dados que detectam as matérias de maiores audiências. Juro que vou procurar entender esse negócio que tem tudo a ver com algoritmos, claro. Mas não quero me perder em tecnicalidades. Sempre preferi Humanas às Exatas. Mal sabia, entretanto, que, como jornalista, teria de mergulhar em estudos para compreender a dinâmica da economia, que faz girar a roda da vida.
As três matérias mais lidas de março, segundo consta da primeira página desta revista digital, são emblemáticas da sensibilidade social dos leitores.
Fico muito feliz que o texto do jornalista André Marcel de Lima esteja entre as três. “Conhecimento globalizado beneficia países mais pobres” é um ensaio com fundamentação econômica e social que desmonta velharias articuladas por extremistas à direita e à esquerda que querem um mundo compartimentado, esquadrinhado e amarrado de acordo com interesses específicos nada solidários.
As outras matérias mais lidas tratam do mercado imobiliário e da atuação do prefeito paulistano João Doria. Nada mais lógico, convenhamos.
Compromisso de vida
Sobre o mercado imobiliário, os leitores estão cansados de saber que é um dos temários preferenciais de CapitalSocial. E não poderia ser diferente, dada a interferência direta da atividade no conjunto da sociedade. Um exemplo: a compra de uma moradia gera compromisso familiar de duas a três décadas com o sistema financeiro sempre implacável.
Minha pregação frequente de que o setor requer muito mais atenção das autoridades constituídas ainda haverá de frutificar, embora não faltem informações de que alguns dos novos prefeitos da Província do Grande ABC articulam-se nos bastidores sempre fétidos para fazer dos respectivos territórios mais especulação do que seria suportável.
Nada distinto, inclusive, do que se planeja em São Paulo, onde João Doria faz jogo de cena com penduricalhos sociais para encobrir as reais intenções de andar de braços dados com mercadores imobiliários.
Fosse este País diferente, tanto o governador do Estado quanto o prefeito de São Paulo recusariam convites ao evento do Secovi, o Sindicato da Habitação de São Paulo, noticiado nesta quarta-feira pelo Estadão, também patrocinador do projeto.
Mas lá estavam Geraldo Alckmin e João Doria a refestelarem-se com a nata do mercado imobiliário paulista enquanto o Ministério Público Estadual e a Controladoria-Geral da Prefeitura de São Paulo penam para dar alguma velocidade às investigações e penalidades envolvendo mercadores imobiliários que, em conjunto com servidores municipais, patrocinaram um dos maiores escândalos do setor, a chamada Máfia do ISS.
Lista de delinquentes
Dezenas de empresas associadas ao Secovi estão na relação dos denunciantes como agentes de corrupção. Há mais de três anos foi revelada uma lista imensa de delinquentes sociais, inclusive com representação da Província do Grande ABC e, de efetivo, para valer, pouco se consumou.
Não pareceria aos leitores que tenha faltado tanto ao governador quanto ao prefeito que tanto fala em novo padrão de comportamento de autoridades públicas alguma coisa que poderia ser chamada de acautelamento crítico, de modo a dispensarem participação naquele evento?
Em pleno terremoto da Lava Jato não fica bem autoridades públicas engrossarem lista de convidados de organizações empresariais cuja larga margem de associados está metida em encrencas. Aliás, mais que comparecerem, no caso de João Doria houve promessa tácita de que a herança de equilíbrio de ocupação e uso do solo em São Paulo deixada pelo então prefeito Fernando Haddad vai ser desfigurada. A choradeira orquestrada não encontra barreiras na sociedade. Nem na Imprensa.
Quem sabe o ambiente paulistano de salve-se quem puder volte aos tempos de Gilberto Kassab, prefeito que mais se lançou às águas turvas de negócios pouco republicanos do mercado imobiliário, conforme denúncia do Ministério Público Estadual.
Os gananciosos mercadores imobiliários querem auferir mais lucros do que seria suportável à qualidade de vida de uma metrópole ensandecida.
Mais pedras no caminho
A Máfia do ISS não é a primeira pedra no caminho ético do Secovi. Anteriormente, o MP de São Paulo denunciou a entidade por algo como caixa dois enviesado de campanha eleitoral, ao dar cobertura a uma entidade fantasma que repassou dinheiro grosso a vereadores eleitos e não eleitos na Capital, além do próprio candidato eleito, Gilberto Kassab.
A interferência de mercadores imobiliários no jogo democrático, sobretudo nas eleições, é fator de privilégios e discriminações, com repercussões que se conhecem quando os vencedores passam a contar com o poder milagroso de mandos e desmandos oficiais.
As empreiteiras de obras públicas laçadas pela Lava Jato são os primos ricos do jogo de corrupção eleitoral. O mercado imobiliário, primo de classe média, deverá ganhar relevância após os estragos federais. Uma Operação Andaime em circuito nacional, começando nas grandes capitais e se espalhando pela vizinhança metropolitana, contribuiria também para reduzir a carga de contaminação do poder de dinheiro sujo nas eleições em geral.
Quanto à gestão de João Doria, que rende audiência porque temos na praça uma estrela de primeira grandeza em marketing com alguma coisa de praticidade no campo resolutivo de problemas populares, não vou despregar os olhos dos jornais paulistanos.
Treze anos de parcerias
A Folha de S. Paulo não dá folga ao tucano. Está certíssima. De minha parte, escaldado após longas jornadas de credulidade, faço uma pergunta ao staff do prefeito paulistano, após receber um vídeo de aplicativo de celular com o desempenho dele num encontro com empresários ao se referir aos 13 anos “de roubalheiras” do Partido dos Trabalhadores.
Que pergunta? Durante esse mesmo período em que agora excomunga os petistas, João Doria estava exatamente onde? Ora, fazia dinheiro, muito dinheiro, porque é realmente trabalhador, com uma empresa de lobby implícito que juntava ministros, secretários de Estado e empresários das mais diferentes áreas.
João Doria aproximava-os para simplesmente tomarem um bom vinho e curtirem um almoço dos deuses? Quando se juntam empresários sedentos de negócios e políticos bem posicionados nas esferas públicas, há mais que caviar e bebida a atraí-los. Ou seja: o prefeito João Doria sagrou-se campeão na arte de reunir autoridades públicas e empresários com finalidades que ultrapassam a linha de fundo.
Onde estava o então empreendedor dos empreendedores durante os 13 anos do governo petista? Cadê as provas provadas de que dissera no passado o que diz no presente? Quantos dos petistas e aliados dos governos petistas não fizeram dos eventos da Lide, a empresa de Doria, desfile de ideais supostamente nada republicanos, levando-se em conta a Operação Lava Jato?
Basta uma consulta ao Google e as respostas afloram. Seria João Doria o bobo da corte de aproximações supostamente ingênuas? Ou é mais provável que, considerando-se o histórico das relações entre capital e Estado, principalmente representado por forças políticas bem postadas, o agora prefeito de São Paulo desconhecia o que se passava por debaixo dos panos?
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10/04/2026 ARCA DE NOÉ CONTRA O GATABORRALHEIRISMO (3)