Regionalidade

Chamem as montadoras para
amenizar a insolvência regional

DANIEL LIMA - 08/05/2018

Existe um antídoto político-institucional que amenizaria a insolvência da Província do Grande ABC: que os incompetentes públicos e também a crosta de supostas lideranças econômicas e sindicais se organizem sem personalismo e chamem as montadoras de veículos locais para contribuir com melhores dias, independentemente do balanço do navio da macroeconomia. 

Sim, estou me referindo às montadoras de veículos que cansam de ganhar dinheiro com o protecionismo federal (quando não municipal e estadual), mecanismo responsável por profundas e até agora insanáveis distorções no ecossistema econômico e social da região. 

Sim, as montadoras que incubaram em nossas entranhas tanto a Síndrome de Estocolmo como a Doença Holandesa. A primeira enfermidade econômica nos faz adorá-las em situação de sequestro e a segunda em forma de dependência. Decorre daí um gataborralheirismo midiático muito próximo do provincianismo. 

Morando complicadíssimo 

Prefeito dos prefeitos da região, porque presidente do Clube dos Prefeitos, o tucano Orlando Morando possivelmente encontraria dificuldades para uma operação que exige a integração dos demais titulares dos paços municipais – ou seja, despertar nos comandos das montadoras sediadas na região um compromisso de participação ativa, estratégica, de recuperação da economia local. 

O risco é que Orlando Morando pode usar essa ideia para interesse municipalista, porque tem sido assim ao longo do um ano e meio de mandato. Ainda outro dia praticou guerra fiscal descarada ao deslocar a São Bernardo uma indústria sediada em Diadema.  E vem se dedicando a outras estocadas na vizinhança. 

É preciso retirar as montadoras de veículos e também a rede de sistemistas da posição convencional e confortável de tocar a banda dos negócios sem se importar com o entorno em completo desarranjo. 

Está a nos faltar um Celso Daniel para liderar uma empreitada de aproximação que presumivelmente nos retiraria tanto da fraude do encantamento quanto do cárcere social e econômico que aquelas enfermidades cristalizaram. 

Aparente contradição 

Poderia com algum tempo delinear série de medidas que montadoras e lideranças políticas e econômicas da região desenvolveriam em conjunto tendo como máxima de atuação um plano estratégico que -- vejam só que contradição fantástica -- permitiria que, num futuro não muito distante, esta Província não sofresse tanto por depender justamente do setor automotivo. 

Alguém consegue entender até onde pretendo chegar ao dizer que a melhor maneira de reduzir a carga de ônus econômicos e sociais das atividades automotivas na região é contar justamente com o suporte estratégico de estudos contratados pelo próprio setor automotivo? 

Pois é disso que se trata esse artigo. Pela primeira vez faço essa abordagem. Uma abordagem só aparentemente contraditória. Uma abordagem que seduziria lideranças das cinco montadoras de veículos instaladas na região desde que a ação seja profissional, calcada em dados sólidos e em perspectivas que se apresentam cada vez mais intranquilizadoras. 

Duvido que, por mais que sejam mercantilistas, usufruindo há décadas de vantagens proporcionadas pelo lobbismo nas esferas mais altas da Federação, as montadoras locais não se sensibilizariam com a demanda sugerida. 

Saindo da mesmice 

Tudo seria uma questão de criar ambiente diferenciado que saísse da mesmice bizarra de editoriais ufanistas de jornais locais que alçam as atividades automobilísticas a uma condição de intocabilidade e de glorificação sem restrições. 

O grande obstáculo à consagração dessa empreitada não está em eventual desprezo das montadoras às inquietudes econômicas e sociais da região. Longe disso. O que nos torna céticos à efetivação dessa proposta são os representantes políticos e econômicos, recheadíssimos de incompetências e vieses. 

Estamos vivendo o período mais caótico em termos de regionalidade. Se houvesse como desafio escolher um rosto para definir o momento por que passamos, como tradução da desagregação institucional, não teria dúvidas em esculpir uma imagem que identificaria Orlando Morando, prefeitos dos prefeitos. 

O titular do Paço de São Bernardo está liquidando com a regionalidade formal do Clube dos Prefeitos. A politização disparatosa da instituição, algo jamais visto em quase três décadas de atividades, é a raiz mais profunda a combater. Entretanto, como é protegido por alguns jornais, Orlando Morando e suas travessuras não são analisados com a responsabilidade que a regionalidade exige.  

Mais deserções à vista 

Do jeito que a banda está tocando, antes que o fim do ano chegue é possível que mais deserções oficiais ou oficiosas se cristalizem no Clube dos Prefeitos. Diadema já saiu oficialmente, São Caetano está saindo de fininho, Rio Grande da Serra vai na mesma toada e Mauá se aproxima da reta final de uma decisão igualmente separatista. 

Já se fala inclusive na criação de uma nova entidade regional reunindo prefeitos dissidentes. Uma solução manquitola porque igualmente partidarizada e politizada. 

Justamente no período mais complexo da economia regional, o Clube dos Prefeitos entra em parafuso sobretudo porque falta flexibilidade gerencial ao atual titular, um político personalista demais para ações coletivas. Mais que isso: um político recalcitrante, cuja meta explícita é liquidar com o legado que vem dos anos 1990. Um legado que, mesmo aquém do necessário, sempre se oferece como perspectiva de mudanças. 

Ficar sem o Clube dos Prefeitos imperfeito é algo como matar-se porque uma perna se foi num acidente. A imagem é forte, talvez até de mau gosto, mas é o melhor para chocar quem ainda não se deu conta das besteiras relacionais do prefeito dos prefeitos. 

Tábua de salvação 

Teoricamente, ninguém melhor que Orlando Morando para administrar uma proposta de aproximação coletiva da região com os representantes locais das montadoras de veículos. Afinal, o tucano dirige a Capital Econômica da região, endereço de quatro das cinco fábricas do setor neste território. 

O antecessor Luiz Marinho contava com mais condimentos institucionais para essa empreitada somente agora sugerida. Afinal, além de prefeito vinha do campo sindicalista tão ligadíssimo às fabricantes de veículos. Entretanto, mesmo sem gozar das condições do antecessor, Orlando Morando teria de sobra meios de estabelecer ligação frondosa na área. 

Lamentavelmente, o desgaste político e administrativo no Clube dos Prefeitos coloca Orlando Morando em evidente desconforto para adotar essa sugestão. Mas não o impede, entretanto, de um cavalo de pau no sentido de tentar recuperar o tempo perdido para salvar-se de um posicionamento deplorável no ranking de ineficiência do Clube dos Prefeitos – o de ter sido ao longo da história o pior prefeito dos prefeitos da região. 



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