Desde 11 de maio de 2011 (portanto há mais de sete anos) estou confirmando uma sentença que formulei em resposta ao título de um artigo que publiquei nesta revista digital. “Quer ser acionista de CapitalSocial? Então se prepare para as cláusulas” – foi a indagação que fiz. Estava tão certo em ser cético (alguns chamam ceticismo fundamentado, consolidado, com base em situações que assim o determinam, de ave de mau agouro) que o resultado foi o esperado. Não apareceu ninguém disposto a investir de forma a que CapitalSocial se torne também uma publicação impressa. E nem vai aparecer. Conheço o gado dos endinheirados da região. Um gado que só quer levar vantagem ou, no mínimo, não se comprometer.
Fosse um desses endinheirados, tendo a cabeça dos endinheirados provincianos, não teria agido diferente. Ou seja: não daria bola à pergunta que formulei. Até porque a pergunta daquele título não apareceu do nada.
A pergunta daquele texto era a âncora de um texto em que várias condicionantes de ordem social, política e econômica se colocaram para que o negócio fosse pautado por um conjunto de atributos de cidadania corporativa.
Condicionalidades inibitórias
O que pretendo para CapitalSocial impresso é o que CapitalSocial já reúne como produto digital. Já reúne é força de expressão, que pode dar a ideia de que tenha somente agora. Desde sempre conta com os atributos que elenquei para impedir que aventureiros se juntassem a esse projeto.
Vejam os leitores quais foram as condições que impus e que continuo a impor para aceitar acionistas dispostos a constar da relação de responsáveis por esta publicação:
Aspectos sociais
1. Olhar permanente aos desvalidos, principalmente agentes sociais que atuam nas periferias do Grande ABC. As chamadas Madres Terezas e Freis Galvão.
2. Desprezo absoluto ao colunismo social de celebridades, uma fonte eterna de badulaques egocêntricos.
3. Construção de biografias de gente que faz o Grande ABC principalmente longe das manchetes sempre seletivas, protecionistas e compensatórias.
4. Tratamento responsável à infraestrutura social do Grande ABC.
5. Produção de reportagens e análises que desvendem e ajudem a solucionar problemas crônicos da sociedade.
Aspectos econômicos
1. Desbaratamento completo de falsas mensagens que procuram vender a economia do Grande ABC pela ótica do triunfalismo.
2. Comedimento e equilíbrio nas questões que envolvem capital e trabalho.
3. Desenvolvimento de estudos e análises econômicas que deem suporte a políticas públicas e privadas.
4. Avaliação criteriosa de anúncios de investimentos de forma a não ser levado pela onda de interesses nem sempre claros.
5. Análise crítica de investimentos públicos e suas consequências no tecido social e econômico da região. Sem salvacionismos do tipo trecho sul do Rodoanel.
6. Reconstrução de um processo de coletivismo que tenha nas entidades empresariais e sindicais agentes de modernização das relações com a sociedade como um todo.
Aspectos políticos
1. Menos protagonismo de siglas partidárias e prioridade total a uma agenda que valorize tanto as atividades econômicas quanto sociais e institucionais.
2. Análises eleitorais baseadas em ferramentas estatísticas confiáveis, entre outros elementos.
3. Fuga da rede de intrigas que trabalhe com subjetividades.
4. Enquadramento de informações estatísticas que deem sustentação a análises fora da órbita do governo de plantão.
5. Prioridade total a tudo que se referir à regionalidade do Grande ABC, sem deixar-se cair na rede de grandiloquências que já se provaram frágeis.
Relembrando ceticismo
Para não dizerem o que não disse e, portanto, para confirmarem o que escrevi, eis que reproduzo os primeiros parágrafos daquele texto de mais de sete anos:
Embora não acredite no sucesso da empreitada, porque há condicionantes que afastam a maioria de eventuais investidores, decidi tornar público o resultado de um assédio aqui, outro ali, sobre a possibilidade de transportar CapitalSocial à plataforma de revista impressa. Descrente da possibilidade de reunir um grupo de investidores que tenham a cidadania e a regionalidade do Grande ABC como prioridades, vou em frente nessa proposta mais como descargo de consciência. Ninguém poderá dizer que não teve oportunidade para participar de um projeto já vitorioso. Ninguém poderá dizer também que estou fechado à multiplicação física de uma linha editorial que se consagrou nos 18 anos de LivreMercado, a melhor revista regional que esse País já leu.
Avaliação jornalística
Repararam os leitores que as exigências não são assim nada absurdas? Fosse essa região e o País como um todo o que deveria ser, esse elenco de propostas nem deveria ser produzido, porque é de obviedade estonteante para quem pretende participar de alguma empreitada que tenha relação direta com a qualidade de informações da sociedade. Não passa pela minha cabeça subverter a ordem das coisas, mas hão de convir todos que, nesse caso, subverter a ordem das coisas é exatamente acreditar que alguém terá interesse em ingressar no quadro de acionistas de CapitalSocial tendo como cláusulas pétreas os enunciados que acabei de reproduzir.
Sem querer mas querendo, acabei, com aquele texto de maio de 2011, definindo um projeto básico de avaliação dos produtos jornalísticos. De maneira geral e longe de parecer injusto, não existe na praça nada que passaria pelo crivo desses pressupostos. Gritem à vontade, vendam seus abacaxis da forma que bem entenderem, mas não há nada que supere a série de obstáculos que listamos. Obstáculos para prevaricadores, claro, porque em termos de interesse social aquilo tudo era a porta de entrada para a cidadania informativa.
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