Uma pergunta ao leitor: se estivesse como editor de uma revista, como estou, você levaria para as páginas da publicação, sem o menor critério crítico, eventuais preferências pessoais?
Pense bem antes de responder. Pense bastante.
Vou responder com a revelação de uma conversa que tive ainda outro dia com um amigo, um deputado estadual, desses políticos que trabalham muito, que tem assessoria de qualidade, que lutou bravamente para obter a reeleição, que foi maltratado por apuração investigativa equivocada que acabou não dando em nada, se nada pode ser o sinônimo de juridicamente nulo mas pessoalmente desgastante.
O que disse esse deputado durante um jantar, acompanhado que estava este jornalista e aquele deputado por um amigo em comum?
“Quando você vai me colocar na capa da revista?”
A pergunta foi feita com um sorriso nos lábios, longe de qualquer tom mandonista. Foi mais uma provocação, uma forma de testar meu bom humor, quem sabe. Uma maneira, também quem sabe, de saber até onde vai a flexibilidade editorial deste jornalista.
Respondi-lhe de imediato, num espaço de tempo menor que dois segundos, talvez menor que um segundo, como costumeiramente afirmo ser indispensável para que uma réplica, qualquer réplica, tenha validade:
“Quando aquele projeto que você fez aprovar na Assembléia Legislativa apresentar de fato os resultados dimensionados”.
Omito a identidade do parlamentar bem como sua obra legislativa, de fato importante para a economia da Grande São Paulo, porque não quero perder a oportunidade de editar uma reportagem que envolva aquele assunto.
Talvez não tenha o impacto de resultados projetados quando da aprovação das medidas, mas não tenho dúvidas de que modificações ocorreram por conta daquela iniciativa.
No fundo, no fundo, o que quero dizer com isso é que tenho a obrigação, como jornalista, de tratar os amigos e os inimigos com o mesmo critério de valor. A informação é que deve balizar a função editorial. Em edição recente publiquei uma nota e uma foto de um executivo público da região com o qual não mantenho bom relacionamento por conta de um passado de muita espuma e de pouca obra. Desta feita, porém, ele interveio de forma bastante interessante em favor da regionalidade. Não tive dúvidas em reconhecer.
Infelizmente, de maneira geral, essa não é a prática do jornalismo. A maioria dos donos da mídia, seja qual for a mídia, trata muito melhor os amigos improdutivos, cenaristas, malfeitores, do que os inimigos revolucionários, contundentes na lógica das críticas embasadas em dados estatísticos, em provas de crimes cometidos contra a comunidade.
Fazem-se muitos jornais, revistas, programas de rádio e sites de informação para os amigos do peito, ou amigos dos amigos do peito, do que para eventuais adversários que contribuem para mudanças da sociedade mas não costumam lustrar as botas dos donos da mídia.
Já perdi amigos porque eles acreditavam que fosse possível estabelecer uma rede permanente de relacionamento editorial com base na proximidade. Já surpreendi vários inimigos porque fiz-lhes ver que tenho pelo produto que edito uma profissão de fé muito acima de veleidades pessoais.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)