Ao forçar a barra editorial com política partidária e ideológica, sem contar interesses outros, o Estadão perdeu oportunidade de ouro de conquistar pela razão leitores na cobertura do caso do vôo 3054 da TAM que fez perto de 200 vítimas fatais. Escrevi na edição de ontem que o Estadão pisou no tomate do exagero de vincular o acidente diretamente ao governo Lula da Silva, como subliminarmente ou descaradamente muitos dos políticos de oposição o fizeram (e não seria diferente se o PT estivesse do outro lado do balcão de interesses, é bom que se afirme).
Portanto, o Estadão se juntou à raia miúda e graúda da politicagem despudorada, relegando aos quintos do inferno a isenção que deve perpetuar as linhas impressas de um veículo de comunicação de tanta tradição.
Entretanto, seria ingênuo demais acreditar que o jornalão paulistano tivesse comedimento já que está abusadamente perfilado com as viuvinhas de Fernando Henrique Cardoso, presidente cuja trajetória em oito anos de trapalhadas não deixa saudade alguma para o povo brasileiro, como comprovam todas as pesquisas de opinião.
Vamos a alguns dos fatos que transpõem as críticas ao Estadão do plano retórico para o prático. Acompanhem, por exemplo, trechos do editorial sintomaticamente intitulado “O acidente entre aspas” da edição de 20 de julho, portanto dois dias depois do acidente:
* O ponto focal do esforço das partes interessadas em dissociar a catástrofe da precária segurança oferecida pelo saturado Aeroporto de Congonhas — de que não se cansam de falar, em privado, os pilotos comerciais — é o filme da Aeronáutica que mostra o Airbus se deslocando pela pista cerca de três vezes mais depressa do que outros aparelhos semelhantes (depois de ter tocado o solo no ponto certo e na velocidade ideal). Esse fato faria recair a culpa pelo desastre ou numa falha do equipamento de frenagem do jato, ou numa imperícia do piloto, ou numa combinação das duas coisas. A versão que se deseja propagar é que, não fosse isso, o vôo 3054 completaria normalmente o trajeto em terra e os passageiros desembarcariam sãos e salvos. Ou seja, nenhuma importância teriam tido a chuva, a lâmina de água na pista principal de Congonhas — de meros 1.940 metros — nem tampouco a decisão da Infraero de liberá-la após uma reforma de emergência sem a etapa final da obra, que só poderia ser feita mais adiante — a escavação, no asfalto, dos sulcos que ajudam a escoar a água das chuvas, evitando derrapagens.
Antes de chegar ao ponto crucial deste artigo, repasso aos leitores mais um editorial do Estadão, agora de 21 de julho, sob o título “Uma verdade inconveniente”:
* O espectro que assombra o Planalto é o da comprovação de que o desastre não foi uma fatalidade, ou o que os matemáticos denominam de “evento discreto”, que se contém em si mesmo sem guardar relação alguma com quaisquer outros. É vital para o lulismo que se conclua que o horror da terça-feira e a crise aérea que atormenta o País há 10 meses — por gritante incapacidade do governo para resolvê-la — não têm qualquer relação de causa e efeito. Mas, nesse sentido, há elementos de sobra para se afirmar que as grosseiras expressões mímicas mostradas no Jornal da Globo são, no mínimo, precipitadas. A admissão da TAM de que estava com defeito o reversor de um reator do Airbus, usado para reduzir a velocidade dos aviões no solo, de forma alguma elimina a hipótese de que a causa primária do desastre foi o estado da pista onde o jato havia pousado normalmente.
Como o tempo vai provar, e o complemento deste artigo conduz a isso, o Estadão se esborrachou todo contra a parede dos fatos, não das especulações. Vejam o que aquele jornal publicou, terça-feira, 24 de julho, sob o título “Airbus havia pousado outras duas vezes no mesmo dia em Congonhas”. Prestem atenção para o texto reproduzido:
* O histórico de vôos do Airbus A320 da TAM diminuiu a possibilidade de que a chuva e a pista do Aeroporto de Congonhas tenham sido decisivas na tragédia que matou ao menos 199 pessoas. Isso porque, no dia do acidente, o avião de prefixo MBK já havia pousado duas vezes na pista principal do aeroporto, uma delas enquanto chovia quase três vezes mais do que no momento do desastre. Em nenhuma das aterrissagens houve queixas de pista escorregadia ou problemas mecânicos.(…) O vôo para São Paulo durou uma hora e 35 minutos. Quando o Airbus se aproximou, a chuva havia recomeçado. Mas numa intensidade inferior à que a aeronave havia enfrentado em seu primeiro pouso. As medições feitas por militares mostram que, em média, choveu 0,6 milímetro entre 18 e 19 horas no aeroporto. O comandante Kleyber Lima fazia seu primeiro pouso do dia em Congonhas. (…) A sequência de vôo do Airbus que começou sua jornada às 6h52 no Aeroporto de Campo Grande (MS), demonstra que a TAM utilizava ao máximo a aeronave. Até o acidente, às 18h51, o avião havia feito sete vôos, apesar de estar com o reverso direito (freio aerodinâmico acoplado às turbinas) inoperante — “pinado”. A companhia alega que o manual do fabricante permite a utilização da aeronave com esse problema por até dez dias, quando o conserto deve ser realizado. Para especialistas, os dados mostram que, isoladamente, a situação da pista de Congonhas não é suficiente para explicar o acidente. Mesmo que uma aquaplanagem tenha ocorrido, ela não se estenderia por quase dois quilômetros em um momento de chuva mais fraca. Ela explicaria uma derrapada ou a dificuldade de frear, mas não por que o avião acelerou na pista.
O Estadão faria um gesto de humildade se publicasse uma errata do tamanho padrão do editorial de todos os dias lamentando ter espatifado sua credibilidade no caso. Repetiu o caso Celso Daniel, quando se deixou levar pelo fígado ideológico e interesseiro de acionista que deitam e rolam na definição da abordagem de assuntos candentes.
Há casos em que é preferível que uma tradição mesmo que centenária desapareça a sobreviver de traquinagens. Jornalismo e mercantilismo não dão liga de respeitabilidade. Pelo menos para os consumidores de informação mais atentos.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)