Imprensa

Jornalismo tem muito a aprender
e a se acautelar com mídias sociais

DANIEL LIMA - 26/07/2018

Com massificação deformadíssima nas mídias sociais, mas também com fachos de luminosidade de gente que resiste à enxurrada de radicalismos, cada vez mais o jornalismo profissional precisará ser competente num sentido muito mais abrangente do que o convencional. 

Não existe porta de saída do incêndio de vozes desconexas que se juntam e sufocam a ponderação e o conhecimento de pessoas comuns senão o jornalismo profissional de qualidade. Essa condicionalidade não é um passaporte ao jornalismo impresso diário, sobremodo ao jornalismo impresso diário, plasmado com critérios muitas vezes flexíveis em excesso. Por esperteza ou despreparo. 

Jornalismo exclusivamente de informação, sobretudo de informação engendrada por terceiros interessadíssimos em vender seu peixe, muitas vezes estragado, esse jornalismo já era faz tempo. Desde que criei a revista LivreMercado em 1990 dou-me conta disso. Havia 25 anos já de atuação àquela data. E a prática, em publicações de terceiros, de textos muito distantes do convencional. 

Confiança demais 

A revista LivreMercado cometeu pecados numa trajetória de duas décadas, mas foi a maior escola de minha carreira longeva – e também de muitos que passaram pelas suas páginas como produtor de informação de valor agregado. Erramos sobretudo quando nos deixamos levar, em algumas situações circunstanciais, pela expectativa de que haveríamos de ter projetos municipais e regionais transformados em obras físicas e imateriais. 

Ou seja: tropeçamos quando fomos levados a acreditar no futuro da região, mas a marca registrada daquela publicação (e também desta) é que sempre olhamos o bicho de sete cabeças com desconfiança, ceticismo, impaciência e tudo o mais. Antes assim. Mesmo quando os maledicentes de sempre recrudescem o olhar histórico sobre a publicação, transformando-a em algo mais incisivo do que o fora de fato. 

Por não acreditar numa única fonte de informação formal, no caso o jornalismo impresso, ainda paradigma de jornalismo profissional, acordo com quatro jornais na garagem de minha residência e não tenho dúvida em apontar o Valor Econômico como o melhor, digno de uma nota oito numa escala de um a 10. Depois vem a Folha de S. Paulo, com nota seis e meio. Mais adiante o Estadão, com nota cinco. E, por fim, o Diário do Grande ABC, com nota um. 

Realidade, não Borralheirismo 

Nada de Complexo de Gata Borralheira por botar a publicação regional em quarto lugar entre quatro concorrentes e também por lhe atribuir nota miseravelmente baixa. Não é de hoje, claro. Rebaixamento de nota no jornalismo diário é um processo histórico que parece não ter fim no caso do Diário do Grande ABC. 

A propósito da nota ao Diário do Grande ABC, há três anos, em julho de 2015, escrevi um artigo em que atribuía à publicação a média histórica de nota cinco, numa escala de zero a 10. A diferença entre nota situacional, como definiria o Diário de uns temos para cá, e nota histórica, é que a primeira reflete o momento, mesmo que o momento venha de um passado recente, enquanto a segunda reflete os 60 anos de circulação da publicação, notadamente o período de Diário do Grande ABC propriamente dito, não News Seller, seu genoma. 

Os jornais das capitais resistem mais, mas também conhecem reveses seguidos. Salvam-se, na maioria dos casos, com o reforço de colunistas de peso. Especialistas nas matérias. Como defendi a cada parágrafo no Plano Estratégico Editorial que acompanhou minha breve empreitada no Diário. 

Somente o jornalismo especializado tem competência técnica para impor-se às fontes enviesadas que deitam e rolam nas pautas.  À falta deste, porque a intensa rotatividade das redações lembram ventiladores no verão, restam colaboradores muitas vezes sem apetrechos jornalísticos, no sentido formal da atividade, mas compensam com amplo conhecimento específico de uma determinada área de interesse público. 

Convido os leitores a acompanharem atentamente a série que estamos publicando sobre meus nove meses à frente do Diário do Grande ABC entre julho de 2004 e abril de 2005. Há 61 edições de uma newsletter que criei (e que circulava entre diretores, acionistas e colaboradores do jornal) a comprovar que, como o texto de hoje, estou feito papagaio a repetir conceitos. Mas é preciso mesmo que os repita sempre e sempre, porque lidamos com uma região sem memória. 

Vivo jornalismo cada minuto de cada dia. Por isso, não caio na gandaia de falsidades filosóficas, por assim dizer, de publicações que dizem respeitar os dois lados de uma informação. Há critérios de subjetividades e também operacionais que transformam o ditatorialismo editorial em suposta democracia de insumos. E também há manejos impuros de entrevistados que jornalistas engolem feito crianças porque não entendem do ramo ou fazem voluntariamente ou não o jogo de conveniências. 

Curadoria permanente 

Jornalismo que entendo como ferramenta de comunicação de verdade é o arbitramento de informações de terceiros, submetendo-as a permanente curadoria. Repassá-las acriticamente às páginas de jornais impressos é a sacramentação de malandragens que só os ingênuos acreditam ser exclusivas dos escaninhos dos poderes. 

Queiram ou não os donos de jornais impressos que insistem na política editorial de Pilatos, ou supostamente de Pilatos, a lição que resta aprender é que plataformas de comunicação digital estão obrigando a todos a se reciclarem e a mostrarem a cara dos interesses em jogo. Publicações que não estiverem preparadas ao enfrentamento das redes sociais, repletas de idiossincrasias, mas também de verdades, naufragarão no oceano de desconfianças. Como já estão, aliás. 

Também não escapei às investidas colossais em forma de Torre de Babel informativa do mundo virtual. Aos poucos fui obrigado (e continuo a sê-lo) a readequar a linguagem às especificidades da leitura na tela de um computadorzinho de bolso em forma de celular ou imóvel num escritório. 

Condeno veementemente a leitura apressada no mundo digital (e os maiores especialistas em cognição também execram essa nova cultura de consumo por diagnosticá-la aquém das exigências das conexões sinápticas), mas não posso manter posição de arrogância, desprezando os novos costumes, tanto quanto auto constrangimento para adaptação a uma lógica de mercado, em busca de audiência a qualquer custo. Portanto, o mercado da espetacularização da notícia. Tampouco posso me dobrar às pressões ideológicas e partidárias que, em muitas situações, sequestram a realidade. 

Bola na rede 

Não tenho dúvida de que, mais que a quantidade de informações que o jornalismo profissional despeja em forma impressa ou virtual, o que vale mesmo é a bola na rede da qualidade da informação. 

É amplo o conceito de qualidade em jornalismo, mas o resumo pode ser dito que se trata de exposição de aspectos viscerais e explicativos do que a maioria entrega aos consumidores em forma de informação rasa. 

Esse jornalismo reprodutor simplório de declarações de terceiros é o fim da estrada de uma publicação. Quando páginas de jornais se confundem com publicidade ou com assessoria de imprensa, tudo indica que a vaca da independência já foi para o brejo. Quando forças externas tomam conta das redações, não existiria mais alternativa à sobrevivência da credibilidade que se esgarça. 

É uma loucura enfrentar a avalanche das mídias sociais cujos protagonistas se engalfinham em defesa intransigente de pontos de vista, sem a graduação temperada de dados consistentes e na medida do possível também sem vieses. Mas, paradoxalmente, quem exercita essa missão com profissionalismo sai da enrascada sem maiores problemas porque transforma em inspiração o que não passaria de entulhos. 

Manhas e artimanhas 

Como voyeur de redes sociais, acredito que conheço boa parte das artimanhas dos debatedores. Há participantes que poderiam se tornar bons jornalistas, mas são minoria. Também é minoria quem deveria ser encaminhado a alguma casa de tratamento mental. A massa é formada por marias vão com as outras em suas respectivas categorias de opinião. O fundamentalismo, principalmente em questões políticas e ideológicas, engessa a troca de mensagens. Trabalha-se, nas mais diferentes abordagens em confronto, com a premissa de que tudo que é supostamente bom precisa ser exposto, e tudo que supostamente é pecado, ser escondido. Defendem-se bandidos sociais sem cerimônia. Atacam-se bandidos sociais de forma implacável. 

Os guerrilheiros das redes sociais têm alvos bem definidos. E os biombos protetores também. Somente o jornalismo profissional tem capacidade para desatar os nós. Mas é preciso reconhecer que o jornalismo profissional de grandes corporações ocupa cada vez faixas mais estreitas de mobilidade ética, submetidas essas organizações ao poder econômico de peso relativo cada vez mais influente ante a contínua regressão de receitas tradicionais, dos tempos em que concentrava muito mais influência e poder, tempos que a Internet dinamitou. 



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