Imprensa

Espetáculos esportivos

DANIEL LIMA - 24/10/2007

Não escondo de ninguém a paixão por futebol. Mesmo dos elitistas que consideram o esporte alienante e culturalmente sem valor. Gente sem sensibilidade, como se vê. Por conta das circunstâncias do time de coração, a recíproca não é verdadeira. Ou seja: o futebol que vejo não tem gostado de mim. Mas isso é outra história. Até porque, como não vejo jogos só do meu time, não posso reclamar. Apesar dos pesares, nosso futebol resiste aos dirigentes.


Mesmo levando o futebol a sério, como de fato levo porque envolve profissionais em vários escalões, não suporto acompanhar os jogos da Seleção Brasileira. O ufanismo da TV Globo é exasperante. Os interesses comerciais se confundem com audiência.


Sinto-me otário quando largo afazeres ou prazeres para assistir à Seleção Brasileira. A TV Globo me trata como um torcedor qualquer, desses que entendem que a pátria amada e idolatrada é a pátria de chuteiras, como dizia Nelson Rodrigues.


A pobreza das narrativas e principalmente das análises me conduz a apurar acuidade nas observações para construir arrazoado tático, mania que tenho desde os primórdios de minha carreira jornalística e que repasso aos meus filhos durante a transmissão para que compreendam que não são simplesmente um bando de 11 homens de cada lado a disputar aquela esfera cada vez mais insinuante e traiçoeira aos goleiros.


De fato, verdade verdadeira, a TV Globo, Galvão Bueno à frente, chama-nos a todos de boçais. As imagens teimam em não dar respaldo às narrativas sempre convenientes. Um jogador que cansa de fazer bobagens o jogo inteiro vira craque num passe de mágica — basta que marque um gol, que dê um passe para um arremate arrebatador. Um lance visto sob a ótica verde-amarela ganha conotação e interpretação completamente diferentes se repetido com as cores do adversário. Nega-se a meritocracia em nome de nacionalismo tolo.


A lógica das transmissões esportivas e das mesas redondas é a audiência. A constatação vale para todas as emissoras de rádio e de televisão que dependem do Ibope para vender publicidade. Trava-se luta encardida para ver quem mais chama a atenção, quem diz mais bobagens típicas de botequim. Há profusões de programas de rádio e de televisão que miram o torcedor comum, fanatizado, e lhe oferece todas as versões possíveis de apresentadores calculadamente treinados para atingir o objetivo maior — alguns pontos a mais no Ibope.


Longe de mim qualquer tipo de preconceito. A vida nos ensina na prática o que a teoria jamais conseguiria encaixar, mas foi de lascar apresentar aos telespectadores o multifuncional Richarlyson e a namorada. Uma forçada de barra para levar aos telespectadores a tentativa de submergir a desconfiança generalizada sobre a virilidade do são-paulino. E antes que alguém apareça para dizer que “multifuncional” é algo pecaminoso, juro por todos os juros que é a melhor definição para um jogador versátil taticamente, guerreiro por excelência.


Por que tanta preocupação em tentar introduzir a imagem de macho num Richarlyson que a própria torcida do melhor time brasileiro da atualidade maltrata com olhares e frases imbecilizadas, discriminando-o inclusive nos gritos de saudação que antecedem cada jogo?


É claro que não existiu naquela programação nada que possa ser assemelhado à tentativa sincera de minimizar a situação. A disputa é pura e simplesmente por audiência. Tanto que Richarlyson poderia ter sido convidado como tantos outros jogadores, treinadores e dirigentes o são, sem necessidade de companhia feminina, da namorada oferecida aos telespectadores. O gesto que pareceria magnânimo escorregou sorrateiramente para espetáculos circenses de mulheres-gorila, entre tantos. O disfarce da ótica preconceituosa embutida na entrevista subestimou os telespectadores.


Apesar de um ou outro profissional incapaz de distinguir uma bola de futebol de uma bola de voleibol se meter a analista, a TV por assinatura é a melhor opção para quem não suporta o sensacionalismo de programas de rádio e também de TV aberta. Craques que já ocuparam aqueles canais deveriam ser requisitados a toque de caixa, porque sobram frases e escasseiam luzes aos analistas da TV paga. Mas mesmo assim são sempre melhores que histriônicos comentaristas captados por qualquer receptor.


Por isso não abro mão do direito de rebaixá-los a todos quando se excedem além do suportável — simplesmente mudo de canal ou volto à leitura santa de cada dia. Paixão tem limites.


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