A manchete principal de primeira página do Diário do Grande ABC desta sexta-feira é a seguinte:
“Região contrata 264 mil trabalhadores em um ano”.
Se fosse seguir a linha de meia verdade do Diário do Grande ABC, uma meia verdade de solado furado, como toda meia verdade, a Folha de S. Paulo ou o Estadão deveria dar a seguinte manchete também nesta sexta-feira:
“Brasil contrata mais de 14 milhões de trabalhadores em um ano”.
Vamos ao caso do Diário do Grande ABC. Leiam com atenção o texto de primeira página e digam se conseguiram entender alguma coisa:
O desempenho do setor de serviços, aliado ao reaquecimento da economia brasileira, estimulou as empresas do Grande ABC a contratarem mais funcionários no ano passado. Ao todo, as sete cidades admitiram 262.431 trabalhadores — aumento de 12,5% em relação a 2006. Números divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho mostram que a região encerrou 2007 com um saldo de 36.603 vagas. No País, o saldo de um ano para o outro foi de 1,6 milhão. O ministro Carlos Lupi acredita que o Brasil termina 2008 com a geração de 2 milhões de novos empregos — escreveu o Diário do Grande ABC.
Notaram os leitores a grande diferença entre contratação e saldo?
Este é o ponto básico. Quem fez a matéria para o jornal Diário do Grande ABC, melhor dizendo, para o rodízio Diário do Grande ABC, porque a rotatividade da mão-de-obra da Redação é estonteante, é igualmente resultado da mesma substituição de trabalhadores que o saldo de empregos com carteira assinada exala quando se colocam frente a frente contratações e demissões.
No Brasil, foram mais de 14 milhões de contratações no ano passado, mas o saldo de empregos formais atingiu apenas 1,6 milhão, porque foram mais de 12 milhões as demissões, com consequente rebaixamento de salários. Ou seja: cresce a massa salarial, mas os rendimentos do trabalho per capita caem. Escrevi “apenas” 1,6 milhão como força de expressão, porque é o melhor resultado desde que o Ministério do Trabalho iniciou estudos para captar a temperatura do emprego no País.
Levantei nesta sexta-feira pronto para escrever sobre o caso Celso Daniel. Pretendia discorrer sobre os novos lances de um dos irmãos do prefeito assassinado e do ato que reuniu ontem na Câmara Municipal de Santo André o jurista Hélio Bicudo. Tanto Bicudo quanto Bruno Daniel e sua mulher Marilena Nakano são petistas arrependidos. E todo mundo sabe o que significa petista arrependido.
Junte-se, no caso de Bruno Daniel, que, além de petista arrependido, carrega a cruz de ter rompido durante muitos anos com o irmão, por divergência política e ideológica.
Escreverei sobre o assunto outro dia, porque, nestas alturas do campeonato, não poderia deixar passar em brancas nuvens mais uma trapalhada informativa do Diário do Grande ABC.
Enquanto os jornalistas desse periódico não fizerem um cursinho elementar de discernimento econômico para lidar com dados informativos, correremos o risco da surpresa de crescimento estratosférico de 53% do PIB regional em quatro anos, quando de fato mal chegou a 15%, e de ver saltar para as bancas de jornais uma São Caetano somada a Ribeirão Pires de novos empregos quando, de fato, números semelhantes são de desempregados no Grande ABC.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)