Imprensa

Cidadania perde de goleada para BBB

DA REDAÇÃO - 18/03/2008

Esta entrevista é mais um capítulo carregado de reformismo de LivreMercado: para comemorar 18 anos da publicação, o jornalista Daniel Lima desafiou o Conselho Editorial a encaminhar questionamentos. Uma enxurrada de indagações desabou em forma de e-mails endereçados por larga parcela dos 247 integrantes dessa instância editorial inédita no jornalismo brasileiro. Por isso, Daniel Lima teve de recorrer à sistematização temática. Resultado: as perguntas foram compatibilizadas e agrupadas em 30 assuntos.


Para os leitores compreenderem o tamanho do desafio a que se propôs o jornalista mais combativo do Grande ABC, basta imaginar se algum outro comandante de qualquer veículo respeitável de comunicação abriria as portas para semelhante interação. Mais que abrir as portas, Daniel Lima não foge da raia, não refuga uma única questão e não faz encenação quando se trata de avaliar a regionalidade do Grande ABC, espécie de Evangelho de uma carreira precocemente iniciada aos 15 anos. Para ele, uma das simbologias do que consagrou como Complexo de Gata Borralheira da região foi a lotação de um ginásio de esportes em São Bernardo, ano passado, para a transmissão em telão da final do Big Brother Brasil, enquanto pontos decisivos ao futuro do Grande ABC não têm o respaldo de cidadania, como é o caso do autonomismo curricular da UFABC (Universidade Federal do ABC).


Desindustrialização e desconcentração
O Grande ABC dos anos 1990 viveu esses dois fenômenos econômicos, diferente, portanto, do que maliciosamente propagaram alguns precipitados e supostos estudiosos. Eles desconheciam ou fingiam desconhecer a morfologia industrial da região, por isso sempre se entregaram a holofotes triunfalistas, decididos a agradar ao distinto público avesso a duras verdades. Provamos com inúmeros dados e análises que os efeitos da abertura dos portos nos anos 1990, combinados com a guerra fiscal, além de vetores macroeconômicos ditados pela globalização financeira lubrificada pela valorização insana do dólar, colocaram o Grande ABC à beira de um ataque de nervos. Perdemos 100 mil empregos industriais naquele período. Só no governo Fernando Henrique Cardoso, foi para o espaço um terço da produção industrial. Ainda não conseguimos recuperar integralmente nem os empregos nem a produção, o que, por si, já seria um atraso.


Mais poderes para o Conselho Editorial
A ampliação das atividades do Conselho Editorial de LivreMercado deve ser avaliada com cuidado. A realização de debates com prefeituráveis é sugestão interessante, independentemente da fórmula que venha a ser introduzida. Entretanto, é preciso levar em conta que não pretendemos exigir demais dos representantes da sociedade civil que constam da relação dos conselheiros, porque a maioria tem atividades em outras instituições. Acreditamos que estamos contribuindo para melhorar o escasso grau de cidadania do Grande ABC ao motivar esse valioso grupo. Talvez seja possível levar aos próprios conselheiros a proposta de incursões no campo eleitoral. Incluiria como extensão dessa iniciativa debates com os atuais prefeitos e lideranças locais dos Legislativos municipal e estadual.


Conselho Editorial e Fórum da Cidadania
Quando criamos o Conselho Editorial e, principalmente, quando o ampliamos, jamais imaginamos uma réplica do Fórum da Cidadania. Não poderíamos reproduzir um equívoco. Sim, o erro do Fórum da Cidadania foi brotar como braço político do Diário do Grande ABC. Os vínculos se provaram desastrosos por conta do divisionismo da cúpula daquela companhia num momento de inchaço de entidades. Além disso, impregnaram-se no Fórum objetivos político-partidários que o estatuto e o bom senso refugavam. Sem contar que a tutela do jornal converteu-se em blindagem às bobagens cometidas pelo Fórum da Cidadania, contra as quais, aliás, sempre fiz ácidas objeções. O Conselho Editorial jamais será braço político-eleitoral da publicação. Muito menos extensão corporativa. Prevalecerá sempre e sempre atuação endógena de suporte editorial. O que seus membros fazem fora desse âmbito não é mérito nem problema nosso.


Regionalidade pós-Celso Daniel
O Grande ABC perdeu demais o tônus de regionalidade após a morte do prefeito Celso Daniel. Antes mesmo disso, o próprio prefeito de Santo André já se sentia peixe fora d’água porque a dinâmica do Clube dos Prefeitos, da Agência de Desenvolvimento Econômico e da Câmara Regional refluía ao sabor de estocadas municipalistas e partidárias num contexto de esvaziamento industrial negado apenas como jogo de cena ou como prova de insanidade mental. Vivemos quadro institucional apoplético se considerarmos os objetivos traçados nos melhores momentos de disseminação dos pilares da regionalidade, em meados dos anos 1990.


Conselho Consultivo no Clube dos Prefeitos
A reestruturação do Clube dos Prefeitos não está limitada à legalização formal como instrumento de ação coletiva, segundo determina a legislação federal. Pesa muito mais a dificuldade para degelar um dos ideais de Celso Daniel. Sim, o Conselho Consultivo que defendo como mecanismo democratizante e prospectivo do Clube dos Prefeitos é uma iniciativa de Celso Daniel, à qual de maneira geral a maioria dos prefeitos simplesmente dá de ombros. Mais que a abertura para a sociedade civil em forma de Conselho Consultivo, é importante que o regulamento não coloque a cidadania como pretexto para legitimar medidas que estão muito distantes das exigências sociais e econômicas acumuladas ao longo dos anos. Um Conselho Consultivo amorfo e egocêntrico não teria valor algum.


O endereço da corrupção regional
Engana-se quem imagina, pensa e divulga que corrupção é algo implícito exclusivamente no setor público e que envolva simplesmente dinheiro. Corrupção é um guarda-chuva imenso que tem raízes na falta de cidadania, ou na cidadania incipiente. Uma sociedade fragmentada e individualista, doutrinada ao consumismo material e incapaz de imaginar os próximos 10 anos é uma sociedade sem lastro ético e moral para fazer cobrança no futuro. Vivemos situação em que se multiplicam prevaricações financeiras, éticas, administrativas, políticas, eleitorais, informativas tanto no setor público quanto no privado. Somente uma sociedade potencialmente corrupta nos pressupostos de cidadania poderia lotar um ginásio de esportes para acompanhar, num telão, uma final de Big Brother que envolvia um representante de São Bernardo, enquanto se omite completamente nos destinos da UFABC (Universidade Federal do ABC) que, ingenuamente, muitos entendem que faz parte de nossa geografia social e econômica. Nossa Cidadania perde de goleada para o BBB.


Metropolização da Grande São Paulo
Os arquivos estão repletos de matérias jornalísticas sobre a patética promessa de metropolização da Grande São Paulo. Por mais que seja compreensível a dificuldade política de harmonizar interesses antagônicos, é inqualificável o desprezo do governo do Estado nos últimos 20 anos. A temática voltada para a metropolização só está no acostamento de prioridades do conglomerado econômico mais importante da América do Sul porque há completo alheamento da classe política e total desinteresse da sociedade. Sem contar a omissão da Imprensa que, por incapacidade, descuido, despreparo ou seja lá o que for, prefere assuntos pontuais cujo horizonte de responsabilidade social não dobra a próxima esquina. A Grande São Paulo de 39 municípios, 20 milhões de habitantes e um dos focos mais persistentes de mudança da matriz econômica vive sufocamento industrial e inchaço do terciário como elementos letais à mobilidade social. Não é à toa que nos 10 últimos anos, conforme a Folha de S. Paulo, só a Capital perdeu o equivalente à população de Santos no Centro expandido, de classe média, e ganhou uma Guarulhos na empobrecida periferia.


Meio ambiente em discussão
LivreMercado possivelmente não tenha mergulhado com profundidade no meio ambiente do Grande ABC, mas também não se omite. Não foram poucos os cases que ao longo dos anos ganharam destaque no Prêmio Desempenho. A Represa Billings foi tema de várias reportagens. A ocupação desordenada por núcleos de favelas também foi enfaticamente criticada. Talvez seja esse, entretanto, um dos passivos da publicação em reportagens analíticas.


Prejulgamentos do jornalismo
Contrariamente ao lugar-comum da grande mídia, principalmente dos jornalões que comemoram efusivamente a quebra de algumas supostas barreiras de liberdade de expressão da Lei de Imprensa, entendo que é preciso criar contrapartidas para que o jornalismo não seja um festival de abusos e irresponsabilidade, como estamos cansados de assistir por conta de interesses econômicos, financeiros e políticos. Gostaria de ver o modelo de LivreMercado, com mais de duas centenas de conselheiros editoriais, reproduzido em veículos de comunicação que cantarolam independência editorial e respeitabilidade quando de fato o que assistimos é um avolumar de arbitrariedades, de interesses de grupos organizados, de sofreguidão econômica, entre tantas mazelas. Prejulgamentos são uma rotina seletiva que premia com tratamento protetor os amigos da casa e destroem adversários num mimetismo típico da arena partidária. Jornalismo não é empreendimento negocial como outro qualquer. Valores éticos devem constar do primeiro ao último mandamento de compromisso social.


Como sistematizar cadeias industriais
É um verdadeiro desafio colocar no mesmo espaço de debates cadeias industriais tão segmentadas, como são os casos dos setores automotivo, petroquímico e de cosméticos. A perspectiva de que o Grande ABC se ajeite economicamente sem que os setores automotivo e petroquímico marquem encontro com o futuro é por demais ilusória. Lembramos que uma das capas mais importantes da história de LivreMercado foi “Nosso futuro é de plástico” e também “Quem desarma a bomba sindical?”, entre tantas que trataram dos petroquímicos e dos automóveis. Não é o caso dos petroquímicos, mas o setor automotivo é por demais concorrencial e independente entre si no Grande ABC e, como conta com associação empresarial (Anfavea) como ponta-de-lança de negociação setorial, vivemos praticamente à sombra do poder que exercita fora do território regional. A solução passa pelo sindicalismo que, entretanto, segue corporativo como todo sindicalismo e pouco se dá para vetores regionais.


Nova edição de Nosso Século XXI
Não se pode temer que o volume 2 do livro Nosso Século XXI, sete anos após o primeiro, seja um risco de fracasso entre outros motivos porque faltará entre os articulistas o exuberante Celso Daniel. Reuniremos novamente número expressivo de pensadores regionais que confluirão conhecimentos com gestores públicos, privados, sociais e culturais. A primeira versão do livro contou com grupo admirável de ensaístas e a segunda promete brilho semelhante. Espero que a síndrome cinematográfica de sequências que perdem o frisson não contamine essa obra editorial.


Plano Estratégico é a melhor alternativa
O futuro do Grande ABC passa por Planejamento Estratégico Regional que coloque a competitividade econômica como ponto de honra. Articulações municipais são importantes dentro de cada território, mas nada substituirá a sistematização de propostas de caráter emergencial que possam restaurar a força econômica regional a partir de confrontos estatísticos com regiões mais competitivas do País. Somente uma consultoria internacional que conheça a fundo os efeitos da globalização e localize sem escorregões novas vocações instauraria ordem nessa casa-da-mãe-joana de desvarios de cada um por si e o resto que se dane.


Um Anhembi para nossas empresas
Estão desgastadas as iniciativas que projetam a construção de uma espécie de Anhembi no Grande ABC. Enquanto não se provar que o investimento é financeiramente vantajoso para os investidores que, como se sabe, não gostam de perder dinheiro, improvisaremos áreas aos eventos. A realidade é que, no campo de grandes negócios de feiras e exposição, o Grande ABC sofre com o brilho da Capital tão próxima, cuja rede de entretenimento, lazer, hotelaria, centros de compras e gastronomia é imbatível no território brasileiro. Viveremos por muito tempo na penumbra.


Complexo de Gata Borralheira
A debilidade institucional do Grande ABC é a matriz do Complexo de Gata Borralheira que procurei traduzir em livro lançado em 2002. Somos um conjunto de municípios e cidadãos que sofrem de sentimento de inferioridade da vizinha e poderosa Capital e, paradoxalmente, para negar essa redução de importância, reage com bairrismo, essa coisa horrorosa de se fechar em copas, trombetear grandeza mas, no fundo, no fundo, viver amargurado com a idéia fixa de que a Capital é sempre melhor. Os anos 1990 de fundas mudanças econômicas e sociais no Grande ABC repercutiram na textura coletiva a ponto de arremeter a sociedade rumo a um individualismo de salve-se-quem-puder, agravando, com isso, a submissão psicossocial à Capital tão próxima.


Criminalidade e ranqueamento
Quem afirma a plenos pulmões que criminalidade é uma doença social sem correlação com comportamento econômico quebra a cara porque, no caso específico do Grande ABC, os anos de chumbo do governo Fernando Henrique Cardoso provocaram mortes não-acidentais 50% mais elevadas do que os anos de recuperação do governo Lula da Silva. Uma série de medidas colaborou para que o Grande ABC sufocasse a síndrome de Baixada Fluminense. Em meados dos anos 1990 apresentamos números alarmantes de homicídios, que rivalizavam com aquela região do Rio de Janeiro. Foram mais de 1,3 mil mortes num mesmo ano, até que a curva gráfica refluísse continuamente. No ano passado morreram 339 pessoas assassinadas na região, muito abaixo de outras metrópoles. Por mais que haja maquiagem em boletins de ocorrência, como tanto se apregoa, é impossível esconder números substantivos de assassinatos. Melhoramos bastante, mas não se pode ignorar que continuamos entre os piores endereços das principais praças do Estado de São Paulo, conforme ranking do IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos).


O que esperar da UFABC?
Já dedicamos muito espaço ao questionamento curricular e institucional da Universidade Federal do ABC. Lamentavelmente, a sociedade é omissa, quando deveria pegar à unha o touro do comprometimento regional. Fosse reitor da UFABC, como o foram outros e é o atual, pouco me importaria com o Grande ABC porque o que há de fato é um completo alheamento da sociedade regional. Fico inconformado quando vejo tanta mobilização de candidatos a prefeitos na região, com correligionários aparecendo em fotos como enxame, e nada, absolutamente nada fazem quando se trata do futuro daquela instituição.


Fernando Henrique versus Lula da Silva
Embora considere o governo Lula da Silva 300 milhões de vezes superior ao de Fernando Henrique Cardoso no âmbito nacional, farei de conta que desprezo completamente essa correlação em espaço tão amplo e fico apenas com o território regional: aqui, a diferença não é de 300 milhões de vezes, mas de bilhões de vezes. Foi principalmente graças à FHC e à minha paixão pelo Grande ABC que votei em Lula da Silva pela primeira vez em 2002; e repeti a dose em 2006. Já discorri textos e textos da hecatombe regional sob Fernando Henrique Cardoso. A impressão daquele período é que propositadamente FHC pretendia eliminar a economia do Grande ABC do mapa nacional com aquela espécie de bomba atômica. Nossas pequenas e médias empresas industriais familiares desaparecem dos radares por conta de políticas nacionais e macroeconômicas descoladas de algo que pudesse ser minimamente chamado de planejamento.


Administração Celso Daniel
Mobilizem céus e terras, vasculhem arquivos, investiguem para valer e não encontrarão ninguém que tenha sido prefeito tão flagrantemente regional quanto Celso Daniel. Não discuto se Celso Daniel foi melhor ou pior em aspectos específicos de administração pública municipal. Ele pairou acima de todos por conta da vocação regionalista, do olhar além do próprio território, da contemporaneidade de projetos, do faro aguçado em direção ao futuro, da competência em distribuir e monitorar tarefas, do talento à descentralização sem deixar-se corroer pelo ciúme. Celso Daniel é o Pelé da história da regionalidade do Grande ABC no âmbito público. Tivemos vários craques municipalistas, muitos pernas-de-pau municipalistas, mas Pelé regionalista, como Pelé do futebol, apenas um. Ele.


Compartilhamento de lideranças
A rotatividade presidencial é um dos vícios de origem da baixa produtividade do Clube dos Prefeitos. A prevalecer esse convite ao individualismo temporal e frenético de quem ocupa o comando enquanto os demais refluem, continuaremos a sofrer com a regionalidade em frangalhos. A solução é instalar os prefeitos numa espécie de Conselho de Administração, cada qual coordenando um, dois ou três eixos temáticos compatíveis com vocações dos respectivos municípios, e repassar a direção técnica a especialistas. Com autonomia, esses experts entrecruzariam objetivos estratégicos regionais numa zona de independência de ações municipalistas. O drama para aplicar essa equação é que interesses políticos e partidários falam mais alto e os prefeitos, por melhores que sejam aos respectivos municípios, têm pouco tempo para parar e acreditar na viabilidade dessa proposta. Muitas das dificuldades de saúde, educação, transporte e meio ambiente, além de econômicas, que sobressaltam o Grande ABC têm origem no autarquismo dos prefeitos.


Melhores e piores momentos
LivreMercado reúne coleção respeitável de sucessos editoriais em 18 anos de circulação. O caso Celso Daniel é de fato um desses marcos. Provamos com farta investigação o quanto se manipularam situações completamente distintas, como a vinculação entre supostas propinas na Prefeitura de Santo André e o assassinato do prefeito. O desfilar de imagens de nossas capas simplifica o entendimento do vanguardismo nesse período. A maior conquista da publicação foi a credibilidade baseada em remar contra a maré de ufanismo e triunfalismo de uma região que passou pelos piores momentos da história nos anos 1990. Lamentavelmente, erramos sempre que acreditamos na força coletiva que praticamente inexiste, como foi o caso do Fórum da Cidadania.


Coragem de abordagem
A estridência com que pautamos o compromisso de levar informação ao público, com enfrentamentos às vezes barulhentos, é característica que jamais podemos abandonar, sob o custo de despersonalizar-me. Meu temor é que exatamente porque é espécie de réplica de minha personalidade profissional, LivreMercado sofra revés insuperável na imagem de combatividade diante de minha ausência. Reconheço: não sou um exemplar que se enquadra a um jornalismo dedicado mais a conveniências e alpinismo social. Manter esse projeto editorial custa muito caro em termos de saúde, de relacionamento social e de dedicação familiar. Somos um bando de loucos.


Especiais e o Grande ABC
Têm certa dose de razão os conselheiros editoriais que questionaram contra-senso de a revista publicar reportagens especiais de municípios fora do eixo geográfico do Grande ABC. Visto sob o ângulo estritamente regional, esses materiais podem, sim, servir de emulação a novas incursões de empresas locais em direção ao Interior do Estado. Afinal, é visível o grau de sensibilização daqueles municípios em relação ao que oferecemos internamente. O Interior é muito mais palatável a investimentos produtivos. O problema todo se resume a um fato insofismável: é indispensável buscar recursos financeiros para suportar o rebaixamento de investimentos publicitários no Grande ABC por conta do aniquilamento da pequena e média empresa, do distanciamento da maioria das grandes indústrias da sociedade local e do canibalismo resultante de excesso de estabelecimentos comerciais e de serviços em contraposição à queda da riqueza.


Fragmentação do Grande ABC
O processo emancipatório do Grande ABC em meados do século passado, subdividindo em sete municípios o território de 800 quilômetros quadrados, acrescentou dificuldades mas também implementou iniciativas de toda ordem. Somente um debate amplo com especialistas poderia dirimir dúvidas sobre os efeitos desse divisionismo. Em princípio, considero o movimento emancipacionista deletério para o Grande ABC do presente. A unidade física, territorial e política faria a diferença nestes tempos em que fronteiras nacionais se diluem ao sabor do jogo da sobrevivência na globalização. A União Européia está aí para provar, entre tantas outras iniciativas de gerenciamento em comum de interesses econômicos. Muitos muros ainda separam os sete municípios do Grande ABC, embora o jogo de cena seja de negar veementemente essa dolorosa realidade.


Marketing regional
Um dos erros mais comuns quando se avalia o Grande ABC é acreditar que o marketing descasado de insumos básicos de reorganização institucional e estrutural salvará a pátria. Pura bobagem. Chamem os maiores especialistas no assunto e que tenham senso de preservação, e duvido que aceitariam participar de encenação, como algumas iniciativas que fracassaram no passado. Marketing não é pó de pirlimpimpim. Um marketing voltado para repotencializar a malha produtiva de autopeças do Grande ABC, por exemplo, só terá sentido após diagnóstico das condições atuais e de um modelo exequível de convencimento dos empreendedores no campo fiscal, locacional, tributário e trabalhista, entre tantos.


Contaminação do Residencial Ventura
A transformação da área da desativada fábrica da Atlantis, em Santo André, em condomínio habitacional para classe média é assunto que ainda não foi tratado por LivreMercado porque estou reunindo série de informações. Entretanto, estou resguardado por troca de e-mails. O que posso adiantar com a segurança de quem não faz uso da Lei de Imprensa como escudo a exageros é que desafio os responsáveis pelo negócio a procurarem reparos em qualquer instância, notadamente o Judiciário. O fato é que o Residencial Ventura, como é chamado, se converteu em fraude imobiliária por conta de laudos comprobatórios de contaminação do terreno utilizado durante sete décadas por aquela empresa química. O senhor Sérgio De Nadai sabia o que estava vendendo.


Caso Celso Daniel versus caso de assédio
Diferentemente do caso de assédio sexual tratado durante todo o mês no meu blog e transposto a esta edição da revista, o caso Celso Daniel dispensou de repasse deliberativo o Conselho Editorial. No caso Celso Daniel trabalhei com fatos, com informações, com reportagem propriamente dita, para assegurar que as investigações policiais foram corretas. No caso de assédio, temos componente complicador porque envolve comportamento de ordem moral. A prerrogativa de chamar o Conselho Editorial é deste jornalista. Sempre que houver necessidade de participação do Conselho, registraremos o resultado da decisão coletiva.


Transposição partidária
Jamais me imaginei em cargo público eletivo. Sou deselegante e mal-educado o suficiente para não demonstrar apreço por quem não tenho apreço, para não abraçar quem não respeito, para não trair a confiança de quem me faz depositário de informações, para não baixar a cabeça quando meu desejo é de chutar o pau da barraca, para não passar por cima de ninguém só para garantir vantagens escusas, para não fazer papel de personagem. Não que todos os homens públicos sejam exatamente isso durante todo o tempo, mas em algum momento eles precisam ser assim. A ética na política é flexível demais para os ensinamentos que recebi de meus pais. Estou feliz com o papel modesto que desempenho na sociedade regional. Admito um dia qualquer transformar-me, quem sabe, numa espécie de consultor. O jornalismo, quando exercitado com devoção, abre muitas portas de conhecimentos que poderiam ser transpostos além-fronteiras midiáticas.


Explicações sobre o poderoso chefão
O empresário Ronan Maria Pinto é o poderoso chefão do Diário do Grande ABC assim como os Marinhos são os poderosos chefões nas Organizações Globo, os Mesquitas o foram no Estadão e os Frias o são na Folha de S.Paulo. A diferença é que Ronan Maria Pinto não é do ramo. E isso faz muita diferença. Ele jamais conseguirá compreender o significado jornalístico do que o Diário do Grande ABC imprime a cada novo dia, por mais que pense que entenderá. Não se trata de crítica, mas de constatação. Da mesma forma que teria este jornalista dificuldades em entender o setor de transporte coletivo, no qual Ronan Maria Pinto é especialista. A diferença entre uma atividade e outra é igualmente entre um motorista de ônibus e um jornalista: a dificuldade de atingir rapidamente nível de competência e excelência será sempre maior para o jornalista, porque jornalista lida com conhecimento intangível que, como se sabe, não tem limites. Tudo isso, entretanto, dentro da nova realidade da mídia internacional, não se traduz em fracasso mercantil de um dono de ônibus que ingressa na área editorial, assim como não o seria para investidores financeiros que jamais tiveram qualquer intimidade com os jornais, exceto como leitores, e que decidiram invadir a área da Imprensa mundial. Em realidade, investidores sabem ganhar dinheiro, mesmo que à custa de produtos pragmáticos demais para meu gosto de leitor e jornalista.


Direitismo versus esquerdismo
Quem tentar decifrar ideologia estanque neste jornalista provavelmente vai cair do cavalo. Não me prendo a clichês nem sou escravo de regras que tipificam esquerdistas e direitistas como seres indelevelmente imutáveis. Só os fundamentalistas não mudam ou pelo menos não procuram ajeitar-se sem constrangimento interior. Garantidamente sou regionalista com olhos postos no mundo, sofro com os conservadores que só olham para o próprio umbigo e com os revolucionários de causas insensatas. O futuro da humanidade, se a humanidade tiver futuro, será o capitalismo social ou o socialismo capitalista, do qual o Brasil está estratosfericamente longe. E desconfiem de falsos filantropos porque, além de manipuladores, eles minimizam a importância de quem faz de fato da solidariedade profissão de fé, como tanta gente abnegada que conheço na região, tanto Madres Terezas como mulheres maravilhosas de classes privilegiadas.


Resultados de uma sociedade
Sobremodo porque a relação acionária coincidiu com desarranjos diretivos do Diário do Grande ABC, situação que atingiu e ainda atinge duramente aquela empresa, a sociedade que acertamos há 11 anos ficou distante do que imaginavam as partes. Particularmente para a Editora Livre Mercado foi um desastre. Sempre foi tormentoso e inútil encontrar uma brecha de atenção dos acionistas majoritários, porque o tiroteio entre eles se prolongou por muito tempo e fez muitos estragos. Ficamos de fato na linha de tiro. Felizmente, o produto LivreMercado não foi atingido nem de raspão no cerne com que foi concebido, ou seja, na linha editorial independente da Rua Catequese e de outros endereços mais ou menos nobres da região.


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