O Estadão de domingo deu prova, mais uma vez, de como é mais comum do que imaginam os leitores transformar parte em todo com objetivos deliberadamente manipuladores.
Diferentemente de pesquisa com cientificidade comprovada, a transformação de informações voluntárias de um grupo reduzido de profissionais não pode e não deve constar de reportagens que alardeiam meias verdades, com finalidade só aparentemente esperta de atingir o governo federal que não lhe agrada.
Querem ver?
Como o leitor interpretaria a seguinte manchete principal de página interna, levada também a destaque na primeira página:
“Elite sindical tem 45% dos altos cargos” — afirmou o Estadão de domingo passado, à página A8 Nacional.
Antes de repassar os principais trechos da matéria, volto à primeira página daquela edição, onde as tintas de um parcialismo informativo ainda são mais fortes.
Sob o título “Força dos sindicatos cresce no governo Lula”, a chamada diz exatamente o seguinte:
Agora, acompanhem os principais trechos do texto de página interna assinado por Wilson Tosta:
Continua a reportagem do Estadão:
O repórter discorre sobre os dados da pesquisa da Fundação Getulio Vargas até que, somente depois de mais da metade da reportagem, resolve revelar pontos fundamentais do trabalho que, se respeitados, teriam alterado completamente os enunciados e, principalmente, o tom da manchete.
Acompanhem o seguinte naco da matéria maliciosamente redigida pelo Estadão:
Para fechar a amostra com que elaborou a pesquisa, a equipe da FGV partiu de uma listagem de 1.269 cargos, fornecida pela Secretaria de Gestão do Ministério do Planejamento. Desses postos, 1.202 estavam ocupados, em 69 órgãos. Foram identificados os nomes de 1.150 ocupantes, dos quais 1.013 foram contactados e receberam questionários. Em fevereiro de 2007, a consulta foi encerrada, com 278 (27,4%) questionários respondidos, numa taxa de retorno considerada alta.
Entenderam os leitores o que se passou de fato?
Uma pequena parcela da elite funcional do governo federal respondeu voluntariamente a uma pesquisa e o jornal Estadão a transformou em um todo para efeito de manipulação descaradamente voltada a estigmatizar uma categoria profissional subliminarmente vinculada ao PT.
Ou o leitor tem dúvidas sobre o objetivo explícito da seguinte manchete, que repetimos:
“Elite sindical tem 45% dos altos cargos”.
Sim, é elite funcional porque, como explica aquela reportagem, envolve cargos de secretários e subsecretários, dirigentes de autarquias e fundações, assessores especiais, chefes de gabinete de ministros, diretores de departamento, consultores jurídicos, secretários de controle interno, subsecretários de planejamento, orçamento e gestão.
O que quero dizer é que a amostra sobre a qual se deleitou a Fundação Getulio Vargas não pode ser tratada como insumo definidor da participação do sindicalismo na administração pública federal.
Não tenho nem quero procuração do PT ou de qualquer partido político. Esse novo capítulo de “Outros poderosos chefões” é apenas mais uma clara evidência de que os jornalões paulistanos subestimam a inteligência do leitor, sobremodo quando partidarizam as reportagens.
A credibilidade desses jornais quanto ao loteamento de cargos pelo PT de Lula da Silva esvai-se na medida em que informações estupidamente parciais como as contidas nesse tipo de reportagem ganham ares de denúncia.
Até prova em contrário, menos de 30% do funcionalismo mais graduado do governo federal que respondeu por vontade própria a uma investida informativa não podem ser elevados ao patamar da universalidade.
Seria analogamente algo como acreditar que, num auditório com 1.202 convidados, 45% torcem para o Palmeiras depois da verificação de que 278 responderam à enquete sobre preferência clubística. Grande parte de corintianos e são-paulinos de humor atravessado ou desconfiados das reais intenções do questionário simplesmente preferiu não responder.
Nem mesmo a possibilidade de a parcela sindicalizada ser ainda maior que os 45% noticiados pelo Estadão invalida a constatação de que houve mesmo uma forçada de barra para encaixar o texto às diretrizes estratégicas daquele veículo de comunicação visceralmente antipetista.
Se editores do Estadão não praticassem cotidianamente o antigo conceito de “casa de ferreiro, espeto de pau”, a resposta à manquitola adaptação editorial que se subjuga a conveniências partidárias poderia ser pedagogicamente captada na edição de ontem do próprio jornal, no brilhante artigo assinado por Eugênio Bucci, “Comunicação e diálogo”.
Parece que o jornalista e também doutor em Ciência da Comunicação pela USP (Universidade de São Paulo) mirou naquela matéria do Estadão para, entre outros trechos, imprimir o seguinte:
Em vez de operar segundo ditames partidários de ocasião, cabe à Imprensa observar e cobrir os partidos e suas escaramuças, vendo-os de fora. Os interesses dos partidos e dos governos devem representar, para os encarregados da comunicação social, não uma baliza para alinhamentos ou combates sistemáticos, mas um fenômeno externo. Infelizmente, contudo, se observarmos com cuidado, veremos que esse tipo de desvio ainda não foi totalmente superado. Entre nós ainda sobrevive uma concepção excessivamente instrumental dos meios de comunicação, que são vistos — e, por vezes, são administrados — como porta-vozes da corrente A ou B e nada mais.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)