Não falta quem reprove o tratamento quimioterápico a que se submeteram os presidenciáveis na bancada de maior Ibope do jornalismo brasileiro. O Jornal Nacional da TV Globo partiu literalmente para cima dos candidatos na rodada inaugural da temporada oficial de votos. Foram sabatinas duras, intensas, encarniçadas. Misturaram-se cruzados e diretos na mandíbula do passado e na região da cintura do presente político dos pretendentes ao cargo máximo da Nação.
Aprovo integralmente o método para começo de interação com a sociedade. Nem poderia ser diferente. Volto ao passado para tentar mostrar que tudo é questão de coerência. Ao criar neste espaço editorial o que chamei de Entrevista Indesejada (que não é nada diferente do que o Jornal Globo apresentou) houve chiadeira dos bandidos sociais mais que conhecidos.
Não só chiadeiras, claro. Também boicotes, quando não represálias judiciais de um mais que conhecido denunciado pelo Ministério Público do Consumidor de São Bernardo como campeão regional de malfeitos contra compradores de imóveis.
O que separa uma coisa (a Rede Globo) da outra (esta revista digital) é que deste espaço eles, os entrevistados fogem. Da Globo, não. Políticos têm dimensão diferente dos riscos quando em campanhas eleitorais. Preferem incômodos de custos populares arrasadores à covardia de consequências bem menos impactante.
Teste produtivo
Foi um colunista especializado em televisão e em cinema que escreveu outro dia no site UOL em oposição ao formato das sabatinas do Jornal Nacional. William Bonner e Renata Vasconcelos teriam substituído perguntas sobre programa de governo por abordagens relacionadas ao que o candidato protagonizou na atividade pública em termos políticos e de costumes.
O modelo adotado pelo Jornal Nacional é um bom teste. Inclusive aos próprios apresentadores, como se viu no enfrentamento imposto pelo capitão reformado Jair Bolsonaro e, mais tarde, pelo petista Fernando Haddad.
A Globo sabe que os tempos são outros, que os presidenciáveis já não são supostas ovelhas prontas a ser abatidas. A multiplicidade de plataformas de comunicação e as supostas fissuras da Operação Lava Jato, que teriam alcançado aquela organização, induzem a reações de quem se sente acossado.
Mas a Globo não parece abrir mão de nada. Nem pode. Até porque, tratou a todos com o mesmo senso de profissionalismo e rigor. Até a então dócil Marina Silva foi fustigada. Até então dócil, escrevi, porque para satisfazer marqueteiros a candidata decidiu subir o tom, a esbravejar na campanha que se seguiu. Uma ideia infeliz que ajuda a explicar o esvaziamento das possibilidades de chegar ao segundo turno. Muitos marqueteiros se descolam dos sentimentos da sociedade e impõem decisões desastrosas. Marina é o que é e, sendo o que é, não é o que se pretende que seja, no contexto atual, a melhor alternativa para os enfrentamentos que virão.
O Jornal Nacional não deu refresco a ninguém. E nem deve dar. Mantida a equidade, nada a reclamar. Apenas que esteja preparado às réplicas.
Baile à fantasia
Acreditar que perguntas que tratariam de plano de governo satisfariam telespectadores nesse tipo de sabatina é desperdício. O tempo é escasso e os programas não passam de formalidades. São baile à fantasia que escondem identidades e realidades programáticas distintas. Sem contar com a possibilidade de respostas enfadonhas afastarem a audiência e a produtividade informativa. Basta o repetitivo tucano Geraldo Alckmin a exagerar no vício de acentuar as sílabas de cada palavra. Parece um robozinho eletrônico.
Uma das razões de a política nacional ser o que é (um conto de fadas que se repete a cada temporada de votos, até que a ficha da realidade cai e sentimos o quanto somos fregueses de cadernetas de circo de horrores) deriva de como a imprensa geralmente servil trata os agentes públicos ao longo do calendário e inclusive nas campanhas eleitorais.
Quem joga duro para valer faz parte de uma minoria isolada. E essa avaliação vale para o País todo, com gravidade ainda maior na medida em que se ingressa em territórios de baixa demanda publicitária e, portanto, mais suscetível a pressões de grupos de interesses geralmente nada nobres.
Só mídias mais robustas passaram a ter disposição ao combate em campo aberto, inclusive em emissoras de rádio. Há profissionais de comunicação que até se excedem, mas cumprem rigorosamente o papel que lhes cabem. Com as consequências à imagem inclusive pelos supostos excessos.
De pecador a santo
Voltando à Entrevista Indesejada que lancei neste espaço, praticamente desisti da aplicabilidade porque a empreitada se mostrou improvável na execução. Os convocados a responder fugiram da raia. Eles estão tão acostumados com lantejoulas de alternativas bem mais generosas, que lhes estendem o tapete para desfilarem com garbo, que se enchem de arrogância.
Vejam que ainda esta semana o Diário do Grande ABC entrevistou o prefeito Atila Jacomussi, de Mauá, apeado do cargo por conta de crimes em uma das novas versões, embora antiga, de máfias da merenda. De volta ao cargo beneficiado por Gilmar Mendes (e poderia ser outro?) Atila Jacomussi desfilou respostas que o remeteriam à santificação.
Alguém acredita que ele aceitaria uma Entrevista Indesejada? Por isso e por tantos outros exemplos nem perco tempo. Se a sociedade inerte desta região não oferece respaldo a determinadas incursões jornalísticas, ou, para pior, até o Judiciário se move para punir com prisão quem ousa revelar podridão, o que esperar dessa democracia mulambenta?
O recordista de fugas da Entrevista Indesejada nesta revista digital é um elemento notoriamente enroscado. Se não me engano foram sete as tentativas endereçadas a Milton Bigucci, então presidente do Clube dos Construtores. Como tem multa no cartório ético e de negócios, quando não institucional, porque até então havia um quarto de século desfilava inutilidade à frente daquela entidade garantidamente mequetrefe e chinfrim, Milton Bigucci correu do compromisso com a sociedade com o Diabo da cruz.
Prefeitos sabatinados
Escrevi já faz muito tempo (e estou com preguiça ou sem tempo para ir à origem) que os prefeitos deveriam, entre as obrigações com a sociedade, ser transparentes e cumpridores dos deveres de informação. Disse que eles poderiam e deveriam, a cada determinado período, reunir a mídia e representantes da sociedade para submeterem-se ao que chamaria de sabatinas profiláticas.
Agentes públicos que dão entrevistas apenas aos amiguinhos de sempre, geralmente extensões de nacos de publicidade, praticam com a anuência dos veículos de comunicação um jogo de simulação de democracia. Um jogo de falsidades, de meias verdades, de mentiras inteiras.
Por situações como essas um cronista de televisão e cinema não é necessariamente o melhor formador de opinião sobre o que é mais recomendável a uma emissora de televisão (a maior do País) como método de esclarecimentos.
Toupeiras sociológicas entendem que democracia é o regime em que se percorrem exclusivamente caminhos confortáveis ou que, diversamente, é a resistência a uma esculhambação geral e irrestrita que abomina qualquer tipo de controle, inclusive das Forças Armadas em situação de caos da Segurança Pública e anarquia das instituições.
Entre uma situação e outra há um amplo e fértil campo de combate de ideias e de proposições que devem e precisa ser respeitado como uma banda larga e elástica à prática da liberdade de expressão e à liberdade de imprensa com responsabilidade e sustentação nos fatos e nas evidências. Estamos muito longe desse estágio. Já estouramos todos os limites tanto no estágio de conformismo que gera mecanismos de dissuasão à prática de jornalismo independente quanto na naturalidade com que encaramos excessos de agressividade muito além da civilidade.
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10/04/2026 ARCA DE NOÉ CONTRA O GATABORRALHEIRISMO (3)