Imprensa

Outros poderosos chefões (3)

DANIEL LIMA - 12/05/2008

O Estadão não toma jeito. Basta este jornalista cobrar de si mesmo mais atenção às páginas do jornalão, e eis que escorregadelas saltam das páginas.


Se os articulistas do Estadão imaginam que o caso Celso Daniel está morto, com perdão do trocadilho, se enganam completamente.


O massacre que a mídia perpetrou contra um inocente (Sérgio Gomes da Silva), eleito bode expiatório de uma situação em que a política partidária tomou conta do pedaço de intrigas e mentiras, não é algo para se esquecer.


A morte encomendada de um inocente que cometeu a sandice de estar na hora errada no lugar errado com o então prefeito de Santo André, e um dos homens de ouro daquele que viria a ser o governo de Lula da Silva, não pode ser mesmo esquecida.


Sérgio Gomes da Silva é um morto-vivo entre outros motivos porque a mídia em geral assim o quis.


Tenho coleções completas tanto do Estadão como da Folha de S. Paulo sobre o caso Celso Daniel. São parte das matérias-primas de um livro que pretendia lançar neste ano, mas que terei de adiar para que não se dê conotação eleitoral à empreitada rigorosamente jornalística.


O Estadão conseguiu ser mais pecaminoso que a Folha no caso Celso Daniel. As lambanças de repórteres e articulistas foram reincidentes. A Folha de uma jornalista que se deixou levar por fontes esfarrapadas também foi um fracasso, mas o Estadão é insuperável, porque carrega viés ideológico no noticiário político. É um aprendiz de feiticeiro da Veja que igualmente faz maldades com caradurismo de imparcialidade.


Querem uma prova do crime de informação deformada, manipulada e desavergonhada do Estadão no caso Celso Daniel?


Querem ver os leitores gataborralheirescos ou não do Grande ABC, que viram a bunda para a meca paulistana em reverência submissa a detentores do poder da chamada grande mídia, imaginando águas límpidas e serenas?


Querem ver? Pois vejam.


Em 5 de dezembro de 2003, quase dois anos depois do assassinato de Celso Daniel e às vésperas da prisão de Sérgio Gomes da Silva, um dos editoriais do Estadão sob o título “Indícios veementes” dizia exatamente o seguinte, em vários dos trechos que selecionei cuidadosamente para que o conjunto da obra não fosse avariado:


 Por mais que se tenha que recusar quaisquer prejulgamentos, pois é elementar que a Justiça no Estado Democrático de Direito jamais prescinda de uma ampla tessitura de defesa, ofertada a quaisquer suspeitos, não há como negar que, decorridos quase dois anos do assassinato do prefeito (…) se acumula um conjunto de indícios veementes que invalidam a versão policial “oficial”, segundo a qual tratou-se de simples crime comum. Nesse sentido, a notícia de que o Ministério Público de São Paulo já reuniu provas suficientes contra o empresário Sérgio Gomes da Silva e outro homem, cuja identidade permanece em sigilo, para denunciá-los por participação no sequestro e morte do ex-prefeito, significa menos novidade do que alívio para quem acompanhou a história (…). Preliminarmente, é preciso registrar o papel que a imprensa tem cumprido em, pelo menos de forma intermitente, voltar ao assunto e não deixar que desapareça de todo nos noticiários (…). Foi estabelecida a ligação entre o empresário Sérgio Gomes da Silva, que estava no carro de onde o prefeito foi sequestrado — e que teria escapado porque, para sorte sua, o carro desceu ladeira abaixo — com Dionísio Severo, um dos suspeitos, morto na cadeia, por sua vez, ligado, segundo muitos depoimentos de testemunhas, aos seis assaltantes presos pela polícia (…). De qualquer forma, é muito salutar que o MP dê mostras de estar empenhado em elucidar o caso, independentemente de quais sejam os constrangimentos políticos que possam, involuntariamente, ocasionar.


Agora, leitores, leiam os principais trechos do editorial do Estadão de ontem, domingo, sobre o caso Isabella:


 Desde a proliferação no rádio e na televisão de programas policiais de forte apelo popular, iniciada na década de 90, várias entidades da magistratura passaram a criticar de modo veemente o que chamam de “justiça espetáculo”: a exploração da violência e a manipulação de uma opinião pública não afeita às técnicas, procedimentos e normas do direito penal, por parte de comunicadores ávidos de audiência. Segundo os juízes, a pretexto de noticiar, esses programas são uma forma irresponsável de linchamento moral, substituindo a razão pela emoção e instigando o instinto primitivo de vingança. Foi por isso que os tribunais superiores aproveitaram o episódio da Escola Base (…) para aplicar sanções exemplares, em matéria de idenização por danos morais. Nunca, até então, os órgãos de comunicação tinham sido obrigados a pagar valores tão altos em condenações desse tipo. (…). O caso é diferente do episódio da Escola Base, mas os efeitos midiáticos são semelhantes. Embora o Tribunal de Justiça já tivesse concedido habeas-corpus aos dois acusados do assassinato da menina Isabella, permitindo-lhes aguardar o julgamento em liberdade, o promotor do caso recorreu e, em entrevista, pediu à opinião pública que o ajudasse a condená-los. Além disso, ao justificar o acolhimento do recurso, o juiz do 2º Tribunal do Júri da capital prejulgou o processo quando afirmou que os réus são “pessoas desprovidas de sensibilidade moral, sem um mínimo de compaixão humana” e que frustrar os interesses da opinião pública compromete a confiança da sociedade na Justiça. Submetidos a um ritual de execração popular, os réus foram moralmente condenados antes do pronunciamento do Tribunal do Júri que, no Estado de Direito, é a fonte legítima para julgar o caso. Não importa que os indícios periciais contrariem a alegação de inocência — o casal foi punido antes da fase processual que lhe garante o direito constitucional à ampla defesa. É no mínimo preocupante o caminho que alguns membros do Ministério Público e da magistratura estão trilhando, deixando-se levar pelo clamor público e pela comoção social, em vez de se aterem rigorosamente ao que diz a lei. (…). O STF tem inúmeras decisões dizendo que não basta que o crime seja grave e que exista uma comoção pública, que é coisa passageira, para se decretar uma prisão”. (…). O açodamento da polícia, do Ministério Público e de alguns juízes e o tratamento espetaculoso que a imprensa vem dando ao caso nada têm de original. Somam-se a outras, formando uma cadeia de demonstrações de irresponsabilidade que, num primeiro momento, em nada contribuem para aumentar a confiança da sociedade na ordem jurídica e na Justiça — e, em última análise, comprometem os princípios basilares do Estado de Direito e da democracia — escreveu o Estadão de ontem.


Talvez seja desnecessária complementação ao contraste de tratamento entre um caso em que um inocente (Sérgio Gomes da Silva) foi degolado moralmente (inclusive com reclusão durante nove meses) pelo Ministério Público e pela mídia (inclusive pelos programas sensacionalistas de TV que o Estadão tanto condena neste novo editorial) e um caso em que um casal encontra sérias dificuldades de contrapor-se às investigações policiais.


Situação bem diferente, é bom que se diga, do caso Celso Daniel, quando a Polícia Civil de São Paulo (sob o governo de Geraldo Alckmin e de José Serra) e a Polícia Federal (sob o governo Fernando Henrique Cardoso) foram a fundo de forma técnica, profissional e silenciosa nas investigações e concluíram que o crime que envolveu Celso Daniel não passou de ocasionalidade comum naqueles dias em que o Estado de São Paulo estava entregue à bandidagem.


Apenas os promotores criminais, definidos pelo delegado titular do DHPP como “amadores em investigação”, chegaram à conclusão, espetaculosa e cada vez mais esburacada de contradições, de que Sérgio Gomes foi o autor intelectual do crime.


Os articulistas do Estadão precisam estar alertas para pelo menos serem coerentes nas desavergonhadas manipulações que perpetram por conta de diferenças políticas, partidárias e ideológicas.


Sérgio Gomes da Silva só não é um caso Escola Base porque há uma covardia generalizada de representantes de instâncias midiáticas, policiais e judiciárias, além do Ministério Público, em desmascarar os malfeitores éticos que deitaram e rolaram sobre o cadáver insepulto de um inocente. E a explicação para isso é simples: essas mesmas instituições que deveriam zelar pelo Estado de Direito tão apregoado pelo Estadão são cúmplices de um crime bárbaro contra o primeiro-amigo de Celso Daniel.


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