Economia

Até que fevereiro
não foi dos piores

DA REDAÇÃO - 05/04/1999

O quadro de desemprego no Grande ABC não se deteriorou em fevereiro. Contrariando expectativas de que os postos de trabalho seriam reduzidos em proporções mais preocupantes, os sete municípios da região registraram taxa de desemprego de 20,6% da  PEA (População Economicamente Ativa), o que significa 236 mil pessoas fora do mercado de trabalho. Situação semelhante à de janeiro, quando o índice atingiu 20,4%. O nível de ocupação variou 0,3%, interrompendo o movimento de declínio registrado nos dois meses anteriores. Esse desempenho, decorrente da criação de três mil postos de trabalho no setor terciário (comércio e serviços), teve o contrafluxo da entrada de sete mil pessoas na força de trabalho. O saldo negativo, portanto, atingiu quatro mil pessoas. 

A PED (Pesquisa de Emprego e Desemprego) é realizada pela Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) e pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) em convênio com o Consórcio Intermunicipal de Prefeitos e foi anunciada no dia seguinte à divulgação do quadro em São Paulo. A taxa de desemprego na Região Metropolitana de São Paulo atingiu 18,7% em fevereiro, com variação de 5,1% sobre janeiro (17,8%), e alcançou 17,7% no Município de São Paulo, com variação de 8,6% sobre janeiro (16,3%).

Como explicar que pelo menos em fevereiro a taxa de desemprego no Grande ABC agravou-se menos que a da Capital e da Região Metropolitana, onde foram eliminados 84 mil postos de trabalho? Sinésio Pires Ferreira, gerente de Análise do Dieese, e representantes sindicais alinhavaram pelo menos três razões durante a apresentação da pesquisa, na sede do Consórcio Intermunicipal, em Santo André: 

Primeiro -- Em fevereiro, o Grande ABC vivia momentos de relaxamento, depois da tensão provocada pela anunciada demissão de 2,8 mil trabalhadores da Ford, cujos efeitos se espalharam por todo janeiro. As negociações entre o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e da Ford evitaram desemprego em massa. Como o Grande ABC é movido pelas montadoras de veículos e autopeças, que representam perto de 70% do PIB regional, o recuo da Ford exerceu grande influência nas expectativas econômicas.

Segundo -- A possibilidade do acordo automotivo que reduziu IPI e ICMS, consolidado em março, estimulava a expectativa de reaquecimento do mercado e consequente oxigenação da produção.

Terceiro -- A desvalorização do real serviu como bálsamo às autopeças, castigadas desde o início da década pela abertura econômica e a partir de 1994 pelo enfraquecimento cambial do dólar. O anúncio das montadoras de veículos de redirecionar estratégias de produção, aumentando a nacionalização de peças e componentes, embalou a confiança dos fornecedores locais. 

Com a matriz econômica muito mais dependente da indústria do que de comércio e serviços, ao contrário da Capital e da maioria das demais cidades da Região Metropolitana de São Paulo, os resultados do quadro de desemprego no Grande ABC não poderiam ser diferentes. São Paulo acusou maiores golpes de retração econômica porque o setor terciário sofreu com a sazonalidade típica do período. 

Menos assalariados -- A pesquisa da Fundação Seade e do Dieese identificou diminuição da parcela de assalariados no total de ocupação, decorrente do declínio de trabalhadores sem carteira assinada, que caiu de 12,4% para 11,6% entre janeiro e fevereiro. Pouco mais da metade dos trabalhadores da região conta com carteira assinada -- 53,1% em fevereiro, contra 52,6% em janeiro. 

A proporção de pessoas ocupadas no Grande ABC que atuam como trabalhadores autônomos variou de 19,1% para 20% entre janeiro e fevereiro. Enquanto a parcela de ocupados que trabalham como empregados domésticos permaneceu praticamente inalterada (7% de janeiro para 7,1% em fevereiro), a participação de empregadores passou de 5,7% para 5,4%. 

O salário médio do Grande ABC registrou variação positiva de 1,4%, bastante superior à da RMSP (0,3%) e à de São Paulo (0,5%). O resultado, segundo Sinésio Ferreira, deveu-se ao desempenho mais favorável dos salários médios do setor privado. Embora o salário na indústria tenha apresentado elevação menor, no setor terciário houve crescimento apenas no Grande ABC. 



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