Imprensa

Outros poderosos chefões (5)

DANIEL LIMA - 16/03/2009

É claro que o ombudsman da Folha de S. Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, não poderia deixar passar em branco, na coluna de domingo do jornal paulistano, a derrapada editorial que abordei neste espaço — Outros poderosos chefões (3) — porque apenas os leitores desatentos não captaram a mensagem discriminatória ao governo federal. E como não faltam leitores que passam os olhos sobre os textos sem fixar a mente no que leem, é mais que importante a intervenção de quem é do ramo. Pena que o ombudsman tenha cometido também duas barbaridades interpretativas.

Primeiro, o reparo do ombudsman:

  • Na capa do jornal e nos locais de destaque, insistiu-se (a Folha) na tese de que, por seu PIB ter tomado um dos maiores tombos entre as 37 nações listadas, o Brasil está entre os principais atingidos pela crise. Não é bem assim. Foi porque o país cresceu mais que os outros um ano inteiro que o contraste entre o quarto e o terceiro trimestres de 2008 foi tão intenso. Como diz o quinto parágrafo do texto da página B1: “E o fato de o Brasil ter sofrido uma retração maior do que nos outros países no último trimestre do ano passado não significa que a crise aqui seja maior”.

Até aí a intervenção do ombudsman é perfeita. O problema vem antes e também depois. Carlos Eduardo Lins da Silva critica a Folha por comparar a situação do Brasil com outros países, mote, aliás, do título da coluna: “O meu PIB caiu mais do que o seu”. Acompanhem:

  • Foi um erro. A comparação com outros países pode ser importante para analistas e estudiosos, mas não é fundamental para o leitor. Para o cidadão comum, não interessa muito se a crise aqui é maior ou menor do que na Cochinchina. O que mais lhe importa é saber se ele vai manter o emprego e a renda, se o ambiente econômico do setor em que trabalha está saudável ou não, quais são as perspectivas para o futuro.

É claro que o ombudsman usa argumentação insustentável. Bastaria dizer que vivemos num mundo rigorosamente global, de interdependências que não podem ser atiradas sob a cama da acomodação interpretativa. A crise que varre a maioria dos PIBs do planeta começou nos Estados Unidos. Basta essa característica para sufocar o isolamento que o ombudsman sugere para qualquer tipo de informação econômica.

É muito importante sim esclarecer a situação econômica do Brasil tendo referenciais em diversos continentes. A desgraça que também atinge a Europa nos últimos meses espalha-se para o restante do mundo, com menos ou mais impacto, dependendo de cromossomos da economia de cada país, se dependente demais de importações, de exportações, de financiamentos externos, da saúde de instituições financeiras, enfim, de imensa rede de interlocução.

Teria sentido comparar os números da segurança pública dos municípios do Grande ABC com os de outras praças da Grande São Paulo e do Interior?

É claro que sim. Provei isso à frente do laboratório virtual IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos). Descobrimos que não havia fundamentação técnica para as manchetes de jornais locais, insistentes ao longo dos anos, contra os valores cobrados por seguro de veículos no Grande ABC. Pelo menos no sentido de que as praças interioranas eram beneficiadas.

Provamos, com base em comparações entre municípios e custos de apólices, que o Grande ABC sim é beneficiado pelas seguradoras. Sabem por que? Porque os riscos de roubos e furtos eram e continuam sendo proporcionalmente muito maiores do que em municípios interioranos mais importantes do Estado. De fato, verdadeiramente, os municípios interioranos subsidiavam e ainda subsidiam valores supostamente elevadíssimos de apólices de veículos da Grande São Paulo.

Para os desinformados, esse tipo de notícia é um desastre, uma aberração, porque foge do monolítico discurso de vitimização do Grande ABC.

Da mesma forma que o ombudsman da Folha desconsidera a perda de PIBs de vários países, não faltaram triunfalistas regionais que condenaram minha intervenção naquela contabilidade. O espírito de regionalidade só prevalece quando o individualismo material ancora as iniciativas.

Também errou o ombudsman da Folha de S. Paulo na análise da publicação da matéria ao se referir ao seguinte aspecto:

  • Além disso, chamada de primeira página e linha fina da manchete interna dão ao noticiário, que tem obrigação de ser isento, tom injustificável de editorial, com afirmações como “o país está entre os mais atingidos (…) ao contrário do que o governo vinha dizendo”, ou o desempenho do PIB “faz ruir o discurso oficial de que o país seria pouco afetado”. Se o jornal quer destacar que o governo errou em suas análises, publique objetivamente declarações antigas dos governantes e dados atuais. E deixe o leitor decidir se eles fazem ruir o discurso, se o discurso era um castelo de areia, se foi a conjuntura que mudou ou se é obrigação de todo dirigente infundir otimismo na sociedade. Ou qualquer coisa que queira concluir. O leitor é inteligente. Não precisa dessas “mãozinhas retóricas” — escreveu o ombudsman.

Sei lá se Carlos Eduardo Lins da Silva está às turras com a editoria de Economia da Folha de S. Paulo, mas exagerou na dose na coluna de domingo.

A primeira parte do comentário final tem sentido. Os analistas poderiam ter ido mais a fundo na reconstrução das declarações do governo federal sobre a receptividade à crise. Entretanto, daí querer transformar as páginas da Folha em desaguadouro de frases sem qualquer compromisso com análise, com interpretação, vai diferença enorme.

Essa idéia de que os leitores são inteligentes é hipocrisia. Há leitores inteligentes, há leitores acomodados, há leitores emburrecidos, há leitores de todas as espécies; como jornalistas, aliás. Compete a cada profissional de comunicação escrever com arte e emitir sim juízo de valor, responsabilizando-se, em contrapartida, por eventuais tropeços. A assinatura de uma matéria abre as portas da interpretação. O livro “Meias Verdades”, que escrevi há seis anos, está recheadíssimo de casos que têm a deformação sugerida pelo ombudsman da Folha, ou seja — os repórteres se limitaram a repassar informações de terceiros e, com isso, industrializaram baboseiras.

Quem fica em cima do muro, quem só atira pétalas ou quem prefere unicamente jogar pedras jamais conseguirá, como jornalista, o respeito indispensável. Jornalista amado demais, odiado demais ou incapaz de provocar reações é jornalista tecnicamente morto e socialmente desprezível.


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