Walter Santos, o novo dono da revista Livre Mercado, foi um anjo que apareceu em minha vida. Graças à ambição dele me livrei de um pesadelo, o pesadelo de, por conta de uma paixão jornalística e de confiar em quem jamais deveria ao menos estender a mão, me meti na enrascada de assumir integralmente uma empresa, a Editora Livre Mercado, que vinha mal das pernas financeiras há muito tempo. Nada diferente da mídia em geral. Preferi vender a marca à alma, como muitos o fazem sem o menor pudor e constrangimento.
Walter Santos é um homem de negócios, viu na publicação uma oportunidade de juntar o útil da recuperação tributária da Best Work, sua empresa, e o agradável do que imaginava e imagina ser o suprassumo da visibilidade — comandar uma publicação respeitável.
O problema de Walter Santos é que nem o fato de ter aparecido como salvador de minha pátria financeira o afasta do foco crítico. O jornalismo do Grande ABC perdeu uma grande publicação, tratada com desvelo e atenção, e ganhou uma publicação qualquer, que tenta ludibriar os botocudos que desse ofício nada entendem e se satisfazem com a plasticidade sem qualidade, sem eira nem beira.
Walter Santos é um pavão frondoso. Adora bajulação. Seus olhos e seu apetite por negócios se aguçaram quando acompanhou no ano passado as duas etapas do Prêmio Desempenho no Clube Atlético Aramaçan. Trocou tiragem e conteúdo por estética física e mesmices editoriais. Mal sabia que o que era festa para os convidados exigia trabalho redobrado da organização. A Reportagem de Capa que destacou a especialidade de sua empresa — transforma arquivo morto em dinheiro vivo — o inebriou. A repercussão foi extraordinária. Mal sabia ele — ou sabe e finge de morto que havia por trás da circulação de LivreMercado uma sintonia perfeita entre o produto e o público-alvo tanto em conteúdo quanto em logística. Ele dissolveu essa fórmula com a sinistra simbiose de sarapatel de textos e anorexia distributiva.
Os olhos de Walter Santos cresceram sobre LivreMercado tanto quanto as orelhas, mais tarde, depois de tornar-se proprietário da marca. Num dos dois coquetéis que promoveu no começo da temporada para anunciar as novidades de Livre Mercado, cercado por jovenzinhos metidos a besta e por um oportunista de sempre que se apresentou como representante dos conselheiros, Walter Santos fez algumas promessas de conteúdo fanfarrão em voz muito bem calibrada de suposta cordialidade e elegância. A forma muitas vezes esteriliza o conteúdo. Principalmente entre os incautos que se deixam levar pelas aparências.
Walter Santos prometeu que a revista Livre Mercado (é assim, separadamente, como fez questão de alterar a marca LivreMercado) jamais se meteria em política. A frase ainda ecoa em meus ouvidos, embora não estivesse presente à festa. Estava, sim, em casa, celular ao ouvido, conectado com um dos conselheiros que fez questão de manter o aparelho ligado durante todo o tempo de discursos. Desconfiava de que Walter Santos não perderia a oportunidade para desdenhar o produto que comprou para alardear mudanças e imprimir estilo próprio. A vaidade sobrepõe-se fartamente à inteligência.
Discriminatoriamente, Walter Santos tratou a atividade política como algo nocivo e pecaminoso. Entretanto, as três edições do que ele chama de nova Livre Mercado apresentaram entrevistas que não passam de levantada de bola para Clóvis Volpi e Kiko Teixeira, além de uma insossa Reportagem de Capa com Aidan Ravin e sua equipe. Seria possível fazer as mesmas entrevistas e a mesma Reportagem de Capa com outra embocadura. Cansamos de produzir esse tipo de material. Os arquivos estão à disposição para conferir a distância quilométrica entre jornalismo e subserviência.
Bem antes da primeira edição da nova Livre Mercado, Walter Santos despachou seu capacho, o gerente comercial Cristiano Horcell para representar a publicação numa reunião dos prefeitos do Grande ABC com Gilberto Kassab em São Paulo. Cristiano Horcell é o que poderia ser chamado de cooptável à primeira oferta. Walter Santos tem olho comercial clínico e o arrematou ainda nos tempos em que constava da folha de pagamentos da direção anterior. O diretor comercial distribuiu dezenas de cartões de apresentação aos prefeitos e assessores. A apologia antipolíticos é apenas marketing para efeitos externos.
Agora, Walter Santos está preparando uma associação informal com o deputado estadual Orlando Morando para lançar um jornal popular para distribuição no Grande ABC. Orlando Morando é um político competente no sentido de fazer política, é uma das apostas dos tucanos graduados da Capital para alavancar a votação de José Serra e de Geraldo Alckmin nas eleições do ano que vem e tem cacife político e entranhamento estatal para dar suporte a campanhas publicitárias que contam com recursos do governo paulista. Nada extraordinário em tudo isso, porque esse não será o primeiro nem o último jornal tablóide ou assemelhado que circulará no Grande ABC sustentado por conjunções político-partidárias. O problema é que o novo dono da nova Livre Mercado anunciou que os políticos não teriam vez — como se tivessem tido anteriormente na forma ardilosa que insinuou, utilizando-se da tática inescrupulosa de depreciar terceiros.
Walter Santos também prometeu aos conselheiros editoriais de Livre Mercado — um dos legados da direção editorial que dirigiu a publicação por 19 anos — que faria mais que uma edição anual do Prêmio Desempenho. Além do Grande ABC, onde a premiação reúne tradição de 15 anos e 1.718 troféus entregues sempre com decisão do Conselho Editorial e auditoria externa, outras cinco regiões da Grande São Paulo seriam contempladas.
O tempo passa e o Prêmio Desempenho, da qual este jornalista detém 50% da marca, está atravancado. O novo dono de Livre Mercado não presta nenhuma satisfação a este jornalista e muito menos aos conselheiros. As novas Madres Terezas, os novos Freis Galvão, os novos Imortais in Vita, os novos Imortais in Memorian, os Destaques do Ano, os Melhores do Ano, os Melhores dos Melhores, o Melhor dos Melhores que se lixem.
O jornalismo do Grande ABC que já anda tão debilitado, sofrendo como sofre os danos de novos tempos, de novas tecnologias, de enfraquecimento cultural, econômico e financeiro da classe média, poderia muito bem passar sem Walter Santos. Mas seria muito castigo para este jornalista que sempre praticou jornalismo com responsabilidade social, se não aparecesse esse frondoso pavão a lhe salvar a pele, para tristeza dos abutres que tudo fizeram para inviabilizar aquela que já foi a melhor publicação regional do País.
Fosse omisso e pensasse egoisticamente, até porque Walter Santos tem pendências financeiras com este jornalista, as quais vai cumprir, custe o que custar, não exporia essas frestas da personalidade do novo dono de Livre Mercado. Não faltarão os idiotas que procurarão deturpar os fatos ao dizer que estou praticando o choro dos perdedores. Mal sabem esses idiotas juramentados que Walter Santos me transformou em vencedor num campo em que cantarolava inteira sapiência — o campo da administração, do gerenciamento. A cessão da marca LivreMercado foi um negócio da China para este jornalista entre outras razões porque lhe vendi um McDonald’s que desativou a linha de produção, os arcos e o telhado avermelhado. Ou seja, a Best Work ficou sem a essência do produto, centro do sucesso editorial de duas décadas.
Walter Santos é um novato na área editorial. Vai acabar quebrando a cara, porque implantou no Grande ABC uma concorrência predatória. A tabela de preços de anúncios desmancha-se em valores de acordo com os interesses paralelos em jogo. Faz-se de tudo para encher as páginas de mensagens comerciais. Corrompe-se a ética dos negócios publicitários.
Walter Santos não tem pressa em fazer dinheiro com jornalismo porque a recuperação tributária é o sustento da Best Work. Também não tem pressa em cumprir os compromissos contratuais que definiram a cessão da marca da revista da qual tanto se orgulha. Não só não tem pressa como não cumpre os compromissos dentro de padrões éticos que este jornalista, ao perceber que não poderia honrar, não teve dúvidas em abrir mão da publicação.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)