Alberto e Ernesto poderiam formar uma dupla de viola, tal a preocupação em andar arrumadinhos, parecidinhos, uniformizadinhos. Para eles, executivos de uma média empresa, havia um norte mais forte. Eram apaixonados por gravatas. Apaixonadíssimos. Dizem as más línguas que não só dormiam como sonhavam que usavam gravatas. De vez em quando teriam pesadelos por descuido do inconsciente ao flagrarem-se metidos em calção, camiseta, meias e chuteiras, mais nada, jogando futebol. Ernesto e Alberto não admitiam outra vida que não sob o conforto das gravatas. Sim, conforto das gravatas porque, por mais que isso possa parecer estranho, eles estavam para as gravatas assim como Don Juan para as conquistas femininas. Engravatados, Ernesto e Alberto se sentiam os donos da bola. Não interessava se o ambiente de trabalho estava deteriorado por falta de comando. Eles exigiam que todos, indistintamente, usassem gravatas. "Nossa clientela vai adorar receber a visita de gente bonita, bem apanhada" -- diziam ambos, em coro de cantores de viola. Ai de quem se aproximasse para alertá-los sobre os problemas de relacionamento com clientes e fornecedores. Havia questões crônicas, recorrentes, de mau atendimento, de retrabalho, de descumprimento de prazo, mas nada disso apetecia a Ernesto e Alberto. O importante era a aparência. E aparência sem gravata não era aparência. Era indecência.
Não foram poucos os casos de punição com advertência e até mesmo demissão por falta de uso de gravata. Tudo ia bem até que Ernesto e Alberto tiveram o cuidado neurótico de escrever juntos uma ode à gravata. Foi num final de expediente, quando todos naturalmente soltam o nó da gravata, que decidiram redigir os 10 mandamentos da gravata. Doentiamente loucos por gravatas, não concediam a ninguém o direito sagrado de, final de expediente, abrir o colarinho e respirar mais profundamente.
Ernesto e Alberto sentaram-se lado a lado para produzir os mandamentos da gravata. Teriam de ser 10, para marcar os limites da paixão que nutriam pelo ornamento tanto quanto Moisés pelas suas leis tão famosas. Em vez da montanha bíblica, preferiram a altitude metafórica garantida por generosas doses de uísque. Sim, porque nestes tempos modernos não tem cabimento sair por aí em busca de uma montanha qualquer para se sentir acima do bem e do mal quando se tem o poder etílico bem mais agradável e confortável à mão.
Quando preparavam os mandamentos da gravata, Ernesto e Alberto se esmeraram. "Como não pensei nisso antes" -- diz Alberto para um Ernesto de olhos arregalados. "No que, companheiro?". "Ora bolas, um dos mandamentos tem de ser claro: é proibido repetir a mesma gravata dois dias da mesma semana; só pode usar de novo na semana seguinte". "Idéia genial" -- respondeu de pronto o outro executivo. E foi assim até altas horas da noite. Os 10 Mandamentos da Gravata viraram quase 100 artigos repletos das mais estranhas propostas. No dia seguinte, quando todos os funcionários chegaram para o expediente, ocorreu algo inesquecível para Ernesto, Alberto e demais colaboradores. Mal se acomodaram em seus gabinetes, Ernesto e Alberto receberam a visita do presidente. Pela primeira vez na história da empresa o presidente resolveu vestir calça jeans, camiseta desbotada e tênis bem cuidado. Avisado da estripulia normativa dos dois executivos, o diretor-presidente compareceu à empresa com ares nada complacentes. E botou a dupla de engravatados no olho da rua. Ernesto e Alberto estão procurando emprego. Empinadamente de gravata. Sabem que não é todo mundo que distingue um bom executivo de gravata de um mau executivo também de gravata.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)