Imprensa

Nossa Candelária é
melhor que a do Rio

DANIEL LIMA - 05/07/2001

Qualificar e dimensionar a dinâmica da economia regional pela quantidade de empreendimentos assemelha-se a acreditar que uma equipe de futebol é necessariamente melhor do que a oponente se o boletim de estatísticas creditar-lhe maior incidência de finalizações. Quantas e quantas vezes uma partida de futebol tem mostrado que um time que eventualmente chuta mais ao gol adversário na verdade agiu com tamanha incompetência e precipitação, que o resultado final que lhe aponta mais uma derrota fez justiça a quem foi mais organizado e efetivo? 

O perigo de utilizar números sem análise contextualizada e sistêmica é muito mais prejudicial à comunidade do que as distorções estatísticas num campo de futebol, porque as consequências vão muito além dos 90 minutos. Muitas análises gerenciadas sob o signo do oportunismo corporativo, mercantil ou mesmo institucional não passam de manobras para colocar a platéia a escanteio. O problema é que nem todos aceitam show de pirotecnia circense quando se trata de diagnosticar enfermidades.   

O Grande ABC é pródigo em fanfarronices numéricas. Há sempre um oportunista de plantão para promover mágicas. Há situações em que o dolo estatístico nem se caracteriza, porque o que se produz mesmo é um amontoado de bobagens sem engenharia de maldade. Mas há também informações deliberadamente difusas que procuram o aval de quem eventualmente ocupa cargo de notoriedade. 

É comum entre agentes públicos divulgar estatísticas grandiloquentes. Não é de hoje que se pratica esse esporte perigosamente canhestro. Contabilizam-se novas empresas sem qualquer preocupação com especificações de tamanho e valor agregado. Colocam-se todas no mesmo saco de gatos. Misturam-se indústria, comércio, serviços e profissionais autônomos com a proposta explícita de vender a idéia de que a quantidade tem qualidade e que, bingo!, todos os estudos em contrário devem ser atirados no cesto do lixo.

A multiplicação de empresas no Grande ABC é obra de raízes diversas, mas sob nenhum ponto de vista representa desenvolvimento sustentado -- o que efetivamente pesa num quadro de exclusão social e empresarial. É impossível comprovar crescimento da economia diante de indicadores de PIB, Índice de Potencial de Consumo, Valor Adicionado e ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) que apontam na direção contrária. 

Por que então sobe o universo de empresas? A resposta é tão simples quanto tomar um doce de criança: porque os desempregados da desindustrialização fazem qualquer coisa para ganhar o pão nosso de cada dia. Quantos dos mais de 10 mil ex-trabalhadores da Cofap, dos mais de 13 mil ex-trabalhadores da Brastemp e dos mais de 120 mil empregos industriais formais que a região perdeu entre 1989 e 1997 viraram empreendedores? Uma Brastemp que foi embora significava apenas uma unidade industrial. Quantos desempregados da produtora de fogões e geladeiras viraram pequenos negócios, entre os quais de terceirização e quarteirização? É incalculável. Por isso, quantidade não é qualidade quando se tem um terremoto econômico como o que assolou o Grande ABC. Basta cruzar os dados.

Outro componente geralmente ignorado pelos fabricantes de ilusão é que o índice de mortalidade empresarial está muito acima do que detecta a burocracia pública. Se é indispensável a formulação jurídica de um empreendimento, geralmente o custo do fracasso não suporta nem mesmo o cancelamento do registro. Por isso, o descompasso entre abertura e fechamento dos pequenos negócios é maior do que apontam as estatísticas. Há empresas e sonhos mortos que se mantêm intactos estatisticamente. Como a burocracia numérica adora. 

Tentar provar a dinamicidade econômica sem informações sistêmicas tem o mesmo sentido de sustentar que o índice de jovens e crianças nas ruas sofreu forte queda não porque foram adotadas políticas públicas recomendadas por especialistas, mas porque se aplicou a escandalosa terapia da Candelária. Nossa Candelária, no caso, são os empregos industriais que se metamorfosearam, inclusive tomando a forma de desemprego. Menos mal que a solução final da Candelária original. 


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